Projetos e idéias inovadoras invadiram os corredores da entrada do
Edifício Sede da Embrapa nesta
(quarta-feira( 24) . Seja
sob a forma de pôsteres, apresentações, discussões, pesquisadores e analistas
da Empresa tiveram a oportunidade de conhecer trabalhos já consolidados,
outros que estão iniciando agora e alguns que estão somente fervilhando
na cabeça dos cientistas. Esse é um retrato do primeiro dia do I
Simpósio de Inovação e Criatividade Científica, que ocorre até
sexta-feira( 26), em Brasília.
“Estou adorando o clima deste evento”, afirmou a pesquisadora Fagoni
Calegário, da Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna-SP), entusiasmada com os
projetos que estavam dispostos no Hall de entrada da Sede.
Os trabalhos
foram dispostos em forma de pequenos painéis, onde os autores tinham a
oportunidade de discutir com o público presente a concepção do projeto e
até os resultados já obtidos. Fagoni se inscreveu no evento somente como
ouvinte, mas revela que o seu maior objetivo era justamente conhecer
idéias novas que pudessem lhe inspirar, trocar experiências com outras
equipes e, quem sabe, agregar pessoas ao seu trabalho ou até mesmo,
passar a integrar projetos de outras Unidades.
No auditório, onde são realizados os principais debates e apresentações
do evento, centenas de pessoas – algumas até de fora da Empresa –
puderam conhecer 17 iniciativas inovadoras dos centros de pesquisa da
Embrapa. O primeiro trabalho selecionado pela equipe organizadora do
evento foi sobre o desenvolvimento de novas tecnologias para o seqüestro
de carbono e conseqüente aumento da fertilidade de solos tropicais,
apresentado pela pesquisadora Beata Emoke Madari, da Embrapa Arroz e
Feijão (Santo Antônio de Goiás – GO).
O seu trabalho tem como partida não os solos goianos, mas as conhecidas
terras pretas da Amazônia, que possuem matéria orgânica de altíssima
qualidade. “Estamos tentando desenvolver tecnologias para manter carbono
no solo para obter os mesmos efeitos da terra preta, a partir de carvão
do eucalipto, casca de arroz carbonizada (sem reatividade alguma) e
carvão do cerrado. Se é possível ou viável criar tecnologia para simular
um exemplo milenar e tradicional e que seja válido em geral para a
agricultura moderna em regiões tropicais? Sim, mas isso depende de
vários fatores e pretendemos dar algumas respostas a partir da nossa
pesquisa, como o desenvolvimento de adubos com liberação controlada de
nutrientes”, apontou Beata.
Ecotoxicologia - O segundo trabalho apresentado pela manhã foi sobre o
desenvolvimento de testes ecotoxicológicos para solos tropicais,
defendido por Marcus Vinicius Bastos Garcia, pesquisador da Embrapa
Amazônia Ocidental (Manaus-AM). Ele explicou que a ecotoxicologia
terrestre é uma ciência nova, que faz uma abordagem científica para
estudo de pesticidas no solo. O objetivo do trabalho foi adaptar atuais
métodos de testes ecotoxicológicos padronizados para uso em regiões
tropicais.
A área de estudo por enquanto limita-se aos solos ácidos de Manaus e
alguns resultados promissores já foram obtidos. “O grande problema de
ser fazer o teste ecotoxicológico é o substrato articificial,
normalmente importado. Mas propusemos o pó de casca de coco, que
funcionou muito bem e hoje já é recomendado pela Associação Brasileira
de Normas Técnicas, a ABNT, para se fazer esse tipo de teste no Brasil”,
adiantou Marcus. Há também propostas de utilização de espécies nacionais
de minhocas para os testes no Brasil.
