Histórico

Como presidente da Codevasf, criou o conceito do distrito de irrigação, pelo qual os projetos públicos passaram a ser administrados pelos irrigantes. Concebeu e implantou o programa de exportação de frutas. Negociou empréstimos com o Banco Mundial, BID e Governo Japonês que permitiram uma expansão de mais de cem mil hectares de área irrigada.

Ajudou conceber e executar o programa de 1 milhão de hectares irrigados do Presidente Sarney. Este programa foi inspirado num trabalho feito por técnicos da Embrapa, do qual foi o primeiro autor. Iniciou o processo de mudança da lei de irrigação, ainda em curso hoje.

Na FGV ajudou formular e implementar uma pesquisa por amostragem que serviu para definir melhor as contas do setor agrícola. De 1990 em diante, totalmente dedicado à pesquisa em política agrícola e em ciência e tecnologia. Nesta condição, tem dado assessoria a governos, na condição de consultor do BID, Banco Mundial e FAO. Destacam-se Venezuela, Paraguai e Equador. Tem atendido a convites de universidades, cooperativas, organizações de produtores e científicas para fazer palestras sobre a dinâmica da agricultura brasileira, tema objeto de suas pesquisas.

A História do Eliseu

 

Aos quase 90 anos, o doutor Eliseu, como é conhecido por todos na Embrapa, comparece diariamente à Empresa e cumpre uma rotina que vai das 8h às 17h, desde 1990, como assessor da Presidência. É pontual e metódico. Permanece a maior parte desse tempo em seu escritório, entregue aos seus estudos de economia e desenvolvimento rural, o que interrompe para acolher a todos que buscam um dedo de prosa ou uma orientação sobre os rumos da pesquisa agrícola e da agricultura.

De quando em quando, viaja a diferentes cidades do País para atender aos convites de lideranças agrícolas e acadêmicas e proferir palestras sobre seus estudos. Mas o normal é que saia de sua sala, por breves momentos, para atender às convocações do presidente e dos diretores da Embrapa, ir ao lavabo ou deliciar-se com um pão de queijo e uma Coca-Cola na lanchonete próxima.

Quem o vê arrastando passos lentos pelos longos corredores da sede da Embrapa, já há tanto tempo, não concebe mais esse cenário sem a quietude de sua figura. Não imagina tampouco quão agitada ainda tem sido sua vida nem para onde esses mesmos passos o têm levado.

 

Sopros no molde de barro

 

Eliseu Roberto de Andrade Alves nasceu em 27 de dezembro de 1930 na casa de seus pais, o comerciante português Accacio Salgado Alves e a brasileira Delfina Andrade, na Rua Melo Viana, em São João Del Rey, MG. Veio ao mundo com a ajuda de uma parteira, em parto domiciliar, que era a tecnologia na qual se acreditava à época.

Logo, enfrentaria os desafios e riscos da evolução tecnológica: o pediatra decidiu que seria melhor se fosse alimentado com leite em pó, que era um método moderno. Não se sabe ao certo se por um processo alérgico ou algum outro motivo, começou a definhar. Sem que se chegasse a um diagnóstico preciso, foi desenganado pelos médicos de então.

Aos sete meses de idade, à beira da morte, foi batizado às pressas, para não morrer pagão. A avó materna Flausina, presente ao batizado, teve uma opinião “médica” diferente: para ela o menino estava morrendo de fome, de inanição. E, já que sua morte era tida como certa, decidiu levá-lo para sua Fazenda do Angola, em Itutinga, MG, e alimentá-lo à maneira da roça.

Meses depois, já recuperado e saudável, os pais foram buscá-lo. Enfrentaram a resistência do avô Leopoldo Andrade, que já se afeiçoara ao menino. Reza a narrativa familiar que ele teria dito: “Ele estava morrendo e nós o salvamos. Não devolvo”. E assim se passou. Eliseu foi criado pelos avós e pelos tios e tias. Dois deles, o tio Hélio e o tio Antônio, seriam particularmente decisivos em sua vida.

Já mais idosos, os avós deixaram a fazenda e se mudaram para a vizinha Itumirim, onde lhe garantiram o acesso ao grupo escolar, como então se chamava o ensino fundamental. Para fazer o “ginasial” (hoje, segunda fase do fundamental) e o “científico” (ensino médio), foi enviado a Lavras e matriculado no Internato do Instituto Gammon, uma iniciativa da Missão Presbiteriana Americana no Brasil, que seria instalada em Campinas, SP, mas que, por conta de um surto de febre amarela, foi transferida para o sul de Minas.

