27/01/16 |   Mudanças climáticas  Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação

Artigo: Histórico Climático de 2015 e a safra vitícola 2015/16 no Rio Grande do Sul

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Por Maria Emília Borges Alves, Pesquisadora Agrometeorologia; Henrique Pessoa dos Santos, Pesquisador Fisiologia

Embrapa Uva e Vinho.

A Organização Meteorológica Mundial afirma que o período de 2011 a 2015 foi o quinquênio mais quente em nível global, desde que se tem registros, com numerosos eventos meteorológicos extremos, especialmente ondas de calor. E, neste contexto, o ano de 2015 superou 2014, tendo sido registradas as temperaturas mais elevadas, ultrapassando o limite de 1 °C acima dos níveis pré-industriais.

Somado às evidencias de aquecimento global, a população mundial está experimentando um intenso episódio de El Niño que vem atuando desde meados de 2015 e provavelmente continuará atuando até o final do verão de 2016. Sua influência é notada nas condições meteorológicas de diversas regiões do mundo e, no Brasil, de forma mais marcante nas regiões Sul e Nordeste. A região Nordeste do país vem sofrendo com uma seca severa, enquanto que os estados da região Sul tiveram um ano marcado por chuvas excessivas, tempestades e temperaturas acima das Normais Climatológicas1.

Na região da Serra Gaúcha, conforme registrado na estação meteorológica instalada na sede da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves – RS2 , as temperaturas médias se mantiveram acima das normais praticamente durante todo o ano, especialmente para as temperaturas mínimas médias (Figura 1), dando destaque ao recorde de temperatura observado no mês de agosto, quando as temperaturas médias observadas foram as maiores desde 1940, de acordo com os registros da Área de Agrometeorologia da Embrapa Uva e Vinho. Este cenário, como consequência, se refletiu em fatores climáticos que impactam o potencial de produção e o ciclo fenológico das videiras e demais fruteiras de clima temperado como, por exemplo, o número de horas de frio hibernal (HF).

Figura 1 - Temperaturas médias mensais (ºC) Bento Gonçalves

Figura 1

A ocorrência de temperaturas mínimas médias mais elevadas do que as normais ocasionaram um menor acúmulo de Horas de Frio (HF) abaixo de 7,2ºC no período compreendido entre os meses de abril e setembro (Figura 2), período no qual as fruteiras de clima temperado requerem um determinado número de horas de frio para que seja alcançada uma adequada quebra de dormência das gemas das plantas e uma brotação uniforme. O número de HF requerido varia conforme a espécie e as variedades cultivadas. Portanto, no início desta safra vitícola foram observadas falhas de brotação e um período de brotação de gemas bem maior do que o habitual. Isto dificultou o manejo de poda e a aplicação de tratamentos químicos para uniformização da brotação, resultando em supressões no número de ramos férteis (com cachos) por planta.

Figura 2 - Horas de Frio (HF) < 7,2 ºC - Bento Gonçalves

Figura 2

A partir de uma comparação entre as temperaturas médias anuais observadas nos últimos cinco anos, em Bento Gonçalves (Figura 3), nota-se que o ano de 2015 manteve o padrão de 2014 e se assemelhou a 2012, tendo como referência as médias normais. Contudo, embora não haja grandes variações entre os anos comparados, há uma ligeira tendência de aumento das temperaturas mínimas ao longo destes cinco anos. Salienta-se que esta comparação foi feita com base em dados médios anuais que, de certa forma, uniformizam as variabilidades diária, mensal ou sazonal. Estas, se analisadas separadamente, certamente, apresentam particularidades que destacam as diferenças entre os anos.

O volume de chuvas acumulado ao longo do ano de 2015 também superou o padrão normal em cerca de 235 mm (Figura 4). Este excesso de chuvas trouxe consequências negativas aos parreirais da Serra Gaúcha, especialmente entre setembro e outubro (Figura 5), quando as chuvas constantes e a consequente elevação da umidade relativa do ar tornaram o ambiente propício à incidência de doenças fúngicas nos vinhedos da região. Além disso, esse é o período de floração da maioria das espécies frutíferas na região sul do país, impactando diretamente no processo de polinização e reduzindo, como consequência, o número de frutos ou cachos por planta ou o número de bagas por cacho.

