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Avanços em conservação e melhoramento genético, sistemas de produção para madeira e experiência junto a produtores rurais são discutidos em evento sobre Araucária

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Na quinta-feira, 29/10, aconteceu o segundo painel do evento “Araucária: pesquisa e inovação para sistemas de produção”. Moderado pelo pesquisador Ivar Wendling, da Embrapa Florestas, o painel abordou aspectos de silvicultura, conservação e melhoramento genético. O evento é organizado pela Embrapa Florestas e conta com a parceria do IDR-Paraná, Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A primeira palestrante foi a pesquisadora Valderês de Sousa, da Embrapa Florestas, que falou sobre pesquisas com conservação e melhoramento genético da Araucaria angustifolia. A pesquisadora ressaltou que as pesquisas com a espécie ganharam força a partir da década de 2000, sendo um desafio pelas próprias características da araucária, como reprodução tardia, inexistência de marcador para identificação precoce do sexo da planta, sementes com curta longevidade e ciclo reprodutivo longo.

A pesquisadora explicou o avanço nos métodos de análises de populações de araucária e que, um dos resultados, é a confirmação de que populações mais ao norte da região de ocorrência (SP e MG) apresentam bastante diferenciação genética das populações mais ao Sul (PR, SC e RS). “A diferenciação genética em função das distâncias geográficas ficou evidente com o uso de isoenzimas, microssatélites (SSRs – Sequências simples repetitivas) e, posteriormente, com SNPs (polimorfismo de nucleotídeo único). Utilizando microssatélites, estudamos também a adequabilidade ambiental. A conclusão é que as diferenças genéticas coincidiram com as regiões de adequabilidade ambiental norte e sul. Com isso, é possível delimitar melhor a espécie para programas de conservação e melhoramento genético”, explica a pesquisadora.

Para fins de conservação, isso implica na necessidade de manter as populações das regiões norte e sul separadas e, se possível, também seus subgrupos. Já no caso do melhoramento genético, estes dados podem ser usados para estudos de cruzamento entre populações contrastantes para produzir híbridos.

A seleção genômica ampla (SGA) é outra ferramenta utilizada. “Como o ciclo reprodutivo e de seleção da araucária é muito grande, isso traz problemas a programas de melhoramento”, explica Sousa. Com a SGA, será possível fazer seleção precoce com base em informações como características de crescimento e morfológicas, qualidade da madeira, entre outros. “Isso acelera o programa”, analisa a pesquisadora. “Hoje, podemos disponibilizar um chip com 3.000 marcadores de SNPs para estas análises”, completa.

A pesquisadora ainda ressaltou aspectos de atenção para programas de melhoramento e conservação, como manuseio e dispersão de pólen, polinização controlada, propagação vegetativa, indução de florescimento, embriogênese somática, criopreservação de embriões, estudo de variedades, estudos de fenologia reprodutiva, dentre outros.
 
Sistema de produção de araucária para madeira

O segundo palestrante do painel foi o Prof. Mário Dobner Jr, da Universidade Federal de Santa Catarina/Campus Curitibanos, que falou sobre os problemas e o potencial do sistema de produção de araucária para produção de madeira, em especial por empresas. Em sua palestra, ele abordou os estudos já desenvolvidos ou em desenvolvimento, a percepção de empresas e produtores rurais e os desafios e oportunidades.

Em relação aos estudos, o palestrante destacou que hoje alguns fatores para o sucesso dos plantios são mais bem conhecidos. Um deles, as condições de sítio, mostram que sítios de alta produtividade possuem maior abundância e diversidade de fauna e microrganismos do solo e equilíbrio entre os grupos funcionais. “Aquela visão tradicional do solo agronomicamente adequado, com profundidade, sem pedregosidade, tem sido substituída por resultados de condições de sítio que proporcionam uma melhor relação planta-solo”, explicou, mostrando resultados de alta produtividade de um plantio de araucária em solo raso e pedregoso comparado a um de baixa produtividade com solo profundo.

Outro fator pesquisado é a realização de desbastes, com dados que confirmam que a sua realização proporciona melhor desenvolvimento às árvores que permanecem. “No entanto, precisamos ter cuidado com os desbastes atrasados”, pondera o professor. “Plantios em idade avançada, em que as árvores estão há muito tempo competindo, apresentam dificuldade em responder ao desbaste”, alerta, com dados de 20 anos de monitoramento.

