OLHARES PARA 2030

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Humberto Pereira

Humberto Pereira

O Futuro da informação e da comunicação para o mundo agro brasileiro

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

ODS 4 - Educação de qualidade ODS 5 - Igualdade de gênero ODS 9 - Indústria, inovação e infraestrutura

27 de agosto de 2017. Domingo. Helen de Lacerda, uma adolescente de 15 anos, está dizendo no Programa Globo Rural que pretende estudar Letras, principalmente para aprender inglês. Por quê? Porque quer conversar, de igual para igual, com os estrangeiros que vêm ao Sítio Forquilha do Rio, para comprar cafés especiais. O cenário da morraria da Serra do Caparaó ao fundo é tão deslumbrante quanto distante de tudo. O sítio tem 48 hectares, separado por um córrego em dois pedaços: um, do lado de Minas – município de Espera Feliz – e outro do lado do Espírito Santo – município de Dores do Rio Preto. A história do sucesso da família da Helen, 18 pessoas de três gerações trabalhando no sítio, é brilhante e vertiginosa. Eles aprenderam rapidamente com tecnologias avançadas a produzir naqueles penhascos, a mais de 1.100 metros de altitude, cafés de rara qualidade. E não estão sozinhos. Fazem parte da grande revolução que vem ocorrendo na vizinhança e na cafeicultura brasileira em geral. O aroma e o sabor desses cafés (especiais, ou premium, ou gourmets, ou de terroir) estão chegando a consumidores sofisticados, e ricos, do mundo inteiro. Sendo que faz parte do marketing e do charme a viagem dos compradores até nossos sítios e fazendas para escolher in loco o que encontrar de melhor entre os melhores. Diz-se com razão que o café superior brasileiro está entrando numa história análoga à dos vinhos de elite.

Mudou o padrão do café e estão mudando as expectativas de vida, carreira e destino da geração da Helen (sua prima Amanda, de 16 anos, quer fazer agronomia). São deste milênio e fazem o curso médio em escolas a 5 quilômetros de casa.

Ora, aquilo que no futuro passará a ser corriqueiro em termos de comunicação para pequenos sitiantes, para as fazendas espalhadas em nosso território, esse porvir está delineado no caso da família Lacerda. Os estrangeiros que frequentam o sítio, antes de chegarem, já terão trocado mensagens pela internet de Tóquio, de Estocolmo, de Seattle, de Frankfurt com a Serra do Caparaó. O Sítio Forquilha do Rio está no mundo digital como protagonista, como agente de negócios e não apenas como quem baixa fotos da Tailândia ou do Quênia para mera contemplação de paisagens.

É que ali pertinho já existem antenas para celular e internet, funcionando com perfeição “direto o ano inteiro” como diz a Amanda.  Na geração anterior, agorinha há pouco, os pais das nossas millennials não tinham luz em casa quando crianças. 
As antenas instaladas em pontos altos chegarão ainda a muitos lugares do Brasil e do mundo. Mas não a todos. Para quem ainda não tem tais acessos, e mesmo para quem já tem, será que no horizonte de 10,15 anos haverá novidades? 

17 de fevereiro de 2017, sexta feira, de madrugada. Distrito de Santana, município de Buriti dos Montes, no Piauí, a 250 quilômetros de Teresina. Um negócio estranho caiu do céu. Uns panos brancos enormes, como se fossem lençóis amarfanhados, e uma espécie de maquininha dependurada na coisa. Era o que vem sendo chamado genericamente de nanossatélite.  Neste caso do Piauí, o dispositivo faz parte do Project Loon cujo slogan diz: “Internet por balão para todos” visando atingir áreas rurais remotas em todo o mundo. O projeto é da XCompany, ligada à Alphabet Company, ambas da família Google. O artefato, o minissatélite, é içado por um balão até a estratosfera na altitude de 20.000 metros, acima das rotas dos aviões, da vida selvagem (aves migratórias) e dos fenômenos climáticos. E bem abaixo dos satélites convencionais. A primeira experiência do Loon foi feita em 2013 na Nova Zelândia. Mas, mesmo em experiência, o projeto já foi útil como única possibilidade de comunicação numa grande enchente no Peru e durante o furacão Maria em Porto Rico, quando as torres entraram em pane. No caso do Brasil, a experiência e o treinamento de equipes de resgate dos balões no Piauí vêm de 2014, quando o primeiro balão foi içado no Clube de Aeromodelismo de Teresina. A área de cobertura de cada balão desses é de 5.000 km2. 

