14/10/20 |   Agroenergia  Estudos socioeconômicos e ambientais  Agricultura de Baixo Carbono

Transição para economia baixo carbono foi tema do Agroenergia Convida

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Print da tela - Alexandre Alonso e Renato Godinho foram os debatedores do Agroenergia Convida

Alexandre Alonso e Renato Godinho foram os debatedores do Agroenergia Convida

O convidado Renato Godinho (MRE) falou também sobre a Plataforma Biofuturo, liderada pelo Brasil
 
O derretimento das geleiras da Groenlândia pode ter atingido um ponto de não-retorno, mesmo que o mundo consiga reduzir as emissões de carbono e conter o aquecimento global em 1,5°C. Essa é a conclusão de um estudo publicado em agosto deste ano pela Nature Communications Earth & Environment. Se todo o gelo da Groenlândia derreter, estima-se que o nível do mar possa subir até 6 metros ao longo deste século, o que inundaria cidades costeiras em todo o mundo.
 
Para evitar que mais cenários irreversíveis como esse aconteçam, alguns países do mundo trabalham para fazer a chamada “transição energética”, que consiste na substituição de fontes de energia de origem fóssil, emissoras de gás carbônico na atmosfera, por fontes renováveis e não poluidoras.
 

 

Esse foi o cerne do debate Agroenergia Convida do dia 9 de outubro, que reuniu Alexandre Alonso, chefe-geral da Embrapa Agroenergia, e Renato Godinho, chefe da Divisão de Recursos Energéticos Novos e Renováveis (DRN), do Ministério das Relações Exteriores (MRE). 
 
“O mundo está fazendo uma transição energética, mas a grande questão é o tempo em que ela vai ocorrer. Ela tem que ser rápida e para isso é preciso mobilizar todas as soluções possíveis para descarbonizar o planeta”, afirmou Godinho. A boa notícia é que, no Brasil, uma solução baseada na própria natureza já está sendo amplamente adotada: o uso de biomassa para produzir biocombustíveis.
 
“O setor de energia e transporte é um dos que tem grau de emissão de CO2 bastante elevado, e isso enseja que a gente reconheça esse problema e tome iniciativas. De alguma maneira, estamos respondendo aos compromissos assumidos no Acordo de Paris”, lembrou Alexandre Alonso, questionando quais seriam os principais marcos em termos de política internacional para que a transição energética mundial aconteça.
 
Godinho explicou que o Acordo de Paris é o apêndice mais recente da Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a mudança do clima, assinada no Brasil durante a ECO-92, e que teria sido o “pontapé” inicial para o debate. Limitar o aumento da temperatura global abaixo de 2º, se possível a 1,5º (o mundo já passou do marco de 1º) seria o ponto principal desse acordo até 2025/2030.
 
“O acordo prevê um processo de revisões sistemáticas das contribuições dos países, mas um estudo já mostrou que, somadas as contribuições dos países signatários do Acordo de Paris, o resultado está muito aquém do objetivo. Ao contrário, o aumento de temperatura estimado é de quase 3º”, alertou Godinho.
 
A primeira revisão do acordo está prevista para ser feita durante a COP26 (Conferência para Mudanças Climáticas da ONU), prevista para novembro de 2021. “A gente não deve ficar confortável com a contribuição brasileira nem com a dos outros países porque todos já estão estudando como rever as metas para diminuir ainda mais as emissões e até o final do século chegar a uma economia neutra em carbono” disse Godinho. 
 
Plataforma para o Biofuturo
 
Sobre a Plataforma para o Biofuturo, iniciativa internacional capitaneada pelo Brasil e da qual fazem parte outros 19 países interessados em produzir energia limpa, Alonso questionou como tem sido feita a coordenação dos diversos stakeholders, ou seja, dos países que integram a coalização.
 
Sobre este assunto, Godinho explicou que o Acordo de Paris não define “como” os países devem diminuir as emissões de carbono, e que também não há uma coordenação internacional, mas uma “fragmentação da governança da energia internacional”.
 
“Há um cada um por si e muitos atores, países, empresas e conglomerados puxando as brasas para as suas sardinhas respectivas”, criticou. Como exemplo, citou a Alemanha, que neste momento está com um grande impulso para a conversão de hidrogênio em eletrólise.
 
Além disso, Godinho comentou que quando o discurso político dá lugar ao discurso científico, a bioenergia, aliada à captura de carbono, passa a ser uma das principais soluções para alcançar as metas do Acordo de Paris. “Aqui no Brasil a gente olhou esse cenário fragmentado e vimos que a questão não estava sendo devidamente contemplada pelos países industrializados. Então decidimos tentar mudar esse cenário e capitaneamos o lançamento da Plataforma para o Biofuturo, convencendo outros 19 países a fazer parte”, contou.
 
Segundo ele, a idéia da plataforma é ser uma coalizão com número de países reduzido, mas de grande impacto, como EUA, China, Índia, Indonésia, países europeus que tem tecnologias importantes como Dinamarca e Suécia e fazer dessa coalização um meio para alcançar uma bioeconomia sustentável de baixo carbono.
 
