06/12/21 |   Agricultura familiar

Feijão-de-metro: capacitação reúne técnicos e agricultores do Pará

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A troca de experiências e conhecimentos entre pesquisadores, técnicos da extensão rural e agricultores deu o tom da capacitação sobre produção e manejo de doenças no feijão-de-metro, realizado pela Embrapa Amazônia Oriental na última sexta-feira (3). O evento reuniu na cidade de Castanhal (PA), participantes de seis municípios das regiões Metropolitana de Belém e Nordeste Paraense.

“Eu e meu pai plantamos feijão-de-metro há muitos anos e produzimos a nossa própria semente. Mas não sabemos se essa semente já está doente e isso compromete toda a produção”, afirmou o agricultor Elton Neves da Silva, da Agrovila Iracema, distante 20 quilômetros do município de Castanhal. A comunidade é a maior produtora de hortaliças da região. No local, as famílias produzem alface, coentro, couve, jambu, cebolinha, chicória e feijão-de-metro, e a produção é toda comercializada na capital Belém. 

O feijão-de-metro [Vigna unguiculata subsp. sesquipedalis (L.) Verdc.] é uma leguminosa da mesma espécie que o feijão-caupi (Vigna unguiculata). É caracterizado por vagens longas e finas que são consumidas frescas. O seu sistema de cultivo e consumo em saladas, fazem com que essa leguminosa figure no grupo das hortaliças.

A ocorrência de doenças nos plantios de hortaliças e no feijão-de-metro, segundo o extensionista Eneás de Andrade Fontes, técnico do escritório de Castanhal, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará – Emater Pará, é o principal problema da olericultura na região. “Nos últimos dez anos a produção de hortaliças em Iracema tem reduzido bastante em função de pragas e doenças e da inexistência de defensivos registrados para algumas culturas”, afirma o extensionista.  

A pesquisadora Alessandra Boari, da Embrapa Amazônia Oriental, explica que medidas de controle e prevenção e a utilização de sementes sadias são os principais pontos que o agricultor deve observar. O foco da pesquisa, segundo ela, tem sido o melhoramento genético da cultura para ofertar ao segmento produtivo uma semente de melhor qualidade. “Como não existem produtos registrados no Ministério da Agricultura para o feijão-de-metro, a prevenção é o melhor remédio”, afirma a especialista.

Boari apresentou aos extensionistas e agricultores as principais doenças causadas por fungos e vírus, como a mela [Rihzotonia solani (Thanatephorus cucumeris)] e o mosaico-foliar, respectivamente. Essas doenças estão muito presentes nas hortaliças na região e reconhecer os sintomas é o primeiro passo para o controle e prevenção”, afirma a pesquisadora. O clima quente e úmido da região contribui para a proliferação dessas doenças.

Entre as práticas de manejo, Alessandra Boari destacou o uso de sementes sadias, plantios menos adensados e favoráveis ao vento para que aja circulação de ar, rotação de culturas, plantios novos distantes de antigos, eliminação de plantas com sintomas logo nos primeiros sinais, entre outras.   A pesquisadora apresentou no evento a publicação “Doenças de feijão-de-metro no Pará”, editada pela Embrapa Amazônia Oriental, e que traz informações sobre a identificação dos sintomas do adoecimento da planta, inclusive com fotos, e o manejo preventivo para evitar a contaminação e propagação das doenças.

  • Acesse este link para baixar, gratuitamente, a publicação.

Para o extensionista Enéas Fontes, o trabalho de pesquisa é muito necessário, mas sobretudo “é preciso fazer essas informações chegarem ao produtor rural, por isso a parceira com a extensão é fundamental” conclui.  

Produzir mais e melhor

O desenvolvimento de plantas com melhor qualidade de grãos, vagens, melhor porte e arquitetura, mais produtividade e estabilidade na produção, assim como resistência a pragas e doenças estão entre os objetivos do programa de melhoramento genético do feijão-caupi na Embrapa Amazônia Oriental. “Nosso foco é disponibilizar aos produtores cultivares melhoradas para o estado do Pará”, afirma o pesquisador Rui Alberto Gomes Jr., da Embrapa Amazônia Oriental.

Dados da Conab mostram que a produção nacional desse grão foi aproximadamente de 170 mil toneladas em 2020. O Pará é o maior produtor de caupi da Região Norte, mas a maior parte dessa produção, em torno de 70%, é exportada para Bahia, Ceará e Piauí.

O pesquisador apresentou aos participantes do evento um breve histórico sobre o programa de melhoramento genético da instituição, iniciado em 2013, e que promete cinco novas cultivares de feijão-caupi para os próximos dois anos. As linhas de pesquisa envolvem três tipos de feijão-caupi: tradicional; manteiguinha, que é típico do Pará; e o feijão-de-metro, que figura como uma hortaliça, pois requer um manejo específico.

 “Especificamente para o feijão-de-metro, a pesquisa deve lançar nos próximos anos duas cultivares específicas para o Pará: são a BRS Raíra, de cor verde oliva e a BRS Lauré, de coloração roxa avermelhada. Ambas têm um excelente aspecto visual, têm vagens bem distribuídas nas plantas e são mais produtivas”, anuncia o pesquisador.

Experiência familiar

“Se a gente observar mais a natureza e buscar mais conhecimento, a gente consegue produzir melhor”, afirma a agricultora Cleidiane Cavalcante Pinheiro, do município de Maracanã, região nordeste do Pará. Ela, o marido Antônio Teixeira do Carmo e a filha Keiliane Pinheiro do Carmo, de 8 anos, aprenderam e também ensinaram os pesquisadores e técnicos da capacitação.

Cleidiane contou sua experiência com a agricultura sintrópica, a partir da qual se cultiva no mesmo espaço diferentes alimentos e árvores. ”Cultivamos de tudo um pouco, da madeira de lei ao alimento. Criamos peixe, abelhas, galinha caipira, porco, diversas frutas, hortaliças e grãos”, contam ela e o marido. Eles contam ainda que observar o solo é fundamental para uma boa produção, "não adianta termos uma semente melhorada se o solo está doente", afirmam.

A diversificação é o segredo da família para ter alimento e renda o ano todo, segundo Antônio do Carmo.  Para ele, a falta de informação qualificada e práticas tradicionais dos agricultores ainda precisam ser superadas. “O agricultor aprende desde criança a fazer de um jeito e para mudar é difícil, é preciso que a informação e conhecimento cheguem nas famílias”, afirma.

Para o casal, o envolvimento de toda a família na produção é importante. Todos têm suas funções na propriedade, especialmente a filha Keiliane, que é a “guardiã da nascente”. “Queremos deixar para ela um legado de respeito à natureza”, finalizam os pais.

Ana Laura Lima (MTb 1268/PA)
Embrapa Amazônia Oriental

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