08/06/21 |   Agricultura familiar  Agroindústria  Melhoramento genético  Produção vegetal  Manejo Integrado de Pragas

Com menor acidez, novo azeite de dendê agrega valor à culinária baiana

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Foto: Divulgação

Divulgação - Batizado de Unaué, o novo azeite de dendê foi testado em restaurantes do município baiano, com bastante aceitação tanto pelo sabor como pela qualidade

Batizado de Unaué, o novo azeite de dendê foi testado em restaurantes do município baiano, com bastante aceitação tanto pelo sabor como pela qualidade

  • Experimentos da Ceplac com uma variedade híbrida de dendê da Embrapa (HIE OXG) resultaram em um novo azeite, com menos acidez e mais sabor. 

  • O produto é resultante do cruzamento entre o dendezeiro de origem africana (Elaeis guineensis) e o caiaué, de procedência americana (Elaeis oleífera).

  • Por ter sido desenvolvido no campo experimental da Ceplac em Una, BA, foi batizado com o nome de Unaué.

  • O crescimento lento do híbrido HIE OXG o torna uma opção viável para a agricultura familiar, por requerer menos mão de obra e prolongar o período de viabilidade da exploração comercial dos plantios. 

  • Beneficia também a sustentabilidade da dendeicultura do estado porque apresenta resistência à pior praga dessa cultura, o Anel Vermelho (AV).

  • O novo azeite agrega valor à culinária baiana por contar também com propriedades funcionais.

Experimentos realizados pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) com uma variedade híbrida de dendê desenvolvida pela Embrapa Amazônia Ocidental (AM) resultaram na produção de um novo tipo de azeite, com baixa acidez e sabor mais suave. A solução impacta diretamente a culinária baiana, visto que a alta acidez do dendê é tida como responsável por distúrbios gastrointestinais, o que afasta muitos apreciadores. O cultivo do híbrido pode contribuir ainda para a sustentabilidade da dendeicultura da região, principalmente de pequenos produtores, por aliar baixo custo de produção e resistência a pragas.

O novo azeite, desenvolvido na Estação Experimental Lemos Maia (Esmai/Ceplac), no município de Una, BA, é resultante do cruzamento entre o dendezeiro de origem africana (Elaeis guineensis) e o caiaué, de procedência americana (Elaeis oleífera), conhecido como HIE OxG híbrido interespecífico (entre o dendê e o caiaué). Batizado de Unaué, foi testado em restaurantes do município baiano, com bastante aceitação tanto pelo sabor como pela qualidade. 

O produto herdou a baixa acidez e a alta concentração de ácidos graxos insaturados (bons para o coração) do caiaué, além de ser mais claro e uniforme. Por apresentar alto percentual de oleína, é indicado para moquecas, fritadas de ovo, aipim, frango etc. Já a versão para acarajés vem com certo teor de estearina, pois as baianas produtoras de acarajés preferem um azeite com mais gordura.

Segundo o pesquisador da Ceplac José Inácio Lacerda Moura, o futuro aponta para a estruturação de um trabalho em parceria com a Embrapa voltado à distribuição de mudas do híbrido a produtores, especialmente agricultores familiares, dispostos a produzir e processar o dendê na própria fazenda. Há que se considerar ainda que o híbrido tem porte baixo, o que minimiza os custos de colheita e apresenta resistência moderada a pragas e doenças, notadamente ao Anel Vermelho, doença comum e altamente letal ao dendezeiro de origem africana (Tenera) - veja mais detalhes no quadro abaixo.

Qualidade do óleo beneficia produtores e consumidores

O óleo do HIE OxG tem menor quantidade de ácidos graxos livres do que o do dendezeiro e, por isso, apresenta menor acidez e melhor qualidade. É também mais insaturado e com maior teor de vitamina E e carotenos do que o óleo do dendezeiro. Estudos também demonstram que o óleo do híbrido tem potencial para o preparo de alimentos funcionais, rico em polifenóis, com propriedades antioxidantes e impacto favorável sobre os lipídios plasmáticos humanos, relacionados com os fatores de risco cardiovascular. Devido a essas características, o uso desse óleo, principalmente no caso de produtos da culinária tradicional que utilizam o óleo de dendezeiro não refinado, proporcionará produtos de melhor qualidade, sabor, propriedades nutracêuticas e funcionais.

Considerando as características favoráveis do HIE OxG, tanto agronômicas como de qualidade do óleo, vislumbra-se que seu cultivo pode contribuir de forma significativa para a sustentabilidade da dendeicultura baiana, principalmente de pequenos produtores, bem como destacar ainda mais a culinária tradicional baiana.

Na Bahia, onde o óleo bruto (não refinado) de dendê tem amplo uso e importância na culinária, a qualidade do HIE OxG é altamente favorável aos produtores, que poderão obter melhor remuneração pelo produto, e aos consumidores, que terão acesso a produtos de melhor qualidade e mais saudáveis.

