07/04/17 |   ILPF  Agricultura de Baixo Carbono

ILPF leva mais de mil pessoas a Dia de Campo em Ipameri (GO)

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Foto: Fabiano Bastos

Fabiano Bastos -

Pouco mais de mil pessoas participaram na última sexta-feira (31) em Ipameri (GO) da 11ª edição do Dia de Campo sobre Integração Lavoura-Pecuária-Floresta realizado na Fazenda Santa Brígida, onde está localizada uma das Unidades de Referência Tecnológica (URT) de ILPF da região. O número de participantes só confirma que o interesse por essa estratégia de produção no campo cresce a cada dia no Brasil. E a efetiva adoção da tecnologia também vem crescendo, e a passos largos. O país possui hoje 11,5 milhões de hectares cultivados especialmente no sistema agropastoril (lavoura e pecuária), números que já ultrapassam as metas estabelecidas pelo governo brasileiro nos compromissos internacionais.

O Dia de Campo foi promovido pela Rede de Fomento ILPF, com apoio da prefeitura de Ipameri e Universidade Estadual de Goiás (UEG). Como nas edições anteriores, o objetivo do evento foi fomentar a adoção desses sistemas integrados como estratégia de intensificação sustentável da agricultura a partir da experiência da Fazenda Santa Brígida, que migrou de um modelo de produção pecuária de baixa produtividade, com pastos degradados, para um sistema de produção verticalizado, com diversificação da produção, maior eficiência e sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Diversificação e eficiência - os participantes puderam conhecer numa das estações do Dia de Campo a experiência de sucesso da Fazenda Santa Brígida, especialmente relacionada a questão dos sistemas integrados. O gerente operacional da propriedade, Alex da Silva, traçou um histórico do trabalho realizado na fazenda desde 2006. “No início, tínhamos aqui uma pecuária com índices bem baixos de produção. A pastagem estava degradada, com cupim e baixa capacidade de lotação dos animais”, contou. Ele explicou o passo a passo que foi seguido para que conseguissem mudar aquela realidade. “A primeira medida adotada foi corrigir o solo para iniciar o plantio da soja; pouco a pouco fomos pagando as contas”. No início, segundo ele, o ganho de peso diário dos animais era de 200 gramas por dia. “Hoje esse número saltou para 800 gramas por dia. Aos poucos, foi sendo feita essa transição de pecuária degradada para agricultura produtiva sustentável”.

Para o consultor Roberto Freitas, a principal característica desses sistemas de integração é permitir a diversificação de cultivos. “Hoje a gente percebe, acompanhando sistemas integrados e sistemas tradicionais de cultivo, que aqui na fazenda o maior diferencial foi mesmo proporcionado por essa diversidade, que é o grande mérito da integração. É por conta disso que não temos problemas com determinadas doenças de solo, como nematoides, por exemplo. Diferentes espécies garantem de fato a saúde do solo”, ressaltou.

Segundo o consultor, o último componente a entrar no sistema foi o florestal. “Um produtor de eucalipto solteiro espera seis anos para ter retorno financeiro. Aqui, já no primeiro ano amenizamos o investimento colhendo a soja, no segundo ano colhemos o milho, e já no terceiro ano estávamos com o gado. Por ser uma planta rústica, o eucalipto exige pouca fertilização. E aqui adubamos o eucalipto sem perceber”, contou. A gestão da fazenda adotou um índice de matéria orgânica utilizado nas análises de rotina do solo. “Em termos de matéria orgânica, nosso sistema está permitindo uma condição maior do que o teor original da vegetação nativa”, comemorou.

 “A diferença entre um produtor eficiente de outro ineficiente é de um dia. É aquele um dia que você deixou de pulverizar, de plantar, que você atrasou para colher. Determinadas informações são fundamentais e precisam ser utilizadas de forma eficiente para orientar a tomada de decisão”. Foi o que enfatizou o consultor da Fazenda Santa Brígida da área de gestão e pecuária, William Marchió, ao tratar numa das estações do Dia de Campo da questão da gestão técnica e operacional de sistemas integrados. Ele relatou como o trabalho era feito na fazenda até três anos atrás e como está sendo feito hoje. “Antes, os dados estavam todos em planilhas eletrônicas, hoje com os softwares que estamos usando, consigo acompanhar o que está acontecendo aqui de qualquer lugar do mundo”. A assistente administrativa da Fazenda, Aline da Silva, também participou dessa estação e explicou como a inserção dos dados é feita na prática. 

