OLHARES PARA 2030

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Eduardo Leduc

Eduardo Leduc

Proteção das lavouras para uma Agricultura Sustentável

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

ODS 2 - Fome zero e agricultura sustentável ODS 9 - Indústria, inovação e infraestrutura ODS 12 - Consumo e produção responsáveis

Desde que o homem desenvolveu a agricultura e passou a estudar os prejuízos causados pelo ataque de pragas, foi identificado que as culturas alimentares competem com mais de 100 mil espécies de fungos patogênicos, 30 mil espécies de plantas daninhas e 10 mil insetos herbívoros. As pragas são organismos que estão há milhões de anos migrando de um lugar para o outro no planeta, ignorando fronteiras, cruzando mares e rompendo barreiras criadas pelos serviços de defesa agropecuária. Ainda hoje, as perdas causadas pelos ataques de pragas, doenças e plantas daninhas podem atingir de 20 a 40% da produção potencial de alimentos. 

A evolução da agricultura brasileira é marcada pela invasão de pragas e doenças que causam graves danos econômicos, como a broca-do-café, a lagarta-rósea e o bicudo-do-algodoeiro, a vassoura-de-bruxa no cacau, a mosca-das-frutas, a ferrugem-do-trigo, a ferrugem-da-soja e a lagarta Helicoverpa armigera, entre tantas outras. De acordo com dados do observatório “Pragas Sem Fronteiras”, ao menos 203 espécies invasoras foram detectadas no Brasil entre 1890 e 2014. Nos últimos 10 anos, a média de novas pragas detectadas aumentou para 3,75 por ano. Somente os países sul-americanos abrigam nada menos que 221 pragas quarentenárias para o Brasil. 

O risco desse fenômeno da bioinvasão é facilitado pelo transporte de sementes, mudas, frutas e resíduos de solo, que na maioria das vezes ocorre de forma não intencional pelo homem. Além das migrações de pragas que ocorrem por fenômenos naturais, é fato que o aumento do fluxo de turistas e do comércio internacional tornará cada vez mais desafiador evitar o surgimento de novas pragas e doenças nas lavouras brasileiras.

O controle fitossanitário nas lavouras evoluiu muito nas últimas décadas e continuará evoluindo e incorporando inovações tecnológicas para o manejo integrado dos cultivos. Além da utilização de defensivos agrícolas químicos cada vez mais modernos e com melhor perfil toxicológico e ecotoxicológico, a associação com produtos biológicos, soluções em biotecnologia e agricultura digital vão criar novos métodos e conceitos para otimizar o uso de recursos (insumos, energia, uso da terra, água etc.) e minimizar os prejuízos causados por pragas, doenças e plantas daninhas nas lavouras. 

A proteção fitossanitária das lavouras é fundamental para assegurar o suprimento de alimentos, fibras e energia para a população crescente, contribuindo significativamente para atingirmos diversos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), dentre os quais podemos destacar os ODS número 2, 12 e 15, que visam  “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”, “assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis” e “proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade”, respectivamente.

De 1980 a 2015, a produção agrícola brasileira cresceu 207%, enquanto a área plantada aumentou apenas 57%. A biotecnologia e a utilização de produtos fitossanitários foram essenciais para melhorar o desempenho das lavouras, ao reduzir as perdas causadas pelo ataque de pragas, doenças e plantas daninhas, melhorando indicadores econômicos, ambientais e sociais por unidade produzida. Baseado no conceito de que só é possível melhorar o que pode ser medido, cientistas desenvolveram metodologias com base na Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) para medir e analisar aspectos de sustentabilidade na agricultura. Para quantificar estes avanços, a Fundação Espaço ECO®, organização sem fins lucrativos instituída pela BASF em 2005, realizou diversos estudos de socioeceficiência agrícola nos cultivos de soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, arroz irrigado, café e também no sistema de integração Lavoura Pecuária Floresta. Os estudos realizados pela Fundação foram desenvolvidos em parceria com diversas entidades e empresas do setor. Com base nesses estudos, tem sido possível medir e identificar oportunidades de melhorias, apoiando  gestores na tomada de decisão por soluções e tecnologias cada vez mais sustentáveis.