O terceiro aspecto apresentado é a realização de podas para produção de madeira livre de nós. “Tenho convicção de que uma nova onda de interesse para plantio de araucária está vindo, com a disponibilização de material de maior produtividade. Plantios para produção de madeira sólida, de maior valor agregado. Por isso, a realização da poda de forma adequada é fundamental, pois também influencia fortemente o crescimento em diâmetro das árvores”.

Dobner Jr contou sobre a experiência das empresas Florestal Gateados e Sincol com o plantio de araucárias e também da área experimental da UFSC em Curitibanos/SC, que tem apresentado bons resultados e estimulado o interesse em seu sistema de produção, em um trabalho em parceria com a Embrapa Florestas e Epagri. E finalizou com os problemas e desafios, como a dificuldade em realizar colheita mecanizada, demanda instável e problemas no sistema “Documento de Origem Florestal” (DOF). “Por outro lado, vejo também um grande potencial com material genético de maior produtividade e estabilidade que esperamos esteja disponível em breve, fruto de pesquisas da Embrapa Florestas com empresas”, avalia Dobner Jr. A intenção de empresas e produtores rurais em diversificar e agregar valor também é um potencial a ser explorado, aliado ao maior entendimento das condições de sítio, silvicultura e manejo da espécie.
 
Conservação pelo uso sustentável
O terceiro e último palestrante do dia foi Victor Moreira, empreendedor e pesquisador da Fundação Certi e Araucária+, que falou da cadeia do pinhão como impulsionadora da conservação da floresta com araucárias.

Moreira trouxe dados de um diagnóstico da Fundação Certi sobre erva-mate e pinhão que, embora tenha sido publicado em 2002, ainda traz a realidade das cadeias produtivas. No caso do pinhão, uma cadeia que tem como características principais a informalidade, a presença de muitos intermediários (atravessadores), e apresenta desafios tecnológicos como beneficiamento e pós-colheita, além da necessidade de critérios para colheita do pinhão.

Para fazer frente a estes desafios, o projeto Araucária+, da Fundação Certi e Fundação Boticário, acontece desde 2013 com objetivo de desenvolvimento sustentável da cadeia da araucária com olhar de conservação. O projeto atende cerca de cem produtores rurais, que trabalham com critérios ambientais e são conectados a empresas, também com olhar ambiental, com o objetivo de chegar a consumidores com olhar diferenciado para os produtos. “Com esse valor agregado, conseguimos atrair o produtor para um aumento de renda e subsídio para cuidar da floresta”, pondera Moreira.

“Existe um hub com a missão de olhar a cadeia produtiva como um todo”, explica o pesquisador e empreendedor. É um olhar para um mercado diferenciado e como agregar valor à cadeia produtiva. “A ideia é conectar uma rede de atores para inovação. Que olhe de forma diferenciada para geração de novos produtos e processos para gerar impacto”, completa. Com isso, pretende-se chegar ao uso sustentável e conservação integral. Além disso, há um cuidado em acompanhar se a floresta está melhorando, se produtor está tendo retorno socioeconômico, enriquecimento ambiental, além de possibilitar a rastreabilidade dos produtos e incentivar o associativismo. “Trabalhamos com a conservação pelo uso sustentável”, afirma.

O projeto também trabalha com o apoio e incentivo ao desenvolvimento de novos produtos para mercados diferenciados, como cerveja com pinhão, farinha de pinhão (em parceria com a Embrapa Florestas), tingimento natural de tecidos (slow fashion), entre outros potenciais como a venda de pinhão descascado e congelado, briquetes, corantes, esfoliantes naturais, entre outros.

Moreira finalizou com os desafios da cadeia: organização da base produtiva, pós-colheita e armazenagem, descasque industrial do pinhão, sazonalidade e oferta de ingredientes. Para isso, são necessárias estratégias integradas de conservação, com uso sustentável e integral; soluções integradas nos territórios, envolvendo comunidades, empresas, ou seja, trabalhar em rede; e respeito às vocações regionais, na perspectiva de inovação e agregação de valor.
 
Assista aqui a gravação do Webinar, que contou ainda com debate entre os palestrantes e apresentação de trabalhos voluntários. 

Katia Pichelli (MTb 3594/PR)
Embrapa Florestas

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Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
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