OLHARES PARA 2030

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Ana Amélia

Ana Amélia

Desafios da segurança alimentar

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

ODS 2 - Fome zero e agricultura sustentável ODS 12 - Consumo e produção responsáveis ODS 13 - Ação contra a mudança global do clima

Investimento em inovações e avanços tecnológicos para a produção sustentável no agronegócio são prioridades que devem responder à preocupante questão que iremos enfrentar nas próximas décadas: como alimentar, convenientemente, mais de 9 bilhões de pessoas previstas para meados deste século?  Pelo menos 840 milhões já sofrem com a fome crônica.  O efeito mais trágico é sobre as crianças. A cada ano, 3 milhões delas morrem vítimas de desnutrição.


Esse quadro perverso indica que a produção mundial de alimentos precisará dobrar nos próximos 40 anos, e os agricultores terão papel fundamental nesse gigantesco desafio para alimentar, no futuro, toda a população.


Assim, também, o Brasil verá crescer seu protagonismo como fornecedor mundial de alimentos. Nosso país é o segundo no ranking da produção, atrás apenas dos Estados Unidos. É o segundo maior exportador e o maior fornecedor para a Ásia, a região mais populosa do globo e com grandes bolsões de pobreza.  O agronegócio contribui com 25% do PIB, 23% dos empregos e 45% das exportações brasileiras, que atingiram US$ 56,4 bilhões nos primeiros sete meses de 2017, 6,8% superior à receita registrada no mesmo período em 2016. O país é case mundial em produtividade e diversidade. Esse reconhecimento tem como fator principal o desenvolvimento e a aplicação de tecnologia, com ênfase para a biotecnologia e a agricultura de precisão. A produtividade cresceu 3,5% ao ano de 1975 a 2015. Esse desempenho deve ser creditado mais ao investimento em inovação do que à expansão da área plantada.


O aumento da  produtividade e a melhoria da qualidade da produção agropecuária brasileira  contam com  imensa gama de produtos e serviços, tais como sistemas de ordenha robotizadas, uso de imagens de satélites e de veículos  aéreos não tripulados, georreferenciamento, compartilhamento de dados e de sistemas de Big Datas para interface entre todas as informações da propriedade, irrigação automatizada, operadores cedendo espaço  para máquinas acionadas por controle remoto, quadriciclos substituindo cães e equinos na campereada, no uso de  sementes de alto potencial,  tecnologia no campo impulsionada pela agricultura de precisão.  Assim, começa a consolidar-se uma nova realidade para o agronegócio: o conceito de fazendas e granjas inteligentes, exigindo pessoal com um novo perfil, com formação técnica e permanente capacitação.


A modernização no campo começou a se intensificar a partir dos anos 1950. Foi adotado um conjunto de procedimentos técnicos e novos equipamentos, estabelecida meta para aumentar a produtividade, redução de custos, otimização do uso do tempo, insumos e capital, diminuição do impacto ambiental e menor desgaste para os trabalhadores rurais, inclusive nas pequenas propriedades, responsáveis por grande parte dos alimentos consumidos no país.


Outros impactos positivos não podem ser ignorados: melhorar o rendimento do trabalho no campo, tornando-o menos penoso e aumentar a qualidade de vida nas atividades agropecuárias. Diminuir o impacto ambiental, indispensável à sustentabilidade, contribuindo para manter as novas gerações nas propriedades. Assim, produtividade, cuidado ambiental e questão social, pilares dessa indústria a céu aberto, serão bem atendidos.


A sustentabilidade é base para culturas mais eficientes, com menor utilização de áreas, água e insumos. Nossos agricultores podem produzir mais e melhor. É importante, ainda, recuperar áreas degradadas, melhorando a fertilidade do solo e valorizando a biodiversidade.  Conectar atividades agrícolas, adotando a integração Lavoura-Pecuária-Floresta, contribui para alcançar melhores índices na agricultura de baixo carbono.  Investir na capacitação dos trabalhadores rurais e dos pequenos agricultores terá, como retorno, maior produtividade, com produtos de qualidade e melhor renda para todos.  


Esse, certamente, foi o entendimento que norteou a política da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) ao começar a desenvolver, desde a década de 1990 do século passado, soluções tecnológicas para melhorar a produtividade, a competitividade e a sustentabilidade da agricultura brasileira. Agora, na celebração de seus 45 anos de qualificados e reconhecidos serviços prestados à pesquisa agropecuária, a empresa lança a plataforma digital Agricultura e Desenvolvimento Sustentável, alinhada aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) que vieram substituir os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM).  O alinhamento se estabelece especialmente com o Objetivo 2, que trata da ousada meta de, até 2030, “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e promover a agricultura sustentável”.  Ao atender à convocação da Embrapa para participar dessa iniciativa, saúdo com entusiasmo a ousadia da instituição, que orgulha os brasileiros, em aderir aos objetivos fundamentados na Agenda 2030 da ONU. Aproveito para expressar meu reconhecimento ao relevante papel desempenhado pela Embrapa para avançar sempre na inovação, buscando o desenvolvimento sustentável no setor que é a autêntica “galinha dos ovos de ouro” da balança comercial de nosso país.