Para aumentar a performance em sustentabilidade, uma das áreas que contribuirá muito com a proteção das lavouras nos próximos anos será a Agricultura 4.0, termo que foi criado para denominar a transformação que está ocorrendo nas cadeias produtivas do agronegócio e que pode ser medida em bytes no mundo digital. Na prática, o que está acontecendo na agricultura é uma série de inovações baseadas na automação (Internet das Coisas), como o uso de sensores capazes de fornecer dados cada vez mais precisos, sistemas de agrometeorologia para melhor gestão das lavouras; monitoramento autônomo e intervenções mais precisas nos processos de gestão da produção agropecuária com o uso de algoritmos e Big Data; comunicação integrada e automação das cadeias do agro; sistemas avançados de monitoramento, rastreabilidade e controle para informar aos consumidores sobre a segurança e sustentabilidade dos alimentos, entre muitas outras inovações e avanços. Todos os dados gerados por esses sensores, robôs, equipamentos e ferramentas vão auxiliar cada vez mais o produtor na tomada de decisão durante a safra.

Da mesma forma como as FinTechs afetaram o mercado financeiro, as AgTechs já estão afetando o agronegócio, que é um dos carros-chefe da economia brasileira. Nesse sentido, já é comum encontrar agricultores utilizando soluções digitais para aumentar a produtividade e reduzir os prejuízos causados pelo ataque de pragas e doenças nas lavouras.

De acordo com um estudo realizado pelo Sebrae, 25% dos produtores rurais utilizam ferramentas digitais para gerenciarem suas propriedades, mais de 60% deles estão conectados na internet e 96% possuem smartphones.  Pesquisa divulgada em 2017 pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agribusiness (ABMR&A) mostra que 33% dos agricultores já utilizam alguma tecnologia de agricultura de precisão. O uso de GPS nos tratores e na aviação agrícola para pulverização das lavouras talvez seja um bom exemplo. Softwares para gestão da fazenda, gestão da frota de máquinas agrícolas, planejamento da compra de insumos e monitoramento da evolução da safra já estão sendo amplamente utilizados. Logicamente que o Brasil tem o desafio de democratizar o acesso das tecnologias digitais para os pequenos produtores, mas acreditamos que a adoção será um movimento gradual e sem volta. Sabemos que há uma barreira cultural a ser superada, no entanto a adoção será muito mais rápida se a infraestrutura suportar o avanço das tecnologias digitais.

Os principais obstáculos, como a falta de infraestrutura no meio rural (banda larga), dificuldade de acesso em regiões mais remotas e a limitação da conectividade nas fazendas, serão superados na próxima década, tendo em vista a necessidade de assegurar a competitividade do agro brasileiro. Barreiras como a necessidade de treinamento e qualificação da mão de obra rural também são desafios importantes, que exigirão investimentos nos próximos anos. O agricultor é um conservador por natureza, mas um inovador por necessidade. A transformação digital tornará o campo mais atrativo para os jovens e para as mulheres, além de ajudar a melhorar o nível de escolaridade e a qualidade de vida no campo.

O aumento da produtividade e maior eficiência em custos caminham lado a lado no agro. A transformação digital das empresas agrícolas é justificada pela melhoria da gestão e a otimização no uso de recursos, visando a sustentabilidade do negócio ao longo dos anos. A busca pela maior eficiência operacional é o grande direcionador para os investimentos em tecnologia e na qualificação das pessoas.

O agronegócio brasileiro vai continuar, até 2030, a ter forte contribuição com os superávits comerciais, pautado na exportação de commodities para mais de 200 países. A agricultura sustentável é a grande vocação do Brasil. A busca pela inovação e pelo aumento na eficiência operacional seguirá crescendo, assim como a busca para agregar valor à produção. Acreditamos que a produtividade das lavouras deverá continuar crescendo até 2030, a exemplo do que vem ocorrendo há 45 anos com o surgimento da Embrapa, num processo de melhoria contínua. É consenso entre os especialistas que a agricultura digital será uma das ferramentas mais importantes para aumentar a competitividade e a sustentabilidade do agro brasileiro nos próximos anos, bem como aumentará o interesse dos jovens a permanecerem no campo. 