No Gammon, pelas mãos dos professores Armando Righetto e Bernard Bartherf, ele descobriu o gosto pelo rigor e pela elegância das formulações matemáticas. Admiração que se fortaleceu, na juventude, nas conversas com um irmão mais velho, Leopoldo como o avô, a quem Eliseu considerava ser uma pessoa diferente dos demais porque decidira ser um matemático.

Tudo isso foi possível porque a avó Flausina e os tios se cotizaram para pagar as mensalidades do ginasial. As mensalidades do primeiro ano do curso “científico”, ele mesmo custeou, vendendo umas vacas que, a cada ano,  ganhara como presente do avô Leopoldo. A partir do segundo ano e por toda a universidade, a maior parte de suas despesas seria custeada por um empréstimo, a juros de mercado, que lhe fez o tio Hélio, o qual foi pago com os primeiros salários que recebeu como técnico da Associação de Crédito e Assistência Rural de Minas Gerais (Acar-MG).

O restante das despesas foi coberto por recursos amealhados de trabalhos realizados nas férias escolares, nas fazendas dos tios e, mais tarde, dos salários recebidos como professor do cursinho pré-vestibular mantido pela Universidade de Viçosa, emprego que conquistou por ter obtido nota máxima na prova de matemática do vestibular.

Do tio Antônio recebeu uma avaliação profissional que selou o seu destino: “Eliseu, você não gosta de ganhar dinheiro. Não seja fazendeiro. É melhor que faça uma faculdade e arrume um bom emprego”. Assim fez.

 

O sopro de Deus

 

Esses eventos, mantidos vivos pela narrativa familiar, estabeleceram marcos que balizaram toda a vida de Eliseu. Deles resultou uma visão pragmática da vida, tolerante com as imperfeições da condição humana, e o dever de se comprometer, de se preocupar com o seu entorno, de se doar, de decidir, e de honrar os compromissos.

Dentre todos os eventos, um foi mais indelével que os outros, pois foi mais íntimo. Aos 8 anos, sem motivo aparente, sentiu-se tomado por uma alegria infinita, um êxtase tão profundo que o assustou. Buscou socorro em uma tia. Ela sugeriu que ele fizesse uma prece, e isso lhe trouxe uma grande paz. Nesse momento, teve a certeza de que Deus era real e que tocava sua alma. A partir desse dia, a fé cristã se tornou o leme de sua vida.

Desde então, ele sabe que “o único jeito de se aproximar de Deus é falando com Ele”. Sem intermediários. Ele acredita que a razão de ser de todas as religiões é proporcionar às pessoas a oportunidade desse contato íntimo com Deus. Dessa forma, tudo em sua vida há que ser uma conversa com Deus. Ele reconhece que muito da inspiração que tem recebido, bem como da determinação para materializar essa inspiração em ação, extravasa o limite do seu treinamento e do seu saber.

A lida com a ciência não é a exceção a essa regra. Fazer ciência para Eliseu é apenas mais uma maneira de exercitar sua fé. Ele nunca viu na ciência qualquer possibilidade de negação da fé, pois entende que investigar os fenômenos físicos e sociais nada mais é que conhecer e revelar os mistérios do fazer de Deus.

Assim, encara as formulações científicas com a mesma reverência com que se debruça sobre os textos dos apóstolos; estuda os Evangelhos e suas revelações com o mesmo rigor e detalhe com que confere as interpretações científicas da realidade. Nas soluções matemáticas, busca a mesma elegância e beleza que percebe nos textos de São João, embora desconfie que não tenham sido escritos pelo apóstolo, mas por seus seguidores.

O rigor que aplica às generalizações econômicas se inspira no rigor que encontra nas exposições e debates das cartas e epístolas de São Paulo. O comportamento tenaz e combativo do apóstolo o delicia, porque, como diz, aprendeu, com os avós, tios e pais, a ser honesto, destemido, corajoso, sensato e a lutar por aquilo que julgar correto, sem temer derrotas. Por isso, nos debates, bate duro como São Paulo.