O terceiro projeto inovador exibido no evento foi Agricultura de
precisão: uma visão de futuro pela pesquisa, apresentado por Luiz
Henrique Bassoai , da Embrapa Instrumentação Agropecuária (São
Carlos-SP). O projeto está em fase de aprovação no Macroprograma 1 –
Grandes Desafios Nacionais
“Ainda existem muitos desafios, há necessidade de uma intervenção mais
fundamentada e isso se faz de uma maneira mais sistêmica e
multidisciplinar”, alertou o pesquisador. Ele mostrou que a Agricultura
de Precisão poderá apresentar boas soluções e alternativas para
aplicação racional de insumos, a baixa contaminação do meio ambiente e a
maximização do retorno econômico do produtor, além de contribuição para
a rastreabilidade, a produção integrada de frutas, subsídios para
estudos de riscos climáticos, manejo espacial ponderado de solo e água,
controle racional de pragas e doenças etc. Mas ele foi enfático ao
afirmar que há necessidade maior integração entre os pesquisadores
envolvidos, dentro e fora da Embrapa.
A quarta revolução industrial - Luciano Paulino da Silva, da Embrapa
Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília-DF), falou da quarta
revolução industrial, com a Bionanotecnologia e a Nanobiotecnologia. E
tratou logo de explicar esses dois novos conceitos, ainda pouco
conhecidos do grande público. “ A Bionanotecnologia parte da observação
de estruturas nanométricas presentes na natureza, como, por exemplo, as
proteínas. Já a Nanobiotecnologia parte dos fenômenos naturais, do
desenvolvimento de partículas ou motores moleculares para interagir com
sistemas biológicos”, explicou.
Segundo ele, a agricultura e a pecuária já estão sendo alvo dessas duas
“nano-áreas”, com a investigação em escala nanométrica de fibras,
células, partículas e moléculas; o desenvolvimento de sensores para
detecção de contaminantes e patógenos; sistemas de transferência de
genes baseados em nanopartículas e nanocápsulas; superfícies funcionais,
revestimentos comestíveis etc.
E revelou algumas inovações que já começaram a ser pesquisadas pelas
Unidades da Embrapa, dentro do grupo em que ele trabalha, como as
superfícies funcionais (embalagem ativa com peptídeos antimicrobianos,
proteína imobilizada em superfície de nanotubo de carbono;
nanobiocatalizador voltado para produção de biocombustíveis),
biossensores (exemplos de hemácias de diversos vertebrados e hemácias
sendo utilizadas como biossensores para monitoramento de toxicidade),
nanofibras (com o desenvolvimento de novos produtos a partir de espécies
de aranhas nacionais), sistemas de liberação controlada; e nanofiltros
ou membranas seletivas (com uso de diferentes membranas para remoção
gradativa de fungos, bactérias, metais pesados, microorganismos).
“Estamos em busca do nanofuturo: explorar estruturas biológicas”, comemorou.
Outro projeto interessante foi o monitoramento das condições de estresse
de plantas através o uso de refletância espectral associado à micro
imagem. O trabalho foi apresentado pela pesquisadora Celli Rodrigues
Muniz, da Embrapa Agroindústria Tropical (Fortaleza-CE). Ela mostrou a
relação entre características morfológicas e fisiológicas e propriedades
ópticas de plantas. “A reflectância espectral permite a assinatura
particular de uma determinada planta. É um método de imagem
não-destrutivo, que permite a detecção precoce de doenças e problemas”,
explanou, revelando que a tecnologia está sendo utilizada para detectar
doenças, como a resinose em cajueiros, provocada por um fungo oportunista.
Luiz Filipe Protásio Pereira, da Embrapa Café (Brasília-DF), falou do
trabalho de integração de mapas genéticos com mapas físicos para o
mapeamento genético do café e para a clonagem posicional de genes.
“Pretendemos fazer a integração de trabalhos de mapeamento físico e
genético, com identificação de genes de resistência para ferrugem. Mas o
objetivo geral do trabalho é fazer o mapeamento físico cafeeiro e
integrar mapas genéticos e físicos”, especificou ele.
