OLHARES PARA 2030

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Jacyr Costa Filho

Jacyr Costa Filho

O Brasil está pronto para liderar o desenvolvimento sustentável mundial

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

ODS 2 - Fome zero e agricultura sustentável ODS 8 - Trabalho decente e crescimento econômico ODS 9 - Indústria, inovação e infraestrutura ODS 12 - Consumo e produção responsáveis ODS 17 - Parcerias e meios de implementação

Bioeconomia é uma das palavras mais faladas no mundo atualmente, apesar de o conceito ter surgido há pouco mais de meio século. Traduzido também como economia ecológica ou sustentável, o termo é objeto de discussões em grandes eventos globais – o mais recente foi a COP23, realizada em novembro de 2017.

A bioeconomia baseia-se na utilização de recursos biológicos renováveis transformados em alimentos, ração animal e energia, entre outros produtos, de forma sustentável, por meio da adoção de métodos inovadores de produção que reduzam o uso de combustíveis fósseis no processo produtivo, contribuindo para a preservação dos recursos naturais e redução das emissões de gases de efeito estufa.

Hoje se tem plena certeza de que o mundo, para sua sobrevivência, precisa de recursos naturais e eles são finitos. Torna-se importante um consumo consciente por parte da população de todos os países.

As mudanças e ações propostas para a sociedade mundial se adequar à nova forma de desenvolvimento, pautada pelo uso sustentável de todos os recursos disponíveis, são a passagem para o futuro de uma nação sólida e saudável. Acredito que, como discutido na Conferência das Nações Unidas, em 2002, “a biotecnologia em associação a outras tecnologias transformará a maneira pela qual os produtos são concebidos, manufaturados e utilizados. Essa transformação nos ciclos de produção e consumo com certeza gerará crescimento sustentável nos países desenvolvidos e em desenvolvimento” 1.

Tudo isso vem sendo discutido há um bom tempo, mas o processo para implementação de novas soluções tem avançado. No Brasil, estamos trilhando também o caminho do desenvolvimento sustentável em vários setores da economia. Na agricultura vejo grande potencial de liderança. Por isso, o investimento em Pesquisa & Desenvolvimento na busca e implementação de novas tecnologias é fundamental para uma sociedade próspera e perene. E, principalmente, o que posicionará nosso país como líder na corrida pelo desenvolvimento sustentável global, reforçando seu protagonismo como celeiro do mundo neste novo cenário orientado pela bioeconomia. O uso de tecnologia para melhorar a eficiência no processo agroindustrial e o investimento em inovação em todas as etapas da cadeia produtiva são cruciais para trazer um alimento de qualidade, mais saudável e nutritivo para a população do mundo todo.

Riqueza natural e inovação impulsionam liderança

A disponibilidade de recursos naturais em um clima tropical como o nosso, além do desenvolvimento de tecnologia própria, nos possibilita colher até três safras ao ano. Com ganhos de produtividade total superiores a 3% ao ano, quase o dobro dos EUA e o triplo do mundo, o Brasil se tornou uma potência no agronegócio mundial, se posicionando entre os cinco maiores produtores de commodities de origem agropecuária2. Além da riqueza natural, o que também permitiu que o Brasil chegasse a esse patamar foram os relevantes investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

Um dos vários exemplos é o desenvolvimento de soluções inovadoras para a cana-de-açúcar. Hoje, o Brasil é líder na produção e exportação de açúcar, o etanol representa 40% do combustível utilizado nos nossos veículos e a eletricidade gerada pelo bagaço da cana representa 16% do consumo. E isso só é possível graças a uma tecnologia desenvolvida aqui, por brasileiros.

O Brasil, graças à sua agricultura e aos seus recursos naturais, tem a matriz energética mais limpa do planeta.

E os serviços agrodigitais já utilizados no campo e que vêm crescendo? O setor agrícola nacional é um dos maiores apostadores em novas tecnologias. De acordo com dados da MundoGeo, promotora da principal feira de drones do país, a DroneShow, 25% dos drones em operação no Brasil são usados pelo segmento.  Também podemos citar a agricultura de precisão, recursos de nuvem, Big Data e internet das coisas que auxiliam o campo, vão se fortalecer na agricultura e contribuirão ainda mais para uma economia sustentável.