Juntamente com o Brasil, integram a Plataforma para o Biofuturo Argentina, Canadá, China, Dinamarca, Egito, Estados Unidos, Filipinas, Finlândia, França, Índia, Indonésia, Itália, Marrocos, Moçambique, Países Baixos, Paraguai, Suécia, Reino Unido e Uruguai. Atualmente, a plataforma é a principal coalizão mundial destinada a promover o estudo de políticas públicas e medidas para acelerar a economia de baixo carbono.
 
Bioeconomia avançada
 
Lembrando a estratégia de ação da Embrapa Agroenergia, Alexandre Alonso questionou Godinho sobre como a plataforma atua na vertente de biocombustíveis, bioquímicos e materiais renováveis. 
 
Porém, Godinho explicou que a questão da soberania nacional de cada país é muito importante, e que por isso é difícil pactuar metas de bioeconomia quantificáveis e mensuráveis. “O recurso adotado é o convencimento, a cooperação, o exemplo e a troca de experiências para levar os países a irem progressivamente alterando o consenso sobre a necessidade de certas políticas públicas, certos instrumentos macro no plano nacional que, uma vez implementados, começam a fazer a diferença”. 
 
Assim sendo, a Plataforma para o Biofuturo atuaria mais no sentido de ecoar os programas dos países, estabelecer acordos mínimos sobre princípios na esperança de que as nações participantes ganhem mais força interna para implementar programas importantes nessa área da bioeconomia.
 
Plataforma Biofuturo x ODS
 
Alonso também trouxe para o debate a reflexão de como a Plataforma para o Biofuturo se relaciona com outras agendas internacionais, como os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. 
 
Godinho afirmou que a ONU não tem uma presença muito forte no tema energia como tem em outras temáticas como alimentos, trabalho e diversos outros setores. “A Biofuturo não é uma organização das Nações Unidas, mas os ODS são um 'norte' para todos os países e a Plataforma para o Biofuturo está alinhada com o ODS 7 que é assegurar energia sustentável para todos”, explicou. Além disso, há trabalhos identificando o cruzamento da bioenergia com outros ODS, como promover emprego e renda no campo, trazendo benefícios para diversos outros objetivos do desenvolvimento sustentável.
 
“Há uma proposta do Secretário-geral das Nações Unidas (António Guterres) para fazer um diálogo sobre bioenergia no ano que vem”, contou Godinho. “É uma tentativa por parte da ONU de tentar colocar alguma ordem nessa fragmentação”, acredita.
 
Transição energética no Brasil
 
O chefe-geral da Embrapa Agroenergia Alexandre Alonso lembrou que no Brasil grande parte da matriz energética já é de origem renovável. Além disso, o País tem uma contribuição muito grande dos biocombustíveis, o que lhe dá a possibilidade de liderar o contexto da transição energética no mundo.
 
Para Renato Godinho, o Brasil é disparado, entre as grandes economias do mundo, a que mais tem proporção de energia renovável na sua matriz, chegando perto de 50% do total enquanto nos demais países a média global é de 15%.
 
“Os outros países têm que trabalhar muito para chegar onde a gente está, mas também não podemos descansar nos 'louros' porque o Brasil não é um mercado de energia madura, tem que triplicar a oferta energética nas próximas décadas para atender a necessidade de desenvolvimento”, alertou Godinho.
 
Já em alguns países desenvolvidos, como França, Inglaterra e EUA, o consumo total de energia nas próximas décadas vai ser reduzido pelos ganhos de eficiência energética e, como já são economias ricas, esses países não vão precisar de tanto crescimento.
 
“O Brasil precisa encontrar uma maneira de continuar suprindo essa energia de forma sustentável e até ampliar e melhorar esse perfil. E a bioenergia é fundamental dentro desse campo, porque contribui mais para a energia renovável no Brasil do que a própria hidroeletricidade”, afirmou Godinho. 
 
Brasil pode ser vanguarda em economia de baixo carbono
 
Para Godinho, o Brasil pode ser vanguarda em economia de baixo carbono uma vez que acumula experiência desde a década de 70, com o programa Proálcool. “Pelas condições naturais e prática que o Brasil tem de décadas, somando a capacidade, tecnologia, experiência e nossos fatores naturais, o Brasil tem tudo para ser o grande líder global desse setor”.
 
Para o chefe de recursos energéticos do MRE, se o setor de bioeconomia passar a existir no mundo, o Brasil poderá estar na vanguarda desse movimento. “Se a gente continuar fazendo bem a lição de casa, teremos condições de estar entre os países que estão desenvolvendo isso pela primeira vez”, disse Renato Godinho.
 
Para corroborar esta afirmação, citou o programa Renovabio, política pública fundamental, segundo ele, para destravar as inovações no setor. “Mas é preciso complementar com outras políticas públicas na área de tecnologia, por exemplo,” disse.
 
