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Pesquisa atesta eficiência da aplicação aérea de inseticidas biológicos e químicos em canaviais

Foto: Roberto Teixeira Alves

Roberto Teixeira Alves - Avião agrícola realizando aplicação de micoinseticida em lavoura de cana-de-açúcar

Avião agrícola realizando aplicação de micoinseticida em lavoura de cana-de-açúcar

Estudos realizados pela Embrapa em uma usina canavieira conseguiram determinar a eficiência da deposição, via aérea, de inseticidas biológicos e químicos para o controle da cigarrinha-da-raiz da cana-de-açúcar, uma das principais pragas que acometem a cultura. Os resultados indicam as quantidades ideais a serem carregadas no avião agrícola para que os produtos alcancem o alvo – no caso, a base das plantas, local de ataque da praga – de forma adequada, garantindo a eficiência da aplicação e permitindo maiores produtividades.

Realizados nas safras 2013/14 e 2015/16, os trabalhos foram coordenados pelo pesquisador Roberto Teixeira Alves, da Embrapa Cerrados (DF) e integram o projeto de pesquisa “Desenvolvimento da aplicação aérea de agrotóxicos como estratégia de controle de pragas agrícolas de interesse nacional”. O projeto é liderado pelo pesquisador Paulo Cruvinel, da Embrapa Instrumentação (São Carlos, SP), e surgiu da demanda do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) à Embrapa por uma pesquisa científica sobre a aplicação aérea de produtos para o controle de ervas daninhas, doenças de plantas, insetos-praga, entre outros.

A partir de testes em uma área de 54,53 hectares da Usina Santo Ângelo, em Conceição das Alagoas (MG), na safra 2013/14, Alves e os pesquisadores Rafael Soares (Embrapa Soja) e Paulo Cruvinel, além do analista Juaci Malaquias (Embrapa Cerrados), desenvolveram uma nova metodologia para avaliar a deposição de micoinseticida (inseticida à base de fungo) granulado aplicado via aérea para o controle das cigarrinhas que atacam a cana-de-açúcar. “A formulação granulada de micoinseticida ainda é muito utilizada no Brasil, e não existia uma metodologia para avaliar a quantidade de produto que chegava ao alvo (deposição), pois a cigarrinha fica na base da planta da cana. O produtor simplesmente aplicava o produto há anos sem saber o quanto alcançava o alvo”, lembra o pesquisador.

Ele explica que, com a mecanização da colheita da cana crua, os problemas com ataques de cigarrinhas aumentaram significativamente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. “Os ovos da cigarrinha ficam na palhada da cana, e boa parte morria quando ela era queimada, resultando em menos cigarrinhas. Hoje, a realidade é outra”, diz. Segundo o supervisor de controle biológico da usina, Stefano Guidi, a cigarrinha é uma praga muito agressiva na região. “Pode causar perdas de até 30% a 40% se não houver um controle organizado, estratégico e preciso”, explica. A usina aplica inseticidas nos canaviais tanto por via aérea como terrestre, com pulverizadores e cortadores de soqueira.

Sob a forma de ninfa, a cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbiolata, M. liturata e M. spectabilis são as espécies atualmente conhecidas) ataca a base da cana-de-açúcar, sugando a seiva da planta e liberando uma espuma, resultante da digestão feita pelo inseto. Já a forma adulta suga as folhas e injeta toxinas que coagulam os vasos da planta, comprometendo a circulação da seiva e levando ao ressecamento da cana e de outras culturas atacadas pelo inseto, como as pastagens.

Para controlar as cigarrinhas-da-raiz da cana, o inseticida biológico mais utilizado no Brasil e no mundo é o fungo Metarhizium anisopliae, que pode ser aplicado sob diferentes formulações.

Micoinseticida

Foram testadas as aplicações do micoinseticida em duas formulações: granulada, aplicada por avião equipado com o aplicador de grânulos do tipo Swatchmaster; e líquida, em que o fungo formulado em óleo emulsionável é misturado com água, sendo aplicado por avião com barra pulverizadora e bicos hidráulicos. Em cada um dos cinco tratamentos – testemunha (sem aplicação do fungo), formulação granulada (8kg/ha e 10 kg/ha) e formulação líquida (20L/ha e 30 L/ha) – foram colocadas placas de Petri nas parcelas experimentais cujas plantas tinham altura média de 80 cm. Para os tratamentos com o micoinseticida líquido, as placas continham papel sensitivo à água para coletar as gotículas dos produtos. No total, foram utilizadas 960 placas nas 20 parcelas do experimento.

Após a aplicação do produto por avião, as placas foram levadas ao laboratório de Entomologia da Embrapa Cerrados para a contagem dos esporos do fungo aplicado sob a forma granulada e das gotículas do micoinseticida líquido que caíram sobre as placas com o papel sensitivo à água. 

