16/01/18 |   Recursos naturais

Artigo - Compactação e Adensamento de Solo: caracterização, origem, riscos, danos e soluções

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Foto: Luiz Magnante

Luiz Magnante - Descompactação do solo em plantio direto

Descompactação do solo em plantio direto

José Eloir Denardin
Pesquisador da Embrapa Trigo


O manejo de solo, para o estabelecimento das espécies cultivadas, tem evoluído na perspectiva da redução da intensidade de mobilizações de solo, em consonância à redução dos custos de produção e à adoção da agricultura conservacionista. Este processo evolutivo partiu de mobilizações intensas ou amenas de solo, propiciadas, respectivamente, por aração e gradagem ou escarificação com ou sem gradagem, para mobilizações de solo restritas à linha de semeadura, a exemplo do “sistema plantio direto”.

Na medida em que a mobilização de solo é reduzida, o condicionamento do solo para o estabelecimento das espécies cultivadas passa a ser dependente da quantidade e qualidade da fitomassa aportada ao solo, pelas plantas componentes do modelo de produção adotado.

Neste sentido, em regiões de clima subtropical e tropical, o aporte de raízes ao solo se revela de maior importância que o aporte de palha ao solo. Enquanto a palha se destaca pela proteção do solo frente à ação da energia cinética da chuva, à redução da perda de água do solo por evaporação e à redução da amplitude térmica do solo ao longo do dia, as raízes das plantas se notabilizam como recuperadoras, construtoras ou mantenedoras da estrutura do solo. Em outras palavras, enquanto a palha protege o solo, as raízes recuperam, constroem ou mantêm a estrutura do solo, agronomicamente almejada. Assim, o amanho do solo para a semeadura das espécies cultivadas, outrora promovido pela aração, escarificação e gradagem, no “sistema plantio direto” é resultante da ação da biota do solo sobre as raízes das plantas integrantes dos modelos de produção praticados.

Em complementaridade ao exposto, a avaliação da fertilidade do solo, que em solos submetidos à mobilização intensa e amena de solo é convencionada aos indicadores químicos, como reação do solo (pH) e teor e balanço de nutrientes, na condição do “sistema plantio direto” é condicionada à interação de indicadores biológicos, físicos e químicos do solo, expressa através da qualidade estrutural do solo, a qual determina: armazenamento e disponibilidade de água às plantas; armazenamento e difusão de calor; fluxo de ar ou de gases; permeabilidade ao ar e à água; resistência do solo à penetração de raízes; reação do solo (pH); disponibilidade de nutrientes; e indisponibilidade de elementos tóxicos às plantas.

Em lavouras extensivas, produtoras de culturas temporárias, a estruturação, estabilização ou desestruturação do solo é, incondicionalmente, resultante da ação da biota do solo, seja no processo de decomposição do material orgânico aportado ao solo, seja na mineralização da própria matéria orgânica do solo. Portanto, em solo manejado sob “sistema plantio direto”, a qualidade estrutural do solo ou a fertilidade do solo depende, primordialmente, da quantidade e qualidade do material orgânico produzido, em decorrência do modelo de produção adotado, isto é, do arranjo, no tempo e no espaço, das espécies cultivadas.

Para as condições edafoclimáticas das regiões subtropical e tropical do Brasil, é estimado que a atividade biológica do solo requer a produção de 8 a 12 Mg/ha/ano de material orgânico, para manter a estrutura do solo agronomicamente desejável. Em termos de qualidade do material orgânico, entende-se que a melhor qualidade está implícita àquele em que o tempo requerido para sua decomposição é superior ao tempo requerido para sua formação, tendo como exemplo â fitomassa gerada por espécies pertencentes à família poaceae, dentre as quais se destacam os cereais de inverno e, principalmente os cereais de verão e inúmeras pastagens.

Com base nestas premissas intrínsecas à ciência do solo e aos preceitos da agricultura conservacionista, o “sistema plantio direto” é entendido como um complexo de tecnologias destinadas à exploração de sistemas agrícolas produtivos, contemplando: mobilização de solo exclusivamente na linha ou cova de semeadura ou plantio; manutenção dos restos de cultura na superfície do solo; e diversificação de culturas, estruturada em modelos de produção via rotação, sucessão e/ou consorciação de espécies, mediante adoção do processo colher-semear, entendido como redução ou supressão do intervalo de tempo entre uma colheita e a semeadura subsequente. Agrega-se a este conceito, atenção e cuidado para com a quantidade e forma de aplicação de calcário ao solo. O “plantio direto”, por sua vez, resume-se, exclusivamente, à mobilização de solo restrita à linha de semeadura e à manutenção dos restos de cultura na superfície do solo, porém em quantidade e qualidade aquém da demanda da biota do solo, com predomínio do cultivo de soja.