Na verdade, em vista do alto custo dos satélites convencionais e da alta demanda do mundo digitalizado por mais e mais informação e conectividade, parece estar acontecendo uma corrida de algumas empresas para ver quem cria primeiro uma “constelação” eficiente e barata de pequenos satélites que dariam cobertura às regiões remotas, mas não só. Senão vejamos.
Mark Zuckerberg, do Facebook, já apresentou seu projeto que tem a mesma finalidade dos nanossatélites: o Aquila Drone. Um drone alado, com a envergadura igual à de um Boeing 737. Vai planar entre 18 e 27 mil metros com as mesmas vantagens do Loon. E poderá trabalhar com satélites complementares. 

Elon Musk, um dos fundadores do PayPal, tem projeto para lançar uma constelação de 700 satélites, pequenos e também em órbita baixa. 

A quantidade maior de unidades, formando a “Constelação”, se deve ao fato de que os satélites não são geoestacionários, estão sempre em movimento. Assim, quando um equipamento sai de determinada área já tem outro entrando para dar cobertura. 

Já a Clarke Belt 2.0 (CB2.0 – o nome Clarke é uma homenagem ao escritor de ficção científica Arthur Clarke) é uma empresa que está anunciando uma constelação de satélites no que ela chama de órbita elíptica inclinada (HEO em contraponto às clássicas GEO). Em português, está se falando de “Cinturão Clarke” para designar o campo de tal órbita. Em inglês, o slogan da CB2.0 soa bem:“IP connectivity for everyone, everything, everywhere”. 

O Brasil, por sua vez, lançou, em 2014, um “Cubesat”, que, a rigor, é uma das categorias dos nanossatélites. Não funcionou. A antena de transmissão de telemetria não abriu.

Uma vez firmada a tecnologia, uma vez definido o (ou os) vencedor desse páreo – a maioria ainda depende de financiadores − ultrapassadas as barreiras jurídicas e comerciais internacionais para colocar em funcionamento tais sistemas, sua expansão tende a ser rápida, pelo menos a se crer no que prometem como inovação a custos relativamente baixos. 

A Amanda, prima da Helen, a que vai fazer agronomia, aprenderá tudo sobre solo, sobre irrigação, nutrição das plantas, fitopatologia, entomologia, etc. como vem acontecendo tradicionalmente nas escolas do ramo. Mas, além disso, já vai pegar as novidades que estão aí. Vai ter, por exemplo, aulas de Internet das Coisas. IoT. Aí tudo do Sítio Forquilha do Rio, tudo do mundo em geral vai poder dançar num mesmo baile. Pela mesma porta passará o histórico de cada  talhão de café, todos os dados da nutrição das plantas, das condições climáticas dia após dia, do nível de incidência de pragas e doenças, do mercado e dos preços praticados nas bolsas internacionais, da agenda de visitas dos compradores, dos dados e dos compromissos fiscais e contábeis da propriedade; pela mesma porta passarão todas as informações dos estoques de insumos e do próprio café e assim por diante. Estima-se que essa ampla integração, característica da IoT, trará mais produção, maior economia, melhora da produtividade e, portanto, lucro maior. 

Elemento indissociável dos avanços será o drone. Se o Sítio Forquilha do Rio não tiver seu próprio drone (hoje um modelo eficiente com autonomia de voo de 1 hora poderia ser adquirido pelo equivalente a duas ou três sacas do café de primeira) alguém na vizinhança terá, ou um conjunto de produtores terão um equipamento comum servindo a várias propriedades. Com escopo mais amplo, os serviços de extensão, a pesquisa, as instituições de crédito agrícola, as cooperativas, as empresas de comunicação, a vigilância sanitária animal e vegetal, os órgãos de levantamentos estatísticos, ninguém enfim poderá se abster do uso do drone no campo. Essa é uma história que está apenas começando.

Acesso a conhecimento. Voltando à dupla Helen-Amanda, findos os cursos que farão em faculdades da região, elas poderão participar do mundo já fascinante da educação a distância (EAD). Sem sair da Serra do Caparaó, elas terão na internet um cardápio imenso de cursos credenciados voltados para os interesses do negócio da família. Hoje, a oferta das universidades e faculdades já é farta. Nacionais e estrangeiras.

