O ano era
1986. A
região era o Pantanal da Nhecolândia, de acesso difícil por conta das
grandes
cheias da planície pantaneira. O local, a fazenda Nhumirim, o campo
experimental da Embrapa Pantanal. O grupo, pesquisadores do Instituto
Butantã,
da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro e Embrapa
Pantanal
(Corumbá-MS). Todos liderados pelo então pesquisador da Embrapa
Instrumentação
Agropecuária (São Carlos-SP), Antônio Pereira de Novaes.
A missão,
testar e validar nos animais da fazenda um revolucionário protocolo
para tratamento
de bovinos, equinos e até cães, em casos de picadas por serpentes do
gênero
Bothrops – jararaca (a popular boca de sapo), cotiara, jararacussu e
outras,
bastante comuns na região e em todo o Brasil.
O fator
revolucionário era que o tratamento dispensava o uso do tradicional e
mundialmente aceito soro antiofídico, e defendia apenas o uso de
anti-inflamatório
não esteróide combinado com diurético.
“O
sistema de saúde não liberava [e ainda não libera] soro antiofídico
para
animais, e eles tendiam a morrer depois das picadas. Tivemos, então, de
encontrar uma alternativa”, explica Novaes, que esteve em Corumbá no
dia 16,
quando foi palestrante de abertura da 3ª Mostra de Agricultura Familiar.
À tarde,
ele falou sobre o procedimento antiofídico para pesquisadores e
assistentes da
Embrapa Pantanal (Corumbá-MS), Unidade da Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária
– Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento.
Ação
Novaes
explica que o veneno das serpentes botrópicas é cinco vezes menos
potente que o
da cascavel, e que sua ação ocorre com edema e necrose na região da
picada. “Nos
casos de picadas de serpentes botrópicas, o soro tem ação pouco eficaz,
pois o
edema não o deixa penetrar na área afetada”, afirma Novaes.
“O maior
problema é o edema causado pela reação à picada, que pode levar o
animal à
morte por asfixia, além da necrose e perda de membros ou deformidades,
que
obrigam o produtor a sacrifica-lo. A ação do anti-inflamatório [não
esteróides
inibidores da síntese de prostaglandinas, a exemplo dos diclofenacos]
ajuda a
desfazer o edema, e o diurético ajuda a eliminar o veneno sem risco
para o
animal, pois ele não tem efeito letal na corrente sanguínea. Em até
três dias o
animal está totalmente recuperado”, diz.
Novaes
ressalta que o procedimento opcional, com antiinflamatório e diurético,
não
serve para casos de picada de serpentes como cascavel e coral
verdadeira, pois
seu veneno é muito potente e tem ação rápida e letal na circulação
sanguínea.
“Um boi adulto só seria capaz de sobreviver à picada da cascavel se
pesasse ao
menos duas toneladas, o que não é o caso”, reforça.
O
procedimento desenvolvido por Novaes e seus parceiros é aceito
internacionalmente, e em um quarto de século tem ajudado a salvar vidas
de
milhares de animais sem a necessidade de recorrer ao soro antiofídico,
muito
pouco acessível, especialmente em regiões remotas do Brasil.
Reconhecimento
Hoje
aposentado da Embrapa e palestrante requisitado pelo setor agropecuário
em todo
o país, Novaes demonstra grande satisfação em ver a técnica
desenvolvida por
sua equipe há mais de 20 anos ser largamente aceita e utilizada. “Dia
desses vi
no Globo Rural o consultor do programa, Enrico Ortolani [professor
titular de medicina
veterinária e zootecnia da USP], recomendar o nosso protocolo para
casos de
picada em animais”, orgulha-se.
Para o
chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pantanal, Thierry
Tomich, o
retorno de Novaes à Unidade representa um resgate histórico de uma
pesquisa
depois de tantos anos. “É um marco para nós, pois se trata de dar
retorno sobre
uma pesquisa cujo resultado é importantíssimo para o Pantanal, para o
Brasil e
o mundo”, afirma.
Pesquisadores,
produtores rurais, veterinários e zootecnistas, além de professores e
estudantes, podem baixar o artigo de Novaes e sua equipe em formato PDF
através da
Internet, no site da Unidade de Aperfeiçoamento Científico (Unac
International). A partir de hoje, o artigo de Antônio Novaes está
disponível,
também, para download na página da Embrapa Pantanal, na seção ‘Acesse
Também’.
http://www.unac.org.br/Envenenamento%20Botropico%20em%20Bovinos.pdf
Saulo Coelho
Embrapa Pantanal
Contatos: 67 3324 5800