Mas, não lhe falta compaixão. Após o embate está sempre pronto a se conciliar com os críticos, esquecer eventuais descortesias, a aceitar as limitações humanas, suas e dos demais. Ainda que não lhe seja frequente citar São Francisco, mostra um zelo franciscano quando lida com a pobreza rural.

 

O lavrar da Fé

 

A atenção à pobreza rural começou desde cedo, observando as vulnerabilidades dos produtores e trabalhadores rurais tanto no regime de colônia (salário + produção à meia), que imperava nas fazendas da região, quanto nas leis trabalhistas criadas para a indústria e comércio e adaptadas para a realidade rural a partir de 1964. Na colônia, a proteção social dependia da consciência do patrão; no império da CLT, a sustentabilidade da fazenda e do trabalhador rural dependia de uma justiça sempre distante.

O interesse continuou na Acar, onde ingressou em 1955, acompanhando, no Departamento de Planejamento e Avaliação, os contratos de crédito rural e de assistência técnica. Ao longo de 17 anos, acompanhou de perto as agruras do produtor e do trabalhador rural, suas dificuldades para inovar, gerar renda e salários, e o insucesso da hipótese de que apenas faltava maior comunicação para que os produtores conhecessem e usassem um possível estoque de conhecimentos guardados nas gavetas das instituições de pesquisa.

Em seu trabalho de doutorado, em 1968, na Universidade de Purdue, Indiana, EUA, tentou compreender que variáveis influíam na formação do salário dos trabalhadores rurais. De volta ao Brasil, ajudou a provar que o imaginado “estoque de conhecimentos” para a condição tropical não existia e precisava ser criado. Assim, participou do grupo encarregado pelo governo de reformular o sistema federal de pesquisa agrícola, que criou a Embrapa.

Em abril de 1973, assumiu uma das diretorias da Embrapa para ajudar a implementar duas ideias inovadoras que diferenciaram e marcaram o destino da Empresa: criar capacidade de geração de conhecimentos e concentrar o foco da pesquisa em problemas bem definidos.

Para concretizar esses propósitos, a Embrapa criou Unidades de Pesquisa especializadas em produtos, em biomas e em temas, tais como recursos genéticos e sementes básicas, e mandou mais de 4 mil técnicos, seus e de outras instituições de pesquisa pública, para programas de pós-graduação nas melhores universidades no Brasil e no exterior. Eliseu tomou para si a tarefa de supervisionar a operacionalização desse programa de pós-graduação.

Os anos como diretor-executivo mostraram a Eliseu que o projeto de modernização da agricultura exigia, além de foco e de pesquisadores bem treinados, uma terceira ideia: suporte e pressão da sociedade. Era preciso convencer os agricultores e a sociedade urbana e habilitá-los para a compreensão de que ciência e suas soluções tecnológicas eram as ferramentas mais eficientes para resolver os conflitos sociais, econômicos e ambientais decorrentes do próprio desenvolvimento agrícola.

Quando Eliseu assumiu a Presidência da Embrapa, em 1979, a Empresa já tinha um programa de produção de publicações técnicas para intercâmbio entre cientistas e difusão de conhecimentos para produtores. Pensava ser suficiente. Foi o jornalista José Silvestre Gorgulho quem o convenceu de que era preciso, além disso, seduzir os jornalistas, políticos, empresários e todas as famílias para que participassem da discussão da pesquisa agrícola, de sorte que a sociedade urbana compreendesse o quanto a ciência e a modernização agrícola eram importantes para a vida de todos.

Gorgulho o ajudou a traçar as linhas definitivas de um ambicioso programa de comunicação social, baseado em cobertura jornalística por jornais, rádios e TV, grandes e pequenos, e participação em exposições e feiras agropecuárias. Abriu os centros de pesquisa para visitas de jornalistas, estudantes, embaixadores e políticos, e fez com que exposições de fotos, textos, plantas, animais, produtos e equipamentos contassem a todos os brasileiros a revolução que acontecia nos laboratórios e nas fazendas.

Nas reuniões anuais de gestores da Embrapa, criou o espaço de debate entre editores e líderes da pesquisa não só para troca de conhecimentos, mas, sobretudo, para resolver dificuldades operacionais, de lado a lado, de maneira que cada tentativa de reportagem fosse um caso de sucesso. Combinando eventos científicos e visitas a centros de pesquisa, o programa possibilitou que jornalistas conhecessem e revelassem às cidades a realidade agrícola e tecnológica de todos os recantos do País.