De Sete Lagoas, Minas Gerais, veio o trabalho seguinte, sobre comunidade
de fungos micorrizicos associada a genótipos de milho contrastantes para
eficiência no uso de fósforo. O trabalho vem sendo desenvolvido por
Eliane Aparecida Gomes, da Embrapa Milho e Sorgo, dentro do
Macroprograma 3 - Desenvolvimento Tecnológico Incremental do
Agronegócio, com resultados ainda preliminares.
O alvo do projeto é bem nobre: substituição de insumos biológicos,
grande dependência ainda do agronegócio nacional, que importa grandes
quantidades de fertilizantes, inseticidas e herbicidas. “O objetivo do
projeto é buscar alternativas para fazer com que a planta busque fósforo
no solo sem necessidade de mais adubos fosfatados. Alternativas que
visem otimizar a eficiência nutricional das plantas, com bioprospecção
de comunidades microbianas adaptadas aos ecossistemas tropicais,
práticas de manejo de solo, etc”, salientou Eliane.
Manoel Teixeira Souza Junior, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos
e Biotecnologia e que está trabalhando no Labex Europa, apresentou o
caso de sucesso da Musaforever, projeto internacional, do qual faz parte
a Embrapa, que busca soluções biotecnológicas para o controle genético
da Sigatoka Negra e da fusariose, doenças que ameaçam a produção de
banana no mundo. “Os focos da pesquisa estão no desenvolvimento de uma
bananeira geneticamente modificada e no estudo da interação entre
plantas e patógenos”, explicou.
O trabalho seguinte foi apresentado por uma pesquisadora da Embrapa
Mandioca e Fruticultura Tropical (Cruz das Almas-BA), Juliana Freitas
Astua, sobre Huanglongbing dos citros, com o desenvolvimento de
abordagens biotecnológicas. Ela explicou que a doença, mais conhecida
como Greeenning (ou dragão amarelo), ataca ferozmente a cultura dos
citros e que surgiu recentemente no Brasil (em 2004, na maior área
produtora nacional, o interior paulista, responsável por 80% da
produção), mas já está presente no Paraná e Minas Gerais. A previsão é
de que a doença seja disseminada nos proximos anos em todo o Brasil.
O manejo da doença hoje é feito com a erradicação das plantas
contaminadas e aplicação de fungicidas, mas sem grandes efeitos. A
proposta do projeto é desenvolver estratégias e alternativas mais
eficientes, menos onerosas e menos danosas ao meio ambiente. “A
metodologia proposta, a curto prazo, é a utilização de estirpes de
Bacillus thuringiensis para controle do psilídeo. A médio e longo
prazos, buscaremos e utilizaremos a informação de bancos de TESts, o
genoma completo dos citros e a interação patógeno-hospedeiro-vetor para
transformação genética”, indicou Juliana. O projeto foi aprovado
recentemente no Macroprograma 2 - Competitividade e Sustentabilidade
Setorial, no edital da Monsanto, por meio de uma rede envolvendo várias
Unidades.
O último trabalho apresentado na manhã foi sobre todo o trabalho de
pesquisa (resgate, melhoramento e multiplicação de sementes) da Embrapa
Clima Temperado (Pelotas-RS) com feijões crioulos do Sul do país. A
pesquisa foi defendida com paixão por Irajá Ferreira Antunes, baseado no
relaxamento da interação de genótipo-ambiente, acesso a tecnologias
inovadoras, preservação da diversidade genética, alimentos funcionais e
melhoramento participativo,
“Iniciamos com a coleta de germoplasma de feijão crioulo, fizemos já sua
caracterização do material, preservação e iniciamos a sua
disponibilização para os produtores. Inclusive já estabelecemos um
programa de melhoramento participativo, com apoio dos produtores. Alguns
desses materiais já passaram pelo Valor de Cultivo e Uso (VCU) e
instalamos também algumas Unidades Demonstrativas”, revelou Irajá.
Robinson Cipriano
(MTb 2057/88/DF)
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robinson.silva@embrapa.br