Para Alexandre Alonso, a vocação do Brasil pode estar no segmento de bioeconomia, bioenergia, bioprodutos derivados da biomassa e biodiversidade brasileira. “Essa me parece ser a agenda em que a gente tem substância para colocar adiante no contexto internacional, pois é um setor em que o Brasil se destaca”.
 
Godinho concordou, mas fez uma ressalva. “Estamos fazendo muito, mas poderíamos fazer ainda mais dada a relevância que este setor poderia ter para o Brasil na inserção internacional, provendo serviço, tecnologia, insumos para o mundo todo”, afirmou. “Há uma série de evoluções, novos produtos, materiais, segunda geração celulósica, outros processos termoquímicos que podem ser desenvolvidos”, completou. 
 
“Como somos tão bem sucedidos com um modelo que vem da década de 70, corremos o risco de perder o bonde de algumas coisas novas, desses combustíveis novos, processos novos. Deu tão certo o etanol e o biodiesel que podemos achar que não tem nada mais e na verdade está havendo uma revolução de caminhos tecnológicos para uma infinidade de produtos”, alertou Godinho. 
 
Alonso ressaltou que o trabalho desenvolvido pela Embrapa Agroenergia abrange o conceito de biorrefinaria, de modo a prover biocombustíveis, biomateriais, químicos de origem biológica e renovável. “A gente segue avançando exatamente nesse contexto de desenvolver novas tecnologias que permitam que tenhamos novos produtos, biocombustíveis, materiais e químicos cada vez mais sustentáveis e de alto desempenho”, afirmou.
 
Contribuições da agricultura brasileira 
 
Alexandre Alonso também falou da importância da agricultura brasileira no contexto da transição para uma economia de baixo carbono. “Temos  um programa de biocombustíveis bem-sucedido porque temos uma indústria de cana-de-açúcar bem estruturada, um mercado de biodiesel bem estruturado e a própria agricultura brasileira. Falar de economia de baixo carbono é falar de agricultura”, afirmou.
 
Para Godinho, o Brasil é capaz de cumprir com os acordos internacionais firmados graças à adoção de técnicas mais avançadas de agricultura de baixo carbono, onde não se usa queimadas, faz-se o plantio direto, e utilizam-se técnicas que permitem que a agricultura até passe a capturar ao invés de emitir carbono.
 
Alexandre citou o Programa Nacional de Bioinsumos como exemplo de política que leva a agricultura brasileira na direção do baixo carbono. “Temos biofertilizantes, biodefensivos, estimuladores de crescimento, de sorte que conseguimos ter cada vez mais a agricultura fornecendo condições para que o País continue avançando na agenda da sustentabilidade”, lembrou Alexandre. “Precisamos reconhecer que a agricultura brasileira também já está nesse movimento da agricultura de baixo carbono”, complementou. 
 
Godinho afirmou que a agricultura brasileira tem grande potencial para baixar carbono e muita sinergia com outros usos da bioeconomia, como o aproveitamento dos resíduos gerados para produzir outros produtos, como os biofertilizantes.
 
Papel da inovação
 
Por fim, Alonso abordou o papel da inovação na transição para a economia de baixo carbono. Para Godinho, a inovação é fundamental para substituir progressivamente os insumos fósseis. “É muito bom ter centros como a Embrapa Agroenergia trabalhando nessa vertente. Acho que o Brasil precisava de muito mais investimento nessas instituições e em outras frentes de pesquisa e inovação”, disse.
 
Segundo Godinho, há promessas grandes de empresas que precisam se concretizar atravessando os chamados “vales da morte” para sair da escala de demonstração para a escala comercial. 
 
Política pública x bioeconomia
 
Renato Godinho finalizou sua participação no Agroenergia Convida afirmando que a construção da bioeconomia é do tipo policy driven, ou seja, impulsionada por políticas públicas. “Sem políticas você não viabiliza uma bioeconomia em larga escala”, afirmou. Ele citou novamente o Renovabio, que faz a precificação positiva da redução de emissões de carbono. Para Godinho, a estratégia do Renovabio também poderia ser utilizada em outros setores estimulando novas práticas. 
 
Por fim, Alonso abordou os cinco princípios lançados pela Plataforma para o Biofuturo para a aceleração da bioeconomia no cenário pós Covid-19. “A pandemia afetou muito no curto prazo o setor de biocombustíveis fósseis e, por tabela, o de biocombustíveis, que sofreu impacto de preço e queda de demanda”, disse Godinho. “A bioeconomia, por ser altamente geradora de empregos, serve não apenas para fazer a transição energética como também para estimular a recuperação econômica neste momento”, concluiu.  
 
O vídeo do Agroenergia Convida com Renato Godinho está disponível aqui. O próximo Agroenergia Convida já tem data marcada: dia 23/10 às 11h, com o tema “Bioeconomia e a Indústria Brasileira”. Os convidados serão Davi Bomtempo, Gerente-executivo de Meio Ambiente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Gonçalo Pereira, acadêmico da Universidade de Campinas (Unicamp). 
 

Irene Santana (Mtb 11.354/DF)
Embrapa Agroenergia

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