No caso da aplicação do fungo granulado, as quantidades de esporos efetivamente aplicadas por hectare foram calculadas a partir dos números médios de esporos encontrados nas 240 placas para o tratamento com 8kg/ha e em outras 240 placas para o tratamento com 10kg/ha. De acordo com o fabricante do micoinseticida granulado, o número de esporos viáveis na quantidade de 8kg/ha do produto é de, no mínimo, 1,4 x 1013, enquanto para 10 kg/ha é de pelo menos 1,8 x 1013.

Na aplicação de 10 kg/ha, o número médio de esporos por hectare encontrado foi de 2,15 x 1013, enquanto no tratamento com 8 kg/ha foi de 2,77 x 1012. O valor médio encontrado no primeiro tratamento foi, portanto, 7,76 vezes maior que o do segundo, além de ser ligeiramente superior à quantidade mínima especificada pelo fabricante (1,8 x 1013). Já no segundo tratamento, o número de esporos apurado nas contagens foi cinco vezes menor que a quantidade estimada liberada pelo avião (1,4 x 1013). “Havia muita gente jogando 8 kg/ha, inclusive o fabricante recomendava (a dose) por ser mais barato. Só que o produto não chegava ao alvo, e com 10 kg/ha ele chega 100%”, aponta Alves.

De acordo com esses resultados, o processo desenvolvido para a coleta, a leitura e a quantificação do número de esporos por hectare aplicados por via aérea é uma ferramenta que permite aferir a eficiência da deposição de fungo granulado. “Essas informações já estão sendo usadas na prática, são úteis para todas as empresas de aviação agrícola e para todas as usinas de cana-de-açúcar do Brasil”, diz o pesquisador.

Já nos tratamentos com a formulação líquida, o número de gotículas que caem no papel sensitivo à água foi calculado por centímetro quadrado.“Para dizermos que a aplicação foi eficiente, há uma definição internacional (parâmetros de Aplicação de Gotas Controladas) de que tem que haver de 20 a 30 gotas/cm². Se der menos, a aplicação não prestou. Se der mais, foi ótima, mas talvez o produto tenha sido desperdiçado”, analisa Alves.

No tratamento com aplicação do produto em 30 L/ha, a média foi de em 26,705 gotas/cm², desempenho considerado ótimo; enquanto no tratamento com 20 L/ha a média ficou em 12,680 gotas/cm², número inferior ao desejável e 2,1 vezes menor que o do outro tratamento. “Isso significa que quem aplicar o produto líquido em 20 L/ha está jogando dinheiro fora, pois ele não está chegando ao alvo na quantidade que tem que chegar. Foi definido que 30 L/ha é bom, realmente chega ao alvo na quantidade ideal. Com 50 L/ha, por exemplo, seria melhor ainda, mas vai render pouco, pois o tanque de 600 litros do avião vai fazer menos hectares (de aplicação). Para ser economicamente viável, temos que analisar tudo”, explica.

A contagem do número de ninfas por metro linear nos cinco tratamentos não apontou diferenças estatisticamente significativas entre a testemunha (12,11 ninfas/metro linear) e os tratamentos com o fungo em óleo emulsionável e água (30 L/ha e 20 L/ha) e com o fungo granulado a 8 kg/ha, respectivamente 11,11, 10,16 e 9,28 ninfas/metro linear. Somente no tratamento com o fungo granulado a 10 kg/ha foi encontrada uma população significativamente menor (6,39 ninfas/metro linear). Os pesquisadores supõem que uma das razões para a pouca diferença entre os tratamentos foi o excesso de palhiço no canavial, que atuou como barreira física, impedindo a expressão do máximo de eficiência dos produtos aplicados.

Para verificar o impacto das aplicações na produtividade da lavoura, foram calculados os valores de açúcar total recuperável (ATR), toneladas de cana por hectare (TCH) e de toneladas de açúcar por hectare (TAH) dos diferentes tratamentos do experimento. Além de obter os valores mais altos de ATR e TCH, o tratamento com o fungo em óleo emulsionado e água na quantidade 30L/ha também obteve o valor de TAH mais alto – 24,52 ton/ha de açúcar, quatro toneladas/ha superior ao da testemunha (20,38 ton/ha) e quase três toneladas/ha a mais que a formulação granulada a 10 kg/ha (21,66 ton/ha), resultado que comprova a viabilidade econômica da aplicação aérea do micoinseticida para o controle da cigarrinha-da-raiz da cana.

Todas as informações sobre o experimento estão reunidas no Boletim de Pesquisa 332.

Inseticidas líquidos

Na safra 2015/16, os pesquisadores realizaram novo experimento para determinar a deposição e a eficiência de inseticidas químicos e biológicos em formulações líquidas e aplicados via aérea para controlar a cigarrinha-da-raiz da cana-de-açúcar. Foram utilizados cinco tratamentos, sendo dois com produtos químicos comerciais, dois com produtos biológicos à base do fungo Metarhizium anisopliae (um em pó molhável e outro em óleo emulsionável) e a testemunha sem aplicação de fungo ou inseticida químico.