Figura 3 - Temperaturas médias anuais (ºC) - Bento Gonçalves

Figura 3

Figura 4 - Precipitação anual (mm) - Bento Gonçalves

Figura 4

Em outras regiões vitivinícolas do estado do RS, foram observadas condições semelhantes às de Bento Gonçalves (Figura 6) no que diz respeito aos desvios das variáveis temperatura média e precipitação anuais em relação às Normais Climatológicas. A temperatura média esteve dentro das normais apenas em Santana do Livramento. Contudo, a precipitação total anual superou em muito as normais em todas as regiões estudadas.

Figura 5 - Precipitação mensal - Bento Gonçalves

Figura 5

Figura 6 - Temperatura média (ºC) x Precipitação (mm)

Figura 6

Condições climáticas e a safra vitícola 2015/16

De acordo com os dados apresentados, nota-se que a safra vitícola 2015/16 vem se desenvolvendo sob condições climáticas notadamente fora das normais.

Desde o inverno, quando o número de horas de frio foi inferior às condições normais e às demandas da maioria das cultivares. Nestas condições térmicas, a superação da dormência de gemas foi deficitária e, como consequência, a brotação foi desuniforme e inferior. A irregularidade quanto ao estágio de brotação das gemas nestas condições térmicas, principalmente no agosto quente, também prejudicou o tratamento químico para uniformizar a brotação, pois as gemas mais adiantadas queimaram com o tratamento quando este foi aplicado.

As brotações que foram antecipadas com as altas temperaturas de agosto também enfrentaram uma dificuldade em vinhedos localizados em regiões/locais de menor altitude. Nos dias 11 e 12 de setembro o estado recebeu uma forte frente fria (Figura 7), proporcionando geadas, principalmente nos locais mais baixos no relevo, o que impactou diretamente na queima e supressão da produção destas primeiras brotações.

Figura 7 - Temperaturas mínimas absolutas (ºC) - Setembro de 2015

Figura 7

As áreas que escaparam dos danos de geada também enfrentam danos pelo excesso de chuva e altas temperaturas na primavera, que favoreceram a incidência de doenças fúngicas, tais como o míldio, e mereceram mais atenção dos produtores para tentar garantir alguma produção. Outro ponto importante e que merece destaque são as chuvas no período de floração, as quais restringem a polinização e, consequentemente, o número de bagas por cacho. Ainda, algumas áreas, também sofreram danos por granizo, reduzindo e danificando a produção. Portanto, as condições meteorológicas deste ciclo até o momento impactaram significativamente para uma menor capacidade produtiva dos vinhedos na região sul do Brasil, trazendo grandes preocupações e prejuízos para a maioria dos produtores.

Pelo prognóstico climático para este verão, de acordo com o Boletim Climático para os meses de janeiro, fevereiro e março, para o Estado do Rio Grande do Sul (8º DISME/INMET e CPPMet/UFPEL), frente à permanência do evento El Niño provocando chuvas acima da média, teremos um verão com mais nebulosidade e temperaturas não tão elevadas como as registradas normalmente nessa estação do ano.

Este prognostico indica, para os meses de janeiro e fevereiro, valores acumulados de precipitações acima do padrão climatológico em todo Estado, com exceção da parte norte e nordeste no mês de fevereiro. Para o mês de março as precipitações ficarão dentro do padrão climatológico em grande parte do Estado, exceto no Sul, que ficará pouco acima do padrão. Portanto, além das supressões quantitativas de uva que ocorreram até o momento nos vinhedos, salienta-se que as condições previstas para ocorrer neste período de maturação das uvas, também não serão adequadas para uma melhor qualidade da safra.

1 Normais Climatológicas são definidas como "valores médios das variáveis meteorológicas calculados para um período relativamente longo e uniforme, compreendendo no mínimo três décadas consecutivas". (Organização Meteorológica Mundial (OMM)).

2 Os dados meteorológicos utilizados nesta análise foram nas estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia – Inmet, localizadas nos municípios de Vacaria (Lat. 28°33'S; Lon. 50°42'O; Alt. 955 m), Bento Gonçalves (Lat. 29°09' S; Lon. 51°31' O; Alt. 640 m) e Encruzilhada do Sul (Lat. 30°32'S; Lon. 52°31'O; Alt. 428 m). E os dados de Santana do Livramento foram observados na estação meteorológica instalada em área experimental da Embrapa Uva e Vinho (Lat. 30°44'S; Lon. 55°23'O; Alt. 180 m).

 

Embrapa Uva e Vinho

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