Resistência antimicrobiana x produção animal: Uma discussão internacional
(07/12/2004)
Terezinha Padilha (*) Nos últimos anos, a ocorrência de bactérias resistentes aos principais compostos antibióticos tem aumentado, havendo inclusive o relato de casos isolados com resisténcia múltipla. Devido à amplitude e freqüência do acontecimento da resistência antimicrobiana, ela é considerada uma questão emergente e significativa para a saúde pública, tendo recebido atenção de organizações que tratam desse aspecto, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE) e o Codex Alimentarius. O aparecimento e a dispersão das bactérias resistentes ocasionam obstáculos aos procedimentos clínicos e aumentam os custos do tratamento e as taxas de morbidade e mortalidade, na população humana. O desenvolvimento de resistência antimicrobiana é geralmente relacionado com o uso inadequado dos compostos antibióticos, entre os humanos. As bactérias resistentes se dispersam na comunidade, pelas rotas comuns de transmissão pessoa-pessoa. Contudo, a rapidez com que alguns isolados resistentes têm se disseminado, em várias regiões geográficas, sugere que a transmissão pessoa-pessoa possivelmente tenha um papel limitado, e que uma fonte comum e amplamente utilizada pela população tenha uma função importante na disseminação das bactérias resistentes, chamando atenção para os alimentos como um possível veículo, e associando a rápida disseminação ao incremento do comércio internacional de produtos alimentícios, ocorrido nos últimos anos. Os antibióticos são amplamente utilizados na produção animal. Inicialmente eles eram usados como medida terapéutica, mas com o avanço do conhecimento e desenvolvimento de novos compostos, eles passaram a ser utilizados como medida preventiva e como promotores do crescimento. Seu uso garantiu os altos índices de produtividade obtidos nas últimas décadas, e também a redução da mortalidade e morbidade, e a manutenção do bem-estar animal. A utilização de antibióticos é considerada indispensável nos sistemas atuais de produção. Eles são amplamente utilizados em todas as fases de produção, ou ciclo de vida dos animais. Animais enfermos necessitam de tratamento por questões éticas, para a garantia da segurança alimentar e para o controle e a prevenção de várias zoonoses. A eliminação desses compostos, como medida profilática, ocasionaria o aumento da incidência de surtos de enfermidades e o conseq�ente incremento no uso dos antibióticos, como medida terapêutica. A supress?o do emprego dos antibióticos, como promotores de crescimento, induz à redução de desempenho e ao aumento na sua utilização como agentes terapêuticos, especialmente para as doenças entéricas, cuja incidência é reduzida pela ação das doses subterapêuticas das formulações. Apesar de não ser clara a associação entre o uso de antibióticos nas unidades de produção animal, o desenvolvimento de resistência e a sua transferência à população humana, vários estudos epidemiológicos sugerem que o consumo de derivados animais seja uma possível via de transmissão de bactérias resistentes. Essas evidências levaram as organizações internacionais ligadas à saúde humana e animal a recomendar prudência no uso desses compostos. Discussões recentes, nos Estados Unidos e no Canadá, abordaram a provável associação entre o uso de antibióticos na produção animal e a rápida disseminação de bactérias resistenes evidenciaram a necessidade do estabeletes na população humana. Essas discuss?cimento de programas de controle, visando a promover a redução e/ou o uso adequado desses compostos nas populações animais destinadas ao consumo humano. Na Europa, a Suécia e a Dinamarca foram os primeiros países a estabelecer programas de controle de uso de antibióticos na produção animal. Em 1986, a Suécia eliminou o uso desses compostos, como promotores de crescimento, direcionando o seu uso apenas para a terapia de animais enfermos, e passou a requerer prescrição veterinária. A Dinamarca implementou medidas relacionadas à comercialização de antibióticos, que determinaram redução do uso na produção animal, e publicou um conjunto de regras sobre a utilização adequada desses compostos, direcionado à classe veterinária. Nesse país foi também implementado um sistema de monitoramento da resistência antimicrobiana, incluindo fases durante o processo de produção. Nos programas utilizados na Dinamarca, as bases antibióticas de uso na clínica médica não são recomendadas para uso na população animal. Assim, a avoparcina, espiramicina, tilosina, virginiamicina, tetraciclina e penicilina não são usadas nos sistemas de produção dinamarqueses. Nos Estados Unidos, o "Programa Nacional de Monitoramento da Resistência Antimicrobiana" teve início em 1996, através do trabalho conjunto do Centro de Controle de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention), da Agência de Alimentos e Medicamentos (Food and Drug Administration) e do Departamento de Agricultura. O programa monitora modificações de susceptibilidade antimicrobiana de patógenos ent�ricos zoon�ticos em espécies humanas e animais (enfermos e saudáveis), e em carca�as de animais. Em janeiro de 1999, o FDA aprovou um regulamento que eliminará a maioria dos antibióticos usados como promotores de crescimento. No Canadá existem processos de redução de uso e monitoramento, em fase de implementação, nas várias cadeias de produção. As evidências microbiológicas e clínicas acumuladas até o momento sugerem fortemente a existência de uma associação entre o uso de antibióticos, na produção animal, e o incremento da prevalência de bactérias resistentes, na população humana. Este fato indica que a utilização de antibióticos na produção animal possa trazer entraves ao comércio internacional. Nos países em que as atividades visando ao controle do uso de antibióticos estão avançadas, os programas de garantia de qualidade, implementados na produção primária de suínos, aves, bovinos de corte e leite incluem o controle do uso desses compostos, em todas as fases. Paralelamente, foram implementados processos educativos direcionados a veterinários e produtores, enquanto as bases de dados auxiliares à classe veterinária, visando à tomada de decisão de uso de antibióticos, considerando informações sobre a farmacologia, farmacocinética, toxicologia e eficácia clínica, estão em fase de implantação. Os países exportadores de alimentos, em outras regiões, podem ser beneficiados, se considerarem essas tendéncias. (*) Terezinha Padilha - Embrapa, - LABEX", Estados Unidos - E-mail: tpadilha@lpsi.barc.usda.gov Tema: Produção Animal |