Cada tratamento teve três aplicações, sendo o volume de aplicação sempre de 30 L/ha, que havia se mostrado mais eficiente no experimento da safra 2013/14. Todas as aplicações foram feitas com o mesmo tipo de avião agrícola equipado com barra pulverizadora e bicos hidráulicos do experimento anterior, em condições climáticas favoráveis e sobre a mesma variedade de cana, plantada na mesma época e apresentavam altura média de 80 cm.

Assim como no experimento anterior, foram colocadas placas de Petri com papel sensitivo à água para aferição do número de gotas por centímetro quadrado dos produtos. Nos quatro tratamentos com aplicação de inseticidas, o número de gotas/cm² ficou próximo ou dentro do intervalo mínimo aceitável de 20 a 30 gotas/cm² (média geral de 23,52 gotas/cm²), comprovando a eficiência da aplicação aérea de inseticidas químicos e de micoinseticidas formulados em óleo emulsionável ou em pó molhável. 

Foi observado que os produtos nas formulações de suspensão concentrada (no caso do experimento, um dos inseticidas químicos) e de concentrado emulsionável (um dos inseticidas biológicos), como já esperado, apresentaram, no momento da aplicação, melhor qualidade de dispersão em comparação a produtos em formulações de pó molhável (o outro inseticida biológico) ou de grânulos dispersíveis em água (o outro inseticida químico), proporcionando melhor deposição de gotas no alvo.

O experimento comprovou, ainda, a eficiência dos tratamentos sobre a população de ninfas da cigarrinha-da-raiz da cana-de-açúcar e a produtividade da cana, colhida ao final da safra, em novembro de 2016. Foram analisados os números médios de ninfas por metro linear nos diferentes tratamentos. Como esperado, a testemunha do experimento obteve a maior média de ninfas (29,31/metro linear). Os dois inseticidas químicos obtiveram as menores populações médias de ninfas/metro linear (15,06 e 14,2), seguidos pelos produtos biológicos (23,10e 25,85ninfas/metro linear). A média dos quatro tratamentos foi, portanto, de 21,5 ninfas/metro linear.

Segundo Alves, supõe-se, como no experimento anterior, que a barreira física formada pelo excesso de palhiço no canavial dificultou um maior alcance dos produtos aplicados sobre as ninfas, levando à diminuição do potencial de eficiência dos inseticidas utilizados. “Este é um dado importante para se ter uma ideia da população de ninfas no canavial. Porém, o mais importante é continuar avaliando outros parâmetros como a produtividade de cana e de açúcar nos tratamentos”, afirma.

Dessa forma, foram analisados os parâmetros toneladas de cana por hectare (TCH) e toneladas de açúcar por hectare (TAH) nos cinco tratamentos. Os maiores valores de TCH e TAH foram encontrados nos tratamentos com os dois inseticidas químicos utilizados – ambos obtiveram quatro toneladas de açúcar a mais que a testemunha – 18,3 ton/ha e 18,25 ton/ha contra 14,31 ton/ha. “Isso já comprova que é economicamente viável aplicar algum produto para o controle da cigarrinha-da-raiz da cana, e que isso pode ser feito via aérea”, aponta o pesquisador.

Já os tratamentos com produtos biológicos obtiveram 15,9 ton/ha e 12,64 ton/ha de açúcar, sendo estatisticamente iguais à testemunha e aos produtos químicos. Stefano Guidi afirma que a usina continuará utilizando micoinseticidas para o controle da cigarrinha. “Acreditamos que o uso de microrganismos de alguma forma ou manejo diferente da forma já usada possa agregar um bom controle e produtividade, além do grande benefício ambiental”.

Também nessa análise, os pesquisadores supõem que a barreira física imposta pelo palhiço do canavial dificultou a expressão do máximo potencial dos produtos aplicados. Para sanar a questão, Embrapa já aprovou uma nova proposta de pesquisa que vai verificar a influência da presença e do afastamento do palhiço da base da planta de cana com o uso de um enleirador. 

“Os ovos da cigarrinha ficam na palhada e no solo. Com esse afastamento, espera-se diminuir a infestação de ninfas na base da cana, criar um microclima menos favorável ao desenvolvimento delas e, principalmente, abrir o caminho para que os produtos aplicados atinjam melhor o alvo, que são essas ninfas”, projeta Alves. “Estamos com esperança e confiança de ótimos resultados, já que podemos alcançar soluções inovadoras ou até desconhecidas para o controle da praga e aumento da produtividade”, aposta Guidi.

Breno Lobato (MTb 9417-MG)
Embrapa Cerrados

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