Podemos elencar diversos casos em que a tecnologia já trouxe ganhos de produtividade e, como consequência, otimização de recursos. Como não mencionar o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), implementado em mais de 11,5 milhões de hectares no país. Essa é uma solução tecnológica desenvolvida no Brasil. É disruptiva. Além disso, é um modelo importante de parceria público-privada em P&D, fundamental para o progresso do nosso país, já que dessa forma incentivaremos o empreendedorismo e a inovação permanente.

Investimento em P&D e a economia sustentável

Existem importantes iniciativas, como as já descritas, mas é preciso observar atentamente os desafios que o Brasil ainda tem pela frente. O agronegócio, indiscutivelmente, é a vocação natural do Brasil pelos fatores favoráveis à produção. Porém, ainda requer políticas importantes para seu contínuo desenvolvimento. Há excesso de burocracia que inibe o empreendedorismo, um sistema tributário caótico que precisa ser modernizado e um descompasso em soluções de infraestrutura e logística. É essencial que isso mude para que o país mantenha competitividade global.

Aliadas a essa mudança que precisa acontecer, as parcerias público-privadas e a criação de incentivos para investimento em P&D precisam ser reforçadas. A busca por soluções eficazes e coerentes para os problemas socioambientais contemporâneos é urgente. Somos capazes de liderar as discussões sobre o uso consciente de recursos, baseadas em argumentos e exemplos sólidos.

Um dos passos mais importantes foi o país ter conseguido incluir no texto do acordo feito na COP23 os sistemas tecnológicos de produção, como o ILPF e uso de biocombustíveis. Pelo texto acordado, estão incluídas questões sobre como avaliar adaptação e cobenefícios, como a mitigação; como melhorar a qualidade e o estoque de carbono no solo e a dinâmica de água; como melhorar os sistemas de produção; estudos sobre socioeconomia; além da possibilidade de inclusões de novos temas.

O programa do RenovaBio trará incentivos importantes para o desenvolvimento de tecnologias voltadas à produção de etanol de segunda geração, de bioquerosene e de outros produtos alcoolquímicos.

Com o entendimento entre os países participantes, as negociações sobre tecnologias poderão avançar. E o modelo nacional de ILPF, que corrobora o fomento a uma agricultura de baixa emissão de carbono, já traz os primeiros sinais de liderança do Brasil na implementação da economia sustentável. As demais tecnologias para reutilização de água, fontes de energias renováveis, aproveitamento de biomassa, eficiência de cogeração de energia, entre outras ações, vão provar que estamos no momento certo para o nosso país ser o protagonista mundial da bioeconomia.

Portanto, a sustentação da bioeconomia precisa de novas tecnologias que priorizem a qualidade de vida da sociedade e do meio ambiente. Para isso, precisamos intensificar os investimentos em P&D no agronegócio, o que ocorrerá com um marco regulatório que os incentivem. Assim, poderemos trazer soluções em recursos sustentáveis. Com o desenvolvimento tecnológico da agricultura e utilizando-se desse conhecimento e vocação natural do país, o Brasil está pronto para se tornar o celeiro do mundo a partir de um novo patamar: o da economia sustentável.


UNCTAD, 2002. The New Bioeconomy. Industrial and Environmental Biotechnology in Developing Countries. Harvard University (http://r0.unctad.org/trade_env/test1/publications/newbioeconomy.pdf)

2 De acordo com o livro “Economia e Organização da Agricultura Brasileira”, do professor Fabio Ribas Chaddad.

Jacyr Costa Filho

Grupo Tereos e Conselho Superior do Agronegócio (Cosag/Fiesp)

Jacyr Costa Filho é graduado em Engenharia Civil e Administração de Empresas com especialização em Marketing pelo International Institute for Management Development – IMD, em Lausanne, Suíça. Possui mais de 30 anos de experiência no setor sucroenergético, tendo dirigido empresas como Guarani, Brasil Álcool e a trading SCA. Atualmente é Diretor da Divisão Brasil do Grupo Tereos e membro do Comitê Executivo global do grupo.

Jacyr é um participante ativo de várias entidades do setor. Em setembro de 2016, assumiu a presidência do Cosag-Conselho do Agronegócio da Fiesp. É conselheiro da ÚNICA-União da Indústria de Cana-de-Açúcar, presidente do Sindicato de Fabricação de Álcool do Estado de São Paulo, presidente do Comitê de Agroenergia da Abag-Associação Brasileira do Agronegócio e conselheiro do Cogen-Associação da Indústria de Cogeração de Energia.