19/07/21 |   Estudos socioeconômicos e ambientais  Mudanças climáticas

Pesquisa comprova que secas e incêndios alteram a função vital da Floresta Amazônica

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Foto: Erika Berenguer

Erika Berenguer - Fogo durante El Niño de 2015

Fogo durante El Niño de 2015

Nas áreas analisadas houve a perda de bilhões de árvores e emissão de grande quantidade de carbono

A seca extrema provocada pelo El Niño de 2015 e 2016, associada às queimadas florestais na Amazônia, causaram a morte de cerca de 2,5 bilhões de árvores e emitiram 495 milhões de toneladas de gás carbônico para a atmosfera, em uma área que representa apenas 1% por cento de toda a floresta amazônica brasileira. Isso significa que a floresta, cuja função vital é fixar o carbono nas plantas, quando perturbada pela degradação e pelo fogo, pode ser uma das maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa do planeta.

A descoberta foi revelada no artigo  "Tracking the impacts of El Niño drought and fire in human-modified Amazonian forests" (Rastreando os impactos da seca pelo El Niño e do fogo nas florestas amazônicas modificadas antropicamente), publicado pela PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences dos Estados Unidos da América) esta semana. O estudo, conduzido por uma equipe internacional de cientistas no âmbito da Rede Amazônia Sustentável (RAS) - consórcio de pesquisa coordenado pela Embrapa e outras instituições nacionais e internacionais - e projetos parceiros, foi realizado antes, durante e depois da seca do El Niño em 2015 e no início de 2016.

Fogo

Em condições normais, por causa dos altos níveis de umidade, a floresta amazônica não queima. No entanto, a seca extrema torna a floresta temporariamente inflamável. O fogo induzido pela ação humana, nessas circunstâncias, pode se tornar incontrolável e provocar incêndios florestais.

O estudo relevou que plantas em florestas afetadas pelo evento climático e pelas queimadas induzidas pelo homem continuaram morrendo a uma taxa acima do normal por até três anos, liberando mais gás carbônico na atmosfera. A pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Lancaster e Universidade de Oxford (Reino Unido), e principal autora do estudo, afirma que o trabalho tem implicações significativas frente aos esforços globais para controlar o balanço de carbono atmosférico.

“Nossos resultados destacam os efeitos enormemente prejudiciais e de longa duração que os incêndios associados a eventos climáticos podem causar nas florestas amazônicas, um ecossistema que não co-evoluiu com a pressão do fogo e da degradação”, explica a cientista.

 

Apenas um terço do COemitido foi recuperado

Ao examinar o epicentro amazônico do El Niño, no Baixo Tapajós, região da Amazônia oriental, os cientistas constataram que o dano à floresta dura por vários anos. Na prática, três anos depois da seca e em decorrência das queimadas na região, apenas cerca de um terço (37%) das emissões de gás carbônico foram reabsorvidas pelo crescimento das plantas na floresta.

Outro resultado apontado pelo grupo é que as emissões totais de CO2 da seca e incêndios apenas na região estudada foram maiores do que as emissões do desmatamento de um ano inteiro em toda a Amazônia. Foram 495 milhões de toneladas de gás carbônico liberados no período de três anos, provenientes de uma área que representa pouco mais de 1% da Amazônia brasileira. “Isso representa também muito mais que a quantidade de emissões anuais dese gás de alguns dos países mais poluentes do mundo, como o Reino Unido e a Austrália”, exemplifica Berenguer.

A bióloga Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental (Belém,PA), uma das autoras do estudo, explica que a floresta é um importante sumidouro (fonte de retenção) de carbono em situações normais. “O que faz a floresta ser uma fonte de emissões é quando ocorre degradação e o fogo”, comenta.

Ela ressalta ainda que de acordo com previsões climáticas, secas extremas se tornarão mais comuns e, até agora, os efeitos de longo prazo desses eventos na floresta amazônica, e particularmente nas florestas perturbadas com atividades como extração ilegal de madeira e queima, eram em grande parte desconhecidos.

 

Perda de árvores foi maior nas florestas afetadas pela ação humana

Para chegar aos resultados do estudo, os cientistas acompanharam 21 parcelas de floresta na Amazônia oriental entre florestas primárias (áreas nativas ainda sem perturbação), secundárias (áreas em crescimento após o corte raso para agricultura) e florestas que passaram por cortes seletivos de madeira. Por meio de simulação, os resultados foram então extrapolados para a região.

A perda de árvores nas florestas secundárias e em outras florestas afetadas por ação humana foi bem maior que nas florestas primárias. Isso porque árvores e outras plantas com menor densidade de madeira e cascas mais finas são mais propensas a morrer com a seca e incêndios.

Os pesquisadores estimaram que cerca de 447 milhões de árvores grandes (com mais de 10 cm de diâmetro na altura do peito) morreram e cerca de 2,5 bilhões de árvores menores (menos de 10 cm de DAP) morreram na região do Baixo Tapajós.  “A combinação de seca e fogo foi significativamente maior nas florestas modificadas por ações humanas. As emissões de carbono dessas florestas queimadas por incêndios florestais foram quase seis vezes maiores do que as florestas afetadas apenas pela seca”, afirma o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster.

 

Tecnologias ajudam a prever e minimizar os riscos

Para o professor Barlow, as descobertas destacam como a interferência humana pode tornar as florestas amazônicas mais vulneráveis ​​e enfatizam a necessidade de reduzir a extração ilegal de madeira e outros distúrbios em grande escala, bem como os investimentos em capacidades de combate a incêndios região.

A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa, indica que o país já tem tecnologia e soluções para prever secas e mapear riscos de incêndios a cada ano. “É possível elaborar mapas de riscos de incêndios com base nas condições meteorológicas e em vários dados facilmente acessíveis, inclusive por sensoriamento remoto, como densidade de pessoas, número de áreas agrícolas, tamanho de áreas desmatadas e outros”, afirma a cientista. Ela acrescenta ainda que esses mapas podem ser usados para fazer gestão dos riscos, com regras mais rígidas onde o risco for maior.

“É preciso agir em diferentes escalas. Internacionalmente, precisamos de ações para enfrentar as mudanças climáticas, que estão tornando as secas extremas e os incêndios mais prováveis. Em nível local, as florestas sofrerão menos consequências negativas dos incêndios se forem protegidas da degradação”, conclui Barlow.

 

Ana Laura Lima (MTb 1268/PA)
Embrapa Amazônia Oriental

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