Ciência, tecnologias e ganhos de produtividades tornaram-se assuntos corriqueiros nas conversas do País. No plano interno da Empresa, fiel à ideia de que era preciso lapidar competências, ele abriu aos profissionais de comunicação o acesso aos programas de pós-graduação, até então restritos aos pesquisadores.

Suas iniciativas nutriram e foram nutridas por iniciativas externas, como a criação de programas de TV e publicações, como o Globo Rural, e a criação e consolidação das editorias de ciência e de agropecuária no jornalismo brasileiro.

Na gestão da pesquisa, insistia que todos os produtos fossem testados, com a mais requintada ciência, em todos os biomas. Criou postos avançados para pesquisa de trigo no Planalto Central e de soja em Balsas, no Sul do Maranhão. Preocupava-se com os grandes obstáculos colocados pela natureza para os pequenos produtores na região Norte e no Semiárido.

Ao deixar a direção da Embrapa, assumir a presidência da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco foi uma etapa natural em sua trajetória. Lá, apostou na emancipação da gestão dos perímetros irrigados, transferindo-a do governo para as associações de produtores, como forma de aumentar a eficiência na produção. Deu certo.

 

A pesquisa como sacerdócio

 

Na Acar e ao longo dos 16 anos em que participou da alta direção da Embrapa e da Codevasf, Eliseu “esteve” como gestor, mas foi sempre pesquisador. Apesar das atribuladas agendas de chefe de departamento, diretor e presidente, continuou a produzir seus estudos, sempre interessado em compreender os gargalos que constrangiam a produção.

Seus temas recorrentes sempre foram a agricultura de subsistência, a pobreza rural, a sustentabilidade agrícola, a irrigação, a pecuária de leite, a migração rural-urbana, a extensão rural, a política agrícola e o desenvolvimento institucional das organizações de pesquisa. Sua pregação se estendeu por eventos científicos em países tão diferentes, como EUA, França, Alemanha, Itália, Japão, México, Costa Rica, Quênia e Venezuela.

Alguns desses trabalhos foram seminais. Inovaram e deram origem a políticas públicas e a novas transformações. Como aquele em que propôs a estrutura de centros de pesquisa da Embrapa – centros de produtos, ecorregionais, temáticos e aqueles dedicados aos problemas de âmbito estadual –, que permanece até hoje, ou o que definiu as linhas básicas do programa de formação de recursos humanos para a Empresa.

Um de seus trabalhos, intitulado O crescimento da demanda e oferta e produtos agrícolas nos próximos dez anos, de 1986, no qual mostrou as diferenças entre as expectativas de crescimento da demanda e da oferta de alimentos, particularmente frutas e hortaliças, motivou o governo Sarney a se comprometer a irrigar um milhão de hectares no Semiárido e no Norte de Minas Gerais.

Quando o governo Lula estava pressionado por forças políticas para estabelecer metas de produtividade física mínima de lavouras e criações, tais como quilos de feijão por hectare ou litros de leite por vaca, como critério para desapropriar terras para a reforma agrária, um artigo de 1984, Dilema da política agrícola brasileira: produtividade ou expansão da área agricultável, mostrou que esse critério era falho e iria penalizar, com a desapropriação, os pequenos produtores. O governo abandonou a ideia.

Em 2010, ao esmiuçar os dados do Censo Agrícola de 2006, no artigo Ganhar tempo é possível?, mostrou que, por acesso desigual à tecnologia, pouco mais de 11% dos produtores rurais (cerca de 500 mil propriedades) respondiam por 87% do valor bruto da safra, enquanto a maioria dos produtores patinava na falta de produção e de renda, quadro brutal de concentração da produção agrícola, semelhante ao que já ocorreu nos Estados Unidos e na Europa.

Desde então, em artigos e debates, indaga às sucessivas administrações que políticas públicas colocarão em prática para minorar a inexorável marcha da seleção natural, operada pelo mercado, que ameaça reduzir a diversidade empresarial rural a meros 100 mil proprietários. Por enquanto, não há resposta visível para esse dilema.

 

 

O poder do conhecimento

 

Eliseu nasceu em uma família com sólidos vínculos com a velha União Democrata Nacional (UDN) mineira; portanto, assistiu a muitos embates contra o velho Partido Social Democrata (PSD). Na juventude, conviveu com Magalhães Pinto e José Aparecido de Oliveira. Tancredo Neves, apesar de conterrâneo, era adversário. No entanto, não foi a política que o levou ao convívio com o poder e lhe granjeou o respeito dos poderosos. Foi o conhecimento.