Esse monitoramento constante é justificado pelo crescimento dos números relacionados à propriedade. Em 2006, a Fazenda Santa Brígida tinha quatro funcionários e movimentava 60 mil reais por ano. Hoje a propriedade tem 20 funcionários e movimenta 16 milhões por ano. “Para alcançarmos esses números, tivemos que melhorar de forma significativa nossa gestão. Todas as informações inseridas no software geram relatórios e painéis de controle que servem de base para a tomada de decisão da equipe”, explicou Marchió. O gerente ressaltou, no entanto, que dá para iniciar sem ter essa estrutura disponível. “A fazenda começou sem nenhuma dessas ferramentas e hoje não para de crescer. Agora, precisamos melhorar a eficiência em tudo. E gestão é ponto extremamente importante e que faz a diferença”, defendeu.

Integrar para sobreviver - “Por que complicar se posso fazer o mais fácil? ”. O pesquisador da Embrapa Cerrados, Lourival Vilela, responsável pela estação que abordou a questão da contribuição dos sistemas integrados para produção de grãos, carne e madeira, contou que escuta com frequência essa pergunta dos produtores. E para ele a resposta é simples: “é uma questão de sobrevivência. Se você trabalhar com monocultura e não começar a diversificar, o sistema vai entrar em colapso”.

Ele explicou que no local daquela estação estavam plantados milho de verão consorciado com diferentes tipos de gramíneas. E adiantou que está para ser lançado o Sistema São Francisco, cujo objetivo é garantir oferta de forragem aos rebanhos durante o período seco do ano, além de auxiliar na recuperação de pastagens degradadas. O pesquisador apresentou algumas histórias de sucesso de produtores que adotaram a integração. É o caso, por exemplo, da Fazenda Boa Vereda, em Cachoeira Dourado (GO). “A produtividade da pecuária de corte saiu de quatro arrobas por hectare/ano para 18 arrobas/ano e com os cultivos de soja e milho eles amortizaram 85% da implantação do sistema”, contou.

Para Vilela, um dos grandes ganhos da tecnologia ILPF foi possibilitar a utilização da terra em quase a totalidade do tempo. “Se antes tínhamos uma safra de soja, que ocupava 42% do tempo, hoje produzimos na mesma área praticamente o ano todo. Dependendo da região são produzidas até quatro safras: a primeira de soja, a segunda de milho consorciado com braquiária, uma de boi e uma palhada com plantio direto”, detalhou. Ao substituir as áreas de pastos degradados pelo sistema ILPF, a Fazenda Santa Brígida, por exemplo, já produz por ano, no mesmo hectare, 3.900 quilos de soja ou 11.400 quilos de milho integrado de primeira safra, 7.200 quilos de milho na segunda safra e 730 quilos de carne na terceira safra, já que a lotação do pasto amentou de uma para 2,7 cabeças de gado.

Serviços ambientais - “Nos sistemas integrados temos uma tendência de nos aproximarmos dos sistemas naturais. E é isso que a gente busca, intensificar e diversificar a produção agrícola considerando as diferentes dimensões da sustentabilidade”, explicou o pesquisador da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, na estação que tratou das contribuições dos sistemas integrados ILP e ILPF para os serviços ambientais. Serviços ambientais, nesse contexto, são as boas práticas agrícolas que podem favorecer a manutenção, a recuperação ou a melhoria dos serviços ecossistêmicos - que são os benefícios diretos ou indiretos obtidos pelo homem a partir do funcionamento saudável da natureza.

De acordo com o pesquisador Jorge Werneck, os produtores rurais podem exercer papel fundamental na manutenção ou provimento desses serviços ecossistêmicos, ao mesmo tempo em que também se beneficiam deles. Esses benefícios ou ganhos estão relacionados com o estoque de carbono, com a qualidade da água e do solo, com a disponibilidade de água, com o controle de erosão, dentre outras funções ecológicas. “Uma área natural tem biodiversidade em sua plenitude. Quando entra agricultura, com certeza perdemos parte dessa biodiversidade, mas quando se trabalha com sistemas integrados, o produtor consegue produzir e ter um ambiente mais próximo do natural. Buscamos um certo equilíbrio entre a produção e o meio ambiente”, explicou.