Na Comissão de Reforma Agrária e Agricultura (CRA) do Senado, da qual faço parte e a qual presidi entre 2015/2016, defendi e estimulei as ações de apoio à pesquisa e à atuação da Embrapa, em particular. Realizamos, no âmbito da CRA, quatro audiências públicas para avaliação do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, com o objetivo de avaliar as políticas públicas nessa área e apresentar sugestões que fortaleçam a rede de instituições vinculadas ao Sistema.  Temos que ter boas respostas ao desafio para ampliar os investimentos na pesquisa e inovação para consolidar a capacidade competitiva do setor agropecuário no futuro.  A criação de fundos patrimoniais, a exemplo do que já foi aprovado no Projeto de Lei 16/2015, de minha autoria, para utilização específica em investimentos em pesquisa e inovação, é iniciativa que a própria Embrapa defende.  Os fundos patrimoniais, conhecidos como endowments, se constituem em nova fonte de recursos para os investimentos, sobretudo em períodos de carência orçamentária, como o que estamos, agora, enfrentando. As mais importantes universidades do mundo já utilizam esse instrumento, que logo estará ao alcance das instituições brasileiras e que poderá ser estendido à rede de pesquisa do agro, consolidando o sistema sem depender, exclusivamente, dos recursos públicos.


Destaco, igualmente, o esforço empreendido pelo Senado na ação que tive a honra de articular para viabilizar, por meio  da destinação de emendas parlamentares, o Censo Agro 2017. O IBGE está coletando dados de mais de 5 milhões de estabelecimentos rurais, sendo 4,3 milhões de agricultores familiares. Além de informações atualizadas sobre a produção – o último censo é de 2006 – o levantamento deve apontar, também, a evolução da tecnologia utilizada nas propriedades rurais.


A Embrapa, seus projetos e seus qualificados recursos humanos serão beneficiários dos dados recolhidos pelo Censo Agro, que terá papel importante na definição de políticas na infraestrutura, extensão rural, situação social e ambiental, segurança, mercado e, claro, pesquisa e inovação.


Ao mensurar a realidade da produção, como o Censo está fazendo, pode, sem dúvida, fortalecer todo o sistema produtivo que abastece a mesa dos brasileiros e de boa parte da população mundial. E estará sintonizada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável quando trata de segurança alimentar e estabelece o fim da fome em 2030. E aqui vale a advertência do especialista em Alimentação de Oxford, professor Charles Godfray: “Se falharmos na alimentação, falharemos em todo o resto. Não ajudarmos os países mais pobres, esqueceremos a biodiversidade, nada poderemos fazer quanto às alterações climáticas e comprometeremos a nossa evolução ao longo das próximas décadas”.

Ana Amélia

Senado Federal

Ana Amélia é gaúcha de Lagoa Vermelha. Formada em Comunicação Social pela PUC/RS, deixou o jornalismo depois de quase 40 anos trabalhando nessa área em várias empresas, entre as quais a RBS. Foi eleita senadora pelo PP/RS com 3,4 milhões de votos, em 2010. Foi escolhida pelos jornalistas no prêmio Congresso em Foco entre os dez melhores senadores em todas as edições do prêmio, desde 2011, sendo escolhida a melhor senadora na avaliação de júri especializado em 2017. Em 2013 foi indicada pelo Diap a parlamentar mulher mais influente do Congresso Nacional. Foi apontada como a melhor parlamentar entre os 594 senadores e deputados em 2017 pelo Ranking dos Políticos. No Senado, presidiu a Comissão de Agricultura e foi vice-presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte. Integrou a Comissão Especial do Impeachment. É autora de pelo menos seis leis já em vigor nas áreas da saúde e da economia, além de outros 90 projetos que tramitam no Senado ou na Câmara. As leis e relatorias voltadas aos pacientes com câncer renderam, em 2017, o prêmio Octávio Frias de Oliveira, do Instituto do Câncer de SP. A senadora gaúcha também foi condecorada pelo Conselho Nacional do Ministério Público e homenageada pela Polícia Federal por sua atuação em defesa do combate à corrupção. Ana Amélia é atual presidente da Fundação Milton Campos, instituição de formação política do Partido Progressista.