15/08/17 |   Segurança alimentar, nutrição e saúde

Preço do leite se recupera no mercado internacional e ciclo de crise chega ao fim

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Foto: Humberto Nicoline

Humberto Nicoline - Mercado brasileiro de leite inicia recuperação

Mercado brasileiro de leite inicia recuperação

O mais longo ciclo de crise da produção láctea global dos últimos dez anos pode ter chegado ao fim. O preço do litro de leite pago ao produtor no mercado internacional, que chegou a 22 centavos de dólar, recuperou-se nos últimos meses e alcançou o valor histórico de 38 centavos de dólar em junho. A tonelada do leite em pó, que no pior momento de 2016, custava US$ 2.000,00, já está sendo vendida acima de US$ 3.100,00 no mercado internacional (Gráfico 1). A constatação é de três cientistas da Embrapa, especialistas em Economia. O analista da Embrapa Gado de Leite Lorildo Stock diz que as crises no mercado global de lácteos são cíclicas. “Geralmente ocorre um ano ruim para cada dois anos positivos, mas a crise que superamos durou 30 meses”, conta o pesquisador, que acrescenta: “até então não se havia registrado um período negativo que durasse tanto tempo.”

No Brasil, a crise teve como consequência uma retração de 3,7% da produção formal no ano de 2016 em relação a 2015, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “A produção brasileira de leite decrescer é um fato inédito”, conta o pesquisador da instituição João César Resende. A queda da produção nacional foi motivada pela crise interna e pelo alto custo dos insumos. Além disso, os preços competitivos do mercado externo estimularam a importação de lácteos. No ano passado, o País acabou importando 8% do seu consumo. Com a alta de preços lá fora e a queda do custo do concentrado, a produção interna está sendo estimulada e a tendência é que o setor se recupere, voltando a crescer a taxas de 3% a 4% neste ano, afirma o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Glauco Carvalho.

Embora em 2016 o preço do leite pago ao produtor no Brasil tenha se mantido, em média, 12% mais alto do que no resto do mundo, a situação aqui não foi das melhores. A quebra de safra de grãos em 2015 e o dólar alto elevaram o preço do concentrado e a margem de lucro ficou estreita (Gráfico 2, abaixo). Este ano, o cenário mudou: a safra recorde de grãos em 2016/2017 fez com os custos caíssem. Embora os preços ao produtor estejam mais baratos, a margem de lucro neste ano está 40% mais elevada do que no ano anterior. Bom para o produtor, que está ganhando mais; bom para o consumidor, que compra o produto mais barato. O preço médio do leite longa vida vendido nas gôndolas de supermercados e padarias ficou, em média, 6% mais barato este ano. Em junho, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola de São Paulo, já se comprava um litro de leite longa vida a R$3,23 (em junho de 2016, o preço era de R$3,76). A tendência é que o produto barateie ainda mais a partir de setembro, com a chegada do período das chuvas e o fim da entressafra, quando as pastagens se recuperam e a necessidade de grãos na alimentação animal diminui.

Causas da crise

Mas o que motivou a crise mundial no setor? Segundo Stock, que em junho esteve na Alemanha para conferência do IFCN Dairy Research Network  − rede mundial que compara a eficiência das fazendas leiteiras −, a crise se deu por excesso de oferta. Em 2012, havia pouco leite em pó nos estoques mundiais fazendo com que o preço se elevasse nos dois anos posteriores. O produto valorizado foi o sinal para que os fazendeiros incrementassem a produtividade. Em 2015, a Europa extinguiu as cotas, que fixavam patamares de produção. Sem amarras, os produtores europeus somaram mais leite ao ‘tanque mundial’, que já estava cheio pelo leite que vinha das fazendas australianas e neozelandesas. “Isso fez a crise se intensificar, e o que era para ser um ciclo curto acabou durando 30 meses”, avalia Stock.