Recém egresso dos Estados Unidos, após conclusão do seu doutorado em economia agrícola, Eliseu trabalhava na Fundação Getúlio Vargas com Geraldo Langoni. Foi, então, convidado por Affonso Celso Pastore para integrar uma banca de defesa de tese de doutorado, na Universidade de São Paulo (USP), de dois economistas: Guilherme Dias e José Roberto Mendonça de Barros. Pastore, Langoni, Dias e Mendonça de Barros se tornariam referências na história das políticas públicas do desenvolvimento econômico brasileiro.

Pastore convidou Eliseu para ser professor no Instituto de Pesquisas Econômicas da USP, onde ele ajudou a desenvolver o curso de economia agrícola. Tempos depois, indicado por Geisel para ser ministro da agricultura, Delfim Netto convidou Eliseu para uma conversa no Hotel Eron, em Brasília, e, nesse encontro, decidiu que ele faria parte de sua equipe. Mais tarde, o convidou para ser presidente da Embrapa. Eliseu não tem certeza, mas imagina que o convite de Delfim Netto atendeu a uma indicação de Affonso Pastore.

A partir do convívio e da amizade com Delfim, foi uma trajetória natural encontrar, no mundo do poder, ouvidos atentos e parcerias produtivas para suas visões sobre a agricultura e seu desenvolvimento, suas propostas para a pobreza rural, enfim, seus sonhos para o Brasil.

A longa lista inclui presidentes como Ernesto Geisel, João Figueiredo e José Sarney; ministros como Alisson Paolinelli, Pratini de Morais e Roberto Rodrigues; lideranças mundiais como Robet MacNamara e o prêmio Nobel Norman Borlaug; lideranças políticas como Tancredo Neves, Petrônio Portela, Jarbas Passarinho, Virgílio Távora, Leonel Brizola, Humberto Souto, Oswaldo e Nilo Coelho; lideranças agrícolas como Antônio Ernesto de Salvo e Kátia Abreu; e empresários como Norberto Odebrecht, Olacyr Moraes e Gabriel de Andrade.

Sua devoção ao conhecimento lhe trouxe reconhecimento e condecorações de governos, de universidades, do setor produtivo e da própria Embrapa (veja a relação nesse site). Em 1985, recebeu o título de Doctor Honoris Causa, conferido pela Universidade de Purdue, onde fizera o doutorado. Em maio de 2017, a Universidade de Viçosa lhe conferiu o mesmo título.  

Em 1987, a associação das universidades públicas americanas, que reúne 238 instituições, 5,7 milhões de estudantes (graduação e pós-graduação), 1,2 milhão de empregados e investe cerca de 40 bilhões de dólares em pesquisas, reconheceu-o como um dos mais destacados estudantes estrangeiros que já passaram por suas salas de aula. Até então, apenas cinco outros brasileiros haviam merecido tal honraria, entre eles o sociólogo José Pastore, seu amigo.

Em momentos como esse, Eliseu se permite mostrar uma ponta de envaidecimento e um sorriso de satisfação íntima, como se pensasse: “Nada mal para quem estava condenado à morte”. Ao agradecer tais honrarias, aproveita o púlpito para compartilhar a descoberta mais recente, propor o debate mais instigante. Os temas são sempre a fé, a ciência e a agricultura brasileira.

Tão logo o cerimonial permita, desce do púlpito e se volta para sua agenda de estudos, os problemas da agricultura, os dilemas e mistérios da fé. Segue paciente na sua faina diária de convencer os governantes de que é preciso intervir para transformar a agricultura e a pobreza rural, e os cientistas de que não há ciência sem a interferência de Deus.

Aos 86 anos, seus passos já não acompanham mais a agilidade de seu raciocínio. Mas a determinação é a de quem sabe a missão que Deus lhe deu ao permitir que se desviasse da morte e vivesse por tanto tempo: perseverar no conhecimento da fé e da ciência. Com o rigor do apóstolo São Paulo. Com a elegância do evangelista São João. Com o zelo protetor de São Francisco.

É com esse doce fardo que ele ainda caminha, diariamente, pelos corredores da Embrapa.

Texto: Renato Cruz Silva - jornalista.