Lamentavelmente, o cenário cientificamente entendido, construído e validado para a adoção do “sistema plantio direto” se constituir em uma atividade conservacionista e com potencial de contribuir para a sustentabilidade da agricultura subtropical e tropical brasileira foi e vem sendo preterido em relação à adoção do “plantio direto”. É estimado que, no Brasil, a área cultivada com diversificação de espécies, em duas ou mais safras por ano agrícola, estruturada em conformidade ao complexo de tecnologias imposto pelo “sistema plantio direto”, não atinge 12 milhões de hectares, representando apenas 20% dos atuais 60 milhões de hectares destinados à produção de culturas temporárias. Em contrapartida, presume-se que o “plantio direto” esteja sendo praticado em cerca de 70% destes 60 milhões de hectares, sem, contudo, promover os benefícios esperados da redução da intensidade das mobilizações de solo.

A prática do “plantio direto” no Brasil, por mais de 30 anos, sem a atenção preconizada pelos formalismos estabelecidos para a adoção do “sistema plantio direto”, tem resultado em compactação e/ou no adensamento do solo, com implicações na elevação de riscos e danos à agricultura e com impactos em questões pertinentes à segurança alimentar, à estabilização do produtor na atividade agrícola e à balança comercial do país.

A compactação e o adensamento do solo se caracterizam por estratificar o solo em três camadas, com distintas propriedades físicas e químicas, estreitamente relacionadas ao nível de fertilidade do solo, ou seja:
- Camada superficial, situada, em média, entre 0 e 5 cm de profundidade, apresentando solo com estrutura granular solta, pH na faixa ideal, disponibilidade de nutrientes em suficiência e ausência de elementos tóxicos. Trata-se de uma camada de solo fértil, sem qualquer limitação de natureza física ou química para o desenvolvimento das plantas.
- Camada subsuperficial, situada, em média, entre 5 e 20 cm de profundidade, apresentando solo com estrutura maciça, compactada e/ou adensada, podendo ou não apresentar estratificação de indicadores químicos de fertilidade do solo. Trata-se de uma camada de solo com limitações de natureza física para o desenvolvimento das plantas, associada ou não a limitações de natureza química.
- Camada profunda, situada, em média, a partir de 20 cm de profundidade, apresentando solo com estrutura natural típica de cada solo, podendo ou não apresentar estratificação de indicadores químicos de fertilidade do solo. Trata-se de uma camada de solo sem limitações de natureza física para o desenvolvimento das plantas, associada ou não a limitações de natureza química.

A origem da compactação do solo é creditada ao tráfego de máquinas e animais sobre o solo. Esta ação, de natureza mecânica, exerce pressão sobre o solo, promovendo aproximação entre as partículas do solo e redução da porosidade do solo. O adensamento do solo, por sua vez, é creditado a ações de natureza biológica e química. A ação biológica decorre do aporte de fitomassa ao solo em quantidade e qualidade aquém da demanda da biota do solo, induzindo desestabilização de agregados e, em decorrência, dispersão de argilas. Já a ação química advém da calagem na superfície do solo, em que a concentração de calcário cria sítios de solo com pH, até mesmo, superior a 7,5, provocando dispersão de argila, principalmente da caulinita, predominante nos solos das regiões subtropical e tropical do Brasil. As argilas dispersas são carreadas pela água de infiltração no solo, dos sítios de dispersão para o interior dos poros do solo, obstruindo-os e gerando adensamento do solo.

A compactação e/ou o adensamento do solo, associados ou não a limitações de natureza química, implicam em restrições ao desenvolvimento do sistema radicular das plantas, à disponibilidade de água às plantas e, consequentemente, à disponibilidade de nutrientes e à absorção de nutrientes pelas plantas. A camada compactada e/ou adensada determina o confinamento das raízes das plantas na camada de solo superficial fértil. Em média, esta camada retém água disponível às plantas para não mais que 7 a 10 dias. Assim, a ocorrência de chuvas com frequência superior a este período, indubitavelmente resulta em déficit hídrico, com perda de produtividade e risco de frustação parcial ou total de safra.

Do exposto, a camada subsuperficial compactada e/ou adensada do solo induz riscos e danos à agricultura de duas formas: limitação do fluxo descendente de água no solo quando da ocorrência de chuvas intensas, tornando-se causa de perdas por erosão; e limitação do fluxo capilar ascendente de água do solo quando da ocorrência de estiagens, mesmo caracterizadas por pequenos períodos sem chuva, tornando-se causa de perdas por déficit hídrico. Estes cenários têm sido recorrentes na agricultura brasileira. A estabilização da produtividade média de soja no Brasil, composta por extremos de baixa e alta produtividade a partir da safra 2000/2001, se constitui em sólido indicador dos riscos e danos decorrentes destes processos de degradação do solo.

As soluções para remediar e prevenir a compactação e/ou o adensamento de solos manejados equivocadamente pela adoção do “plantio direto” requer inovações nas ações de divulgação, difusão e transferência de tecnologia. Entende-se que é necessário inovar, agregando-se, à transferência tradicional de tecnologias, ações dirigidas à formação de usuários, com foco na modernização e atualização de conhecimentos relativos aos princípios e aos fundamentos da ciência do solo e aos preceitos da agricultura conservacionista. 

 

 

 

 

 

Joseani M. Antunes (MTb 9693/RS)
Embrapa Trigo

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