Características do híbrido

O dendezeiro (Elaeis guineenses Jacq.), foto acima, principal fonte mundial de óleo vegetal, conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês) chegou ao Brasil no século XVI, trazido do continente africano pelos escravos e desembarcando no estado da Bahia, onde encontrou no Recôncavo Baiano plenas condições climáticas e de solo para o seu desenvolvimento, dando origem aos dendezais subespontâneos existentes atualmente na região.

Já o caiaué (Elaeis oleifera) é endêmico da região tropical úmida da América Latina com populações espontâneas no Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guiana Francesa, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Suriname e a Venezuela.

Os pesquisadores da Embrapa Ricardo Lopes e Raimundo Cunha explicam que o híbrido interespecífico entre essas espécies (HIE OxG) tem sido explorado em programas de melhoramento genético com objetivo de associar a alta produtividade em óleo do dendezeiro com a resistência ou tolerância a pragas e doenças, porte baixo e qualidade do óleo do caiaué. Em 2010 a Embrapa lançou a primeira cultivar de HIE OxG desenvolvida no Brasil, denominada BRS Manicoré (foto à direita), obtida a partir do cruzamento de caiaué da origem Manicoré com dendezeiro da origem La Mé.

Experimentos da Ceplac com dendê da Embrapa  

Os experimentos na Bahia com o dendê americano tiveram início em 2009 e seus resultados foram divulgados em artigo publicado na revista Agrotrópica, em abril de 2019, assinado pelos pesquisadores Ricardo Lopes e Raimundo Cunha (Embrapa Amazônia Ocidental) e Sinval Pinto, Lindolfo Filho e José Moura (Ceplac).

O declínio da dendeicultura baiana, de acordo com José Moura está baseado em vários fatores, tais como: custo com a colheita em razão da altura, baixa produtividade, óleo com alta acidez em virtude do manejo inadequado, falta de assistência técnica e problemas fitossanitários.

Os pesquisadores avaliaram que o híbrido, quando comparado às cultivares de dendezeiro, apresenta como vantagens menor crescimento em altura, melhor qualidade do óleo e resistência a pragas e doenças, com destaque ao Anel Vermelho (AV), causado pelo nematoide Bursaphelencus cocophilus Cobb, que é o principal problema fitossanitário nos dendezais baianos. Portanto, além do potencial produtivo dos HIE OxG, houve interesse em avaliar a resistência desse material à doença.

No estudo foram avaliadas 12 progênies de HIE OxG para produção de cachos de frutos frescos (CFF) e resistência ao Anel Vermelho. O experimento foi implantado em 2009, no campo da Ceplac/Esmai, com o delineamento de blocos ao acaso com cinco repetições e 12 plantas por parcela. As avaliações foram realizadas do quarto ao oitavo ano após o plantio. A mortalidade de plantas devido ao AV foi de 4%. Os HIE OxG apresentaram alta resistência ao AV e alto potencial produtivo, demonstrando grande potencial para cultivo na Bahia.

Moura explica ainda que na região do Baixo Sul da Bahia tem-se uma área de aproximadamente 30 mil ha de dendezeiros subespontâneos explorados comercialmente, sendo muitas dessas áreas consideradas marginais, com predominância de plantas do tipo Dura e com árvores ultrapassando a fase de declínio produtivo. Com a idade avançada das plantas, além do declínio produtivo, como as plantas são muito altas, tem-se baixo rendimento da colheita, resultando em alto custo de produção do óleo. “Destaca-se também que a falta de manejo adequado das populações espontâneas e dos plantios comerciais, tem contribuído para o aumento de doenças nos dendezeiros baianos, entre as quais se destaca o AV”, conta o pesquisador.

Caiaué não é afetado pelo Anel Vermelho (AV)

Levantamentos realizados pela Ceplac indicaram que o caiaué não é afetado pelo Anel Vermelho, enquanto o dendê é suscetível e o híbrido (HIE OxG) tem resistência moderada. Os resultados se referem a plantios com 25 anos de idade e analisaram a taxa de mortalidade de plantas devido à incidência da doença. Com o HIE OxG, foi verificada taxa de aproximadamente 7% em uma população de 250 plantas, enquanto nos plantios de dendê, durante esse mesmo período, a mortalidade foi alta, 57%, em uma população de 3.853 plantas.

“A resistência ao AV apresentada pelo HIE OxG é transmitida pelo caiaué, visto que, após décadas de plantio da espécie na Esmai, nenhuma morte foi registrada em decorrência da doença. Devido aos grandes prejuízos causados à dendeicultura baiana e à dificuldade para o controle da doença, é de grande interesse o cultivo dos HIE OxG no estado”, explica Moura.

Ele destaca que, além da resistência ao AV, o HIE OxG apresenta crescimento lento em altura, o que reduz o custo de colheita devido ao maior rendimento da mão de obra, bem como prolonga o período de viabilidade da exploração comercial dos plantios.

 

Maria José Tupinambá (114 MTb/AM)
Embrapa Amazônia Ocidental

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