Como impõe a lei de oferta e procura, o ímpeto dos fazendeiros teve que diminuir. Preço global baixo e elevado custo de insumos (além de um mercado sem muito ânimo para comprar) fez a produção recuar. O efeito pós-extinção das cotas europeias foi se acomodando, os estoques de leite em pó diminuíram e o preço se recompôs, retornando à sua média histórica. “A expectativa é que o preço internacional se mantenha em torno de 35 centavos de dólar”, calcula Stock. “A recuperação do setor ainda é moderada, mas o crescimento tende a ser sustentável”, diz.

Até uma década atrás, variações de preço do produto eram mais tímidas, ficando entre 15 e 20 centavos de dólar. “Agora, as variações são como ‘tsunamis’ que atingem a economia em escala global”, ressalta Stock. A razão disso é a própria evolução do mercado de lácteos. Por ser altamente perecível, num passado recente, o produto ficava circunscrito aos mercados regionais. De duas décadas para cá, a globalização da economia se intensificou e a Ásia – sobretudo a China – se transformou em grande comprador, fazendo com que o mercado de lácteos atingisse um novo patamar. O mundo acordou para o leite, que ganhou status de commodity.

No entanto, o setor lácteo é incapaz de dar respostas rápidas ao mercado, como outros setores da economia. Se a demanda mundial é por mais leite, não basta apertar um botão para a vaca produzir mais. Do ponto de vista nutricional, as dietas já são bastante ajustadas e não há como aumentar a produção, modificando a alimentação dos animais. O produtor precisa investir no crescimento do rebanho, o que leva tempo: entre a bezerra nascer e começar a produzir são quase três anos. Ao contrário, se a demanda se retrai, diminuir o plantel, transformando o rebanho leiteiro em corte, pode significar abrir mão de um alto investimento em genética diferenciada e manejo. Para o consumidor, a questão é ainda mais delicada, pois o leite é um produto que não possui substitutos. Se o preço do leite e derivados está alto, ninguém pensa em trocar iogurte por refrigerante, por exemplo.

Importação e exportação

Mesmo com a “mudança de patamar”, o mercado internacional de lácteos ainda é pequeno. Os principais exportadores são Austrália, Nova Zelândia e Europa. Mesmo produzido em um país potência em carne, grãos, café, cana etc., o leite brasileiro ainda aguarda seu espaço no agronegócio nacional. Argentina e Uruguai suprem nosso mercado interno. Por questões alfandegárias, importar de outros países fora do Mercosul custaria cerca de 40% mais caro (tarifas mais transporte). Em 2007, numa conjuntura bastante diferenciada (seca na Austrália e na Nova Zelândia), o Brasil chegou a exportar produtos lácteos para alguns países do Oriente Médio, mas tradicionalmente nosso déficit gira em torno de 5%.

Os pesquisadores da Embrapa avaliam que o setor no País começa a se redesenhar. Há maior profissionalização da atividade e os sistemas de produção estão ganhando escala com novos modelos de gestão e a adoção de tecnologias em genética, nutrição, qualidade do leite etc. Mas fazer com que o agronegócio do leite se encontre com o agronegócio nacional exige mais. Na visão de Carvalho, para ser exportador, o Brasil tem que ter preços alinhados com o mercado internacional. “Na média, nosso preço permanece mais alto do que lá fora. Enquanto em julho pagava-se lá fora 38 centavos de dólar por litro, aqui dentro o produto era vendido ao equivalente a 43 centavos de dólar”, compara Carvalho.

Para o pesquisador, o preço alto do leite no Brasil é reflexo da proteção de mercado vigente no País. Além do mais, o setor nacional sofre com problemas de regularidade de oferta. Mas Carvalho confirma que os indicadores têm melhorado. Um dos exemplos é a maior especialização do rebanho, com descarte de animais de pior genética. Além disso, o País possui o menor custo de produção de milho e soja do mundo, além de pastagens de alta qualidade. Talvez não falte muito para os produtos lácteos comporem nossa pauta de exportações.

Rubens Neiva (MTb 5445/MG)
Embrapa Gado de Leite

Telefone: (32) 3311-7532

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Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
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