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O Desafio do Topo da Montanha (01/07/2005)
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Roberto Rodrigues e Silvio Crestana*


Vivemos um momento único e extraordinário da história da civilização humana e, em especial, do Brasil. Enormes desafios, ameaças e oportunidades pairam sobre nossos horizontes e desafiam nossa inteligência. Novos paradigmas, arranjos, alianças e incertezas estão a desafiar a competência das lideranças em qualquer nível que atuem, especialmente, na gestão. Ousadia, coragem, competência, disposição em correr riscos e criatividade são alguns dos ingredientes mínimos dessa nova construção. Albert Einstein, autor da centenária Teoria da Relatividade, dizia que ”....na crise, a criatividade é muitas vezes mais importante que o conhecimento.....”.

E foi justamente a criatividade, aliada à competência e ao planejamento estratégico, que compôs o cenário no qual a Embrapa surgiu, em 1973, com quatro grandes desafios: garantir o abastecimento de alimentos nas cidades, que já recebiam boa parte da população do campo e abrigavam a maioria dos pobres; ajudar a levar o desenvolvimento ao interior do país, criar riquezas, gerar empregos e bem-estar na área rural; preservar a base de recursos naturais de nosso território e criar excedentes para a exportação.

As estatísticas não deixam dúvidas quanto ao cumprimento dos objetivos, pois o desempenho da agropecuária brasileira se tornou incomparável.  A produção de grãos cresceu 131% desde 1990, período no qual a área plantada teve uma ampliação de apenas 16,1%; já o rendimento das principais culturas agrícolas saltou de 1,5 tonelada para 2,8 toneladas por hectare.

As digitais da pesquisa agropecuária, responsável pelo desenvolvimento de 529 novos cultivares - adaptadas especificamente a cada clima e solo nas principais regiões produtoras do Brasil – estão registradas nesse desenvolvimento. Chancela semelhante tem o complexo carne, por intermédio do melhoramento genético e da certificação de origem do produto. Dono do maior rebanho bovino comercial do mundo, o Brasil tem mais de 80% das suas 195 milhões de cabeças em áreas livres da febre aftosa, doença altamente contagiosa e economicamente devastadora.

As marcas da Embrapa estão gravadas em quase todas as etapas desse sucesso: a incorporação dos Cerrados à área produtiva nacional, o inventário sobre o potencial dos nossos diferentes ecossistemas, a fruticultura irrigada no Nordeste, o alto índice de modernização tecnológica dos sistemas de produção, a expansão de produtos amazônicos e nordestinos a novos mercados, a queda dos preços dos produtos da cesta básica do brasileiro, possibilitando maior variedade de itens que compõem a dieta da população, além de uma série de produtos importantes que hoje fazem diferença no campo, como o suíno light, as variedades de cenoura genuinamente brasileiras (e que podem ser plantadas o ano todo), a fixação biológica de nitrogênio no solo (que a cada ano traz economia de US$ 1,5 bilhão somente na cadeia da soja nacional), o algodão colorido, dentre outros.

O mesmo aconteceu, em maior ou menor grau, com hortaliças, flores, fibras e essências florestais. Desde o início dos anos 70, a agropecuária brasileira tem expandido a sua capacidade de produção em torno de 4% ao ano. Quase 500 anos depois, uma frase produzida por Pero Vaz de Caminha soa premonitória, com alguma adaptação provocada pela ciência: "nesta terra, com pesquisa, em se plantando praticamente tudo dá". Por meio de uma revolução silenciosa, chegamos ao “topo da montanha” e agora temos um novo desafio, inverter a lógica da descida iminente, ganhar “musculatura” e habilidade para galgar as próximas montanhas, mais íngremes e altas.

O Brasil tornou-se um ator destacado no cenário mundial, passou a influir decisivamente no preço e no fluxo de alimentos e outras commodities agrícolas, bem como desembarcou no centro de todas as disputas legais e diplomáticas em torno de subsídios, cotas e outras barreiras que impedem o acesso dos produtores agrícolas aos mercadores consumidores. O país é um dos líderes mundiais na produção e exportação de vários produtos agropecuários, ocupa o primeiro lugar como produtor e exportador de café, açúcar, álcool e sucos de frutas. Além disso, lidera o ranking das vendas externas de soja, carne bovina, carne de frango, tabaco, couro e calçados de couro. As projeções indicam que o país também será, em pouco tempo, o principal pólo mundial de produção de algodão e biocombustíveis, feitos a partir de cana-de-açúcar e óleos vegetais. Milho, arroz, frutas frescas, cacau, castanhas, nozes, além de suínos e pescados, são destaques no negócio agrícola brasileiro, que emprega atualmente 17,7 milhões de trabalhadores somente no campo.

Líder na agricultura tropical, em dez anos, o país dobrou o faturamento com as vendas externas de produtos agropecuários e teve um crescimento superior a 100% no saldo comercial. Esses resultados levaram a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) a prever que o país será o maior produtor mundial de alimentos na próxima década.

Com pelo menos 90 milhões de terras agricultáveis ainda não utilizadas, o Brasil pode aumentar em, no mínimo, três vezes sua atual produção de grãos, saltando dos atuais 123 milhões para algo em torno de 350 milhões de toneladas. Esse volume, porém, poderá ser ainda maior, considerando-se que 30% dos 220 milhões de hectares hoje ocupados por pastagens devem ser incorporados à produção agrícola em função do expressivo aumento da capacidade de suporte das pastagens.

Ocorre que o Brasil não pode deitar-se sobre os louros da liderança e desprezar a disputa por esse lugar pela Europa e Estados Unidos, de quem se espera auto-defesa e reação, traduzida em aumento da competitividade em vários produtos da cadeia do negócio agrícola.

Em nosso horizonte devemos pensar e antever a agropecuária de um futuro que tem pressa. O agir começa com uma semente, a ser plantada agora, no terreno da ciência, tecnologia e inovação: o investimento em áreas de fronteira do conhecimento como biotecnologia, nanotecnologia, agricultura de precisão, temas emergentes como agroenergia, créditos de carbono, biossegurança e outros, detalhados nos artigos escritos por pesquisadores da Embrapa especialmente para este caderno especial da revista Agroanalysis.

Com sua rede de laboratórios no exterior - os Labex – nos Estados Unidos e Europa, com projeto de expansão para a Ásia, a Embrapa alicerça parcerias produtivas com a comunidade internacional de pesquisa agrícola, para manter a capacidade brasileira de investigar o futuro, antecipar as perguntas, e começar desde já a construir as respostas que o bem estar da humanidade vão requerer.

Ela não ignora que a manutenção do capital científico do Brasil, expresso num time de profissionais bem treinados, motivados e equipados para trafegar na fronteira do conhecimento, é a única garantia de que o país vai continuar a contribuir para o crescimento do negócio agrícola tropical, em bases ambientalmente sustentadas.

Eis a terra fértil para germinar as sementes e produzir novos frutos. O desafio é este: se manter no topo da montanha. Ciência, tecnologia e inovação constituem palavra de ordem para preservar a força do negócio agrícola brasileiro, para que ele seja eficiente e competitivo, multifuncional e sustentável, sem distinção entre pequenos e grandes e possa continuar gerando empregos e riqueza para o país, distribuindo a renda no campo e na cidade.


- Artigo publicado na Revista Agroanalysisde de abril de 2005
- *Roberto Rodrigues é Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
- *Silvio Crestana é Diretor-Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

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