Tecnicamente, pedagogicamente, a qualidade da EAD é e será cada vez mais eficiente. Como para assuntar o futuro sempre é bom recorrer ao passado, permito-me evocar uma experiência pessoal do fim dos anos 1970. A pedagoga Sílvia Magaldi, o jornalista Gabriel Romeiro e eu elaboramos o primeiro projeto dos telecursos exibidos pela Rede Globo de Televisão (EAD). O do Primeiro Grau. Esbarramos então no que chamamos “os limites da televisão”. Colorida, cativante mas limitada porque “passava as coisas muito rápido”, não dando tempo para a assimilação confortável dos conteúdos. Por isso, introduzimos no projeto um material impresso, que pretendia complementar as aulas da TV. Era distribuído pelas Secretarias de Educação, que, por sua vez, eram também as realizadoras dos exames, e as certificadoras dos cursos. Comunidades, igrejas, associações de toda ordem e até escolas formais de parcos recursos organizavam grupos para assistirem, juntos, às aulas no horário da TV, com auxílio de um professor... Ufa! A EAD de hoje eliminou essa complexa rede de intermediações.

17 de outubro de 2017. São Paulo, 9 da manhã. Um enorme espaço de eventos na zona sul. Uma confusão, um alarido para ninguém botar defeito. Entre estandes de empresas do agro, máquinas agrícolas, caminhonetes traçadas, mais de 1.000 mulheres de tudo quanto é canto do Brasil. É o II Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio. Elas estão procurando o crachá, o programa, algumas aprendendo a colocar e ligar os fones de ouvido para ouvir as traduções. Sim, porque terão palestrantes da Argentina, dos Estados Unidos, também mulheres. Logo após o “Bom dia” inicial a mestre de cerimônia evoca as 17 recomendações da ONU para um mundo sustentável e destaca a de número 5, a que trata da igualdade de gêneros. Aplausos! Em dois dias, ouvirão e debaterão os temas mais atuais, mais pertinentes deste momento e do futuro do agro no Brasil. Gestão, sucessão, maternidade, drone, sustentabilidade, ILPF, comércio internacional, liderança, bem-estar animal, crédito, cooperativa, comunicação, cadeias de valor, agricultura do futuro. E cases. A olho nu, dá para ver em todos os testemunhos que as mulheres empreendedoras do agro têm em comum uma abertura notável para o novo, para a busca de informação e assistência especializada. A tendência desse movimento crescer é irreversível. Na semana seguinte, por exemplo, 900 pessoas se reuniram em Florianópolis para o Encontro Estadual das mulheres cooperativistas. Por trás do fenômeno está justamente esse mundo mais conectado. Como as ferramentas da informática e da comunicação estão em pleno desenvolvimento, será natural, vamos lá, o empoderamento (palavra ainda aspirante aos léxicos) progressivo das mulheres no agronegócio. E as Helens e Amandas estão vindo com tudo lá de nossas serras e vales.

6 de janeiro de 2030. Domingo de manhã no Brasil. (Um vaticínio a propósito da televisão). Entre milhões de opções, por milhares de mídias à disposição, os cidadãos do mundo, onde quer que estejam, podem assistir ao Globo Rural em sua edição comemorativa de 50 anos. A safra vai ser boa. O mundo está em paz. O Brasil ajuda essa paz fornecendo alimento para quem vem comprar. As tecnologias digitais avançaram mais do que o previsto melhorando a vida dos homens, melhorando o ambiente do planeta. 
O ser humano, no entanto, analógico com suas paixões, seus sonhos, seus sofrimentos, suas utopias, suas conquistas e fracassos, seus ódios, seus medos, suas obras e artes, suas alegrias, o ser humano continua sendo o mesmo que foi adivinhado e cantado por Homero, por Dante, por Shakespeare, por Cervantes, por Guimarães Rosa. 

Queiramos ou não, esse, o caminho (conteúdo) humano, será também o melhor rumo para a sustentabilidade da televisão. 

Humberto Pereira

Globo Rural

Humberto Geraldo Pereira é mineiro de Belo Horizonte onde nasceu em 15 de março de 1939. Jornalista, trabalhou na TV Globo de São Paulo de outubro de 1976 a dezembro de 2017. Neste tempo participou da redação dos telejornais Hoje, Nacional, Painel, Jornal da Globo, Jornal Amanhã, entre outros. Participou da elaboração do projeto dos telecursos da Rede Globo.

Foi editor-chefe do Globo Rural da Rede Globo desde seu começo, em janeiro de 1980 até dezembro de 2017.

Fundou e dirigiu a Revista Globo Rural nos seus primeiros 5 anos.

Foi criador e editor-chefe do projeto Globo Natureza da Central Globo de Jornalismo. É autor do projeto do programa “Globo Mar” da Globo. Participou da criação e foi curador da Campanha da Globo “Agro a indústria-riqueza do Brasil”.