Um bom exemplo é a projeção do aumento da utilização do uso de drones para a agricultura de precisão, reduzindo custos e combatendo os desperdícios. De acordo com pesquisas realizadas pelo Bank of America Merril Lynch, em um relatório denominado Robotic Revolution, projeta-se que até o ano de 2025 a maioria dos drones (80%) será utilizada em atividades da agricultura.  Enfim, as soluções digitais serão amplamente utilizadas no agro até 2030.  

Na legislação brasileira, que está sendo revista, temos uma boa oportunidade para acelerar a adoção de inovações tecnológicas e melhorar o controle fitossanitário das lavouras, com maior segurança e ênfase na avaliação de risco de exposição. Uma outra oportunidade é substituir a receita agronômica, que atualmente gera muita burocracia e deve ser emitida para a compra de cada defensivo agrícola, por uma outra ferramenta bem mais completa e profissional: o plano de manejo fitossanitário da lavoura. Com essa ferramenta digitalizada, o agricultor teria condição de planejar e implementar de forma mais eficiente o conjunto de ações necessárias para controlar o ataque de pragas, doenças e plantas daninhas. 

Com base no registro das ocorrências e dos insumos utilizados nas safras anteriores, o produtor poderá, assistido por engenheiro-agrônomo ou outro profissional habilitado, decidir pela tecnologia que utilizará na safra seguinte, planejando melhor o uso de produtos para tratamento de sementes, herbicidas, inseticidas, fungicidas e biológicos, entre outros, levando em consideração a necessidade de fazer rotação ou a combinação de ingredientes ativos com diferentes modos de ação, visando a adoção das melhores práticas agrícolas para o manejo de resistências, promovendo o manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas. 

Com a digitalização das cadernetas de campo e a geração de dados (Big Data), será mais fácil compreender a dinâmica das pragas, doenças e plantas daninhas ao longo do ciclo fenológico dos cultivos em cada fazenda e aperfeiçoar o plano de manejo fitossanitário para a safra seguinte, melhorando o controle e otimizando o uso de insumos. Como a complexidade na gestão das fazendas tende a aumentar, a palavra de ordem na agricultura sustentável é a profissionalização e a automação (uso de inteligência artificial), visando a adoção de tecnologias e soluções inovadoras para ser cada vez mais eficiente na utilização dos recursos, combater os desperdícios e seus impactos ambientais.

 

Eduardo Leduc

BASF - América Latina

Eduardo Leduc nasceu em São Paulo. Graduou-se em engenharia agronômica na Universidade Federal de Lavras-MG (UFLA). Fez pós-graduação em marketing pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e percorreu uma longa carreira de crescimento dentro da BASF.

Ingressou na multinacional alemã em 1984, como Representante Técnico de Vendas no Rio Grande do Sul, passando pelas áreas técnica e de gerenciamento de produtos.

O executivo adquiriu experiência internacional na área de marketing da BASF na Alemanha e Estados Unidos, período em que atuou na função de diretor de Marketing para a América Latina. Em outubro de 2005, Leduc assumiu a diretoria geral do negócio agrícola da empresa no Brasil e cinco anos depois foi promovido a vice-presidente Sênior da Unidade de Proteção de Cultivos para a América Latina.

Entre 2011 e 2014, Leduc também foi responsável pela área de Sustentabilidade da BASF para a América do Sul e pela Fundação Espaço ECO® (FEE®), instituída pela multinacional em 2005 como primeiro centro de ecoeficiência na América Latina.

Além da função no negócio agrícola da multinacional alemã, o executivo é membro do conselho curador da Fundação Espaço ECO® e ocupa atualmente o cargo de presidente do conselho diretor da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF).

Como hobby, Eduardo Leduc é vocalista de uma banda de rock and roll composta por músicos, todos executivos, que se apresentam periodicamente em casas noturnas da capital paulista. Possui ainda uma RPPN (Reserva Particular de Preservação Ambiental) dedicada à proteção e observação de aves no litoral paulista.