Nessa mesma estação, a engenheira ambiental e analista da Fundação Espaço Eco, Marcela Porto, apresentou os resultados do estudo de Avaliação do ciclo de vida de Sistemas Integrados e Tradicionais, que mostra os benefícios da ILPF para a produção, meio ambiente e para a qualidade de vida do homem no campo. O trabalho foi realizado na Fazenda Santa Brígida e mostrou que a ILPF tem um custo de produção 54% menor e reduz em 55% as emissões de gases do efeito estufa se comparado aos sistemas convencionais. De acordo com o estudo, o sistema integrado também aumenta em 74% a qualidade do solo, em 41% a biodiversidade, além de ser seis vezes mais eficiente no uso da terra e, ainda, proporcionar melhor qualidade de vida para os trabalhadores rurais (acesse aqui mais informações sobre esse estudo).

Reunião técnica – na quinta-feira (30), foi realizada em Caldas Novas (GO), a Reunião Técnica da Rede de Fomento ILPF. Na ocasião, o presidente da John Deere, Paulo Hermann, anunciou o início da segunda etapa (2017-2022) da Rede, que agora passará a se chamar Associação Rede de Fomento. “A divulgação foi nosso forte nessa primeira etapa, agora chegou a hora de focar em agregação de valor por meio dos serviços ambientais”, afirmou. Segundo Hermann, também será prioridade do trabalho da Rede nessa segunda etapa a formação de futuros profissionais de ciências agrárias. “Os currículos da área estão ultrapassados. Precisamos de profissionais com visão sistêmica”. 

Hermann abordou também os resultados da pesquisa encomendada pela Rede de Fomento ILPF e realizada pela Kleffmann Group na safra 2015/2016. Segundo ele, alguns dados surpreenderam, como o que demonstrou que os pecuaristas são os que mais estão adotando a tecnologia, já que pensava inicialmente que eles é que teriam mais resistência. “A pesquisa mostrou que 84% deles estão satisfeitos com o sistema. Esse é mesmo um sistema ganha ganha e ninguém precisa ser especialista em arranjo produtivo, tem gente que pode fazer isso, o produtor precisa ser gestor”, enfatizou. 

A abertura da Reunião Técnica foi realizada pelo diretor-executivo de P&D da Embrapa, Ladislau Martin Neto. A tônica de sua apresentação foi a evolução da adoção da ILPF no Brasil e os dados da pesquisa que resultou na publicação ILPF em números (acesse aqui). “Antes de termos esses dados, muitos nos questionavam a respeito da adoção da tecnologia, diziam que estava sendo um processo muito lento. É preciso que fique claro que essa é uma decisão de investimento do produtor e não é algo automático”, ponderou. 

Segundo ele, os dados levantados foram fundamentais para promover uma reflexão consistente do que está de fato ocorrendo no campo. “Além disso, nos orienta tanto do ponto de vista da condução dessa Rede de parcerias, quanto do ponto de vista de elementos para nós da pesquisa e, também, para as instituições de extensão rural. Esse é um estudo que pode ser muito útil para identificar oportunidades de ampliação dessa agenda”, afirmou. Nesta data, foi assinado entre a Embrapa, a Fazenda Santa Brígida e a empresa John Deere Brasil um Acordo de Cooperação Técnica entre essas três instituições com o objetivo de ampliar as possibilidades de ações de transferência de tecnologia. 

A programação da Reunião Técnica contou ainda com uma palestra da presidente-executiva do Instituto Brasileiro para Inovação e Sustentabilidade no Agronegócio (IBISA), Mônika Bergamaschi, que tratou da importância da reforma da legislação trabalhista e suas implicações no meio rural. A Reunião foi encerrada com chave-de-ouro, com uma mesa redonda que trouxe casos de sucesso dos seguintes produtores que adotaram em suas propriedades a integração: Fernanda Guerreiro, da Fazenda Nelson Guerreiro, de Brotas (SP); Yula Cadette, da Fazenda Modelo II, de Ribas do Rio Pardo (MS); e André Bartocci, da Fazenda Nossa Senhora das Graças, de Caaparó (MS).

Rede - a agora Associação Rede de Fomento ILPF é uma parceria público-privada formada pela Embrapa, pela cooperativa Cocamar e pelas empresas John Deere, Dow AgroSciences, Parker e Syngenta, busca acelerar a adoção dos sistemas de ILPF por produtores rurais como parte de um esforço que visa à intensificação sustentável da agricultura brasileira. Iniciada em 2012, a Rede apoia quase uma centena de unidades de referência tecnológica distribuídas em todos os biomas brasileiros.

 

Assista ao vídeo sobre o Dia de Campo realizado na Fazenda Santa Brígida:

 

Juliana Caldas (MTb 4861/DF)
Embrapa Cerrados

Telefone: 61 3399 9945

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

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