Desenvolver pesquisas que possam trazer soluções para minimizar os efeitos do aquecimento global na cultura cafeeira. Esta é uma das prioridades atuais do programa de pesquisa em café brasileiro, conduzido pelas instituições participantes do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café e que é coordenado pela Embrapa Café. Conforme Mirian Eira, gerente adjunta técnica da Embrapa Café, nos últimos anos, materiais genéticos de grande potencial e maturação diferenciada foram lançados e estudos foram realizados para a seleção de cultivares adaptadas à seca e aos extremos térmicos.
Mirian Eira explica que estudos voltados à irrigação do cafeeiro também reduzem a vulnerabilidade climática da planta. A tecnologia de irrigação no país tem evoluído tanto no desenvolvimento de novos equipamentos e sua aplicação racional, como em novas práticas culturais, com estresse hídrico controlado aliado à adubação balanceada.
Por fim, Eira cita as práticas de manejo, como o adensamento e a arborização da plantação, como forma a atenuar os efeitos do aumento da temperatura nas regiões produtoras de café. Segundo a gerente, outros projetos nas áreas de biotecnologia, agroclimatologia e fisiologia do cafeeiro estudam as características do clima e das plantas, buscando mitigar as condições adversas do aquecimento global e manter o Brasil na liderança da produção mundial de café.
Aquecimento global e produção agrícola no Brasil
A preocupação da ciência com o aquecimento global vem no momento em que estudo feito por especialistas em zoneamento climático da Embrapa e da Universidade de Campinas – Unicamp concluiu que a produção de alimentos pode diminuir nos próximos anos no Brasil. Segundo Eduardo Delgado Assad, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e um dos coordenadores da pesquisa, isto pode acontecer porque o café, junto com a soja e o milho, são as culturas mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global. Para o café, a principal causa da vulnerabilidade é a possibilidade de abortamento da florada devido ao déficit hídrico e ao calor intenso. Porém, ele afirma que este cenário pode ser modificado com trabalhos de biotecnologia e melhoramento genético, tornando as plantas mais tolerantes a essas ameaças.
Resultados da pesquisa
A pesquisa estudou, a partir de dois possíveis cenários - um prevendo o aumento de temperatura pessimista, variando entre 2ºC a 5,4ºC, e outro um pouco mais otimista, prevendo aumento de temperatura entre 1,4ºC e 3,8ºC - os impactos deste aumento em várias culturas agrícolas, como o algodão, arroz, café, cana-de-açúcar, feijão, girassol, mandioca, milho e soja. Os cenários foram montados para os anos de 2010, 2020, 2050 e 2070 tomando-se como base o Zoneamento de Riscos Climáticos de 2007 e o mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
Para Assad, o aumento de temperatura irá fatalmente ocorrer. Não se sabe, apenas, em que nível. Isso provocará uma alteração profunda na geografia da produção agrícola no Brasil, acarretando na migração de plantas para regiões que hoje não são de sua ocorrência em busca de condições climáticas melhores. No caso do café, que, historicamente, sempre encontrou condições ótimas de desenvolvimento na Região Sudeste do País, ele terá que se adaptar às novas características climáticas dessas regiões ou deverá migrar para latitudes maiores, podendo inclusive, ser produzido na região mais ao sul do Brasil.
Essa análise, segundo o pesquisador, refere-se apenas ao café arábica. Com o café conilon este problema não acontece, já que esta espécie é mais robusta, ou seja, mais resistente, e adaptada para produção em regiões de clima mais quente.
Para Eduardo Assad, as soluções para a adaptação da planta ao clima mais quente já estão sendo buscadas pela pesquisa. Os estudos em melhoramento genético do café, onde é feito o cruzamento entre as espécies arábica e conilon, poderão criar cultivares mais robustas e capazes de suportar temperaturas mais altas. Essas alternativas e a adaptação do nosso sistema de produção para os cenários que se mostram no futuro é que vão possibilitar a permanência do café em regiões onde ele está adaptado atualmente. “Isso mostra que nós temos domínio tecnológico capaz de superar esse aquecimento”, finaliza Assad.
Jurema Iara Campos (MTb 1.300/DF)
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