OLHARES PARA 2030

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Alysson Paolinelli

Alysson Paolinelli

Mercados agrícolas e a Inovação. Ponto de Partida: Regulação de Padrões, Certificações e Rastreabilidade

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 12 - Responsible consumption and production

O mundo tem passado por profundas transformações e a chamada globalização nada mais é do que o efeito dessas mudanças que se pronuncia em vários segmentos da sociedade e de países. Essas mudanças estão sendo promovidas, fundamentalmente, pela evolução da ciência, da tecnologia, da inovação e especialmente do conhecimento daqueles povos que, de forma inteligente, estão sabendo planejar estrategicamente o uso dos seus recursos naturais ou outros viáveis, transformando-os em riquezas palpáveis em benefício da sociedade. 

Países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento que foram capazes de reconhecer no instrumento educação um formador de bases de competência vêm possibilitando, de forma proeminente, consistente evolução na formação de riquezas. Resultados desses processos aparecem nos índices de desenvolvimento de forma evidente, mais evoluídos até mesmo do que em outras sociedades já desenvolvidas.

Muitas dessas nações são populosas, e a evolução na renda familiar provoca altas demandas de alimentos especialmente no que tange às chamadas proteínas nobres. Com o aumento de renda, a demanda por alimentos mais sofisticados é o fenômeno que mais rápido se apresenta. Haja vista o caso da China, da Índia e de alguns países africanos e da própria América do Sul.

As oportunidades decorrentes da mudança de hábito alimentar são evidentes e operam sob a pressão de outro fator, além da renda: a natural tendência de alterações mais profundas num sistema de vida daquelas populações. Como ocorreu no Japão, no século passado, onde a evolução da economia provocou profundas modificações, transformações, e a ocidentalização foi o principal atestado dessa dinâmica.

No século atual, estamos verificando a mesma tendência de ocidentalização no modo de vida na Ásia, na África e em outras áreas. São novos conceitos no estilo de vida que geram demandas não só no hábito alimentar, mas também na educação, no transporte, no vestuário, nos hábitos de saúde e na visão renovada do uso e manejo dos recursos econômicos. 

A consequência dessas mudanças provoca de imediato a necessidade de novas fontes de abastecimento e novos produtos que passam a ser demandados mais intensamente.

O consumidor final tende a ser mais exigente não só no preço, mas também na qualidade final dos produtos que passa a usar. Essa atitude vai naturalmente provocar a necessidade de mudança também nos sistemas produtivos que queiram garantir para si os novos mercados. A qualidade, a classificação, a padronização e até mesmo a rastreabilidade serão uma exigência sine qua non  para os países fornecedores.

Com isso, verifica-se a tendência de redução nos mercados de commodities e a procura por produtos elaborados com certificação de origem e possibilidade de rastreabilidade. O mercado de produtos de alta qualidade é muito mais sofisticado e exige naturalmente um esforço de marketing muito maior. Daí a necessidade de evolução nos instrumentos de suporte desse mercado. O planejamento estratégico na infraestrutura logística que possibilite melhores condições dos serviços de pós-colheita como: classificação e padronização, limpeza, armazenamento, transporte — ferroviário, rodoviário ou fluvial — e facilidades portuárias, que permitam levar no tempo mais rápido e em melhores condições os produtos elaborados desde a produção até o consumidor final. A projeção do crescimento da população até a década 1950 deste século está a nos indicar que deveremos chegar nestes trinta e poucos anos a uma população muito próxima de dez bilhões de habitantes, e, se considerarmos a capacidade evolutiva, principalmente dos países populosos, vamos nos deparar com dados quase alarmantes para o pleno abastecimento dessa enorme população com os recursos naturais limitados que possuímos.

Há de se lembrar que a população mundial nesses quatro mil anos concentrou  suas demandas especialmente nos países temperados do globo. Esta é a razão pela qual Malthus e seus seguidores estatisticamente comprovavam a falta de alimentos ainda no século passado.

É lógico que avaliavam a possibilidade do crescimento da oferta de alimentos exclusivamente dessas regiões temperadas que se esgotavam paulatinamente a cada década sem muitas perspectivas de descobertas de novas áreas, razão pela qual a planície central da América do Norte, toda ela situada na região temperada foi o último reduto sobre o qual os estatistas malthusianos calculavam as perspectivas do abastecimento mundial. 

Na década de 1960 do século passado, um desequilíbrio climático provocou grandes perdas no hemisfério norte a ponto de levar pela primeira vez o governo americano a decretar o embargo não político na venda de seus alimentos mesmo a tradicionais compradores. Foi o estopim da crise. Se o governo americano, que sempre se colocou como líder no abastecimento mundial, estava tendo de realizar embargos até mesmo fora do campo político, aí estava a indicação de que os seguidores de Malthus tinham razão. 

Nós mesmos, no Brasil, sofremos o impacto desse desastre na segurança alimentar. Éramos importadores de cerca de 1/3 do que consumíamos. Aquele quadro provocou praticamente a duplicação dos preços dos produtos agrícolas e o desarranjo em países demandadores como o Brasil foi avassalador. Chegamos a consumir de 42% a 48% de toda a renda familiar só no item alimentação. Quem tem esse perfil de gasto em sua renda é evidente que não dispõe de recursos para vestuário, educação, moradia, transporte, lazer ou qualquer outra atividade que demonstrasse melhores condições de vida. 

Foi assim que esse desafio ficou claro no caminho de governos e lideranças brasileiras. Ou seríamos capazes de criar sistemas de utilização e uso racional de nossos biomas tropicais ou estaríamos fora do mapa, varridos pela incompetência e incapacidade de uso dos recursos naturais que possuímos em nossos biomas tropicais. 

O Brasil se tornava um novo e potente consumidor mundial e logicamente passou a se preocupar com os problemas de segurança alimentar. Os custos da manutenção de uma indústria obsoleta e as consequências da crise mundial de petróleo (OPEP) consumiam todo o nosso saldo na balança comercial, vindo principalmente do café. Pensar em criar um novo modelo industrial ou descobrir petróleo com a tecnologia então existente era um sonho irrealizável. A única alternativa que tínhamos seria a busca de ciência, tecnologia e inovação que possibilitassem o primeiro uso dos biomas tropicais na produção de alimentos para uma população consumidora e crescente. Fato até então não conhecido. A par deste esforço que ao todo foi vitorioso, teve o país de procurar melhorar a sua infraestrutura de mercado. Centros formadores únicos de preços nas grandes capitais e o desenvolvimento de centrais de abastecimento que atendessem não só a alimentos tradicionais, mas também os hortifrutigranjeiros e um sistema de informação de mercado integrado em todas as praças amenizava o efeito especulativo causador de tremendas altas no preço de muitos de nossos principais produtos alimentares.  A formação de estoques reguladores, inclusive em produtos perecíveis, sem dúvida ajudou a reduzir o preço final dos alimentos. 

As políticas geradoras de conhecimento e de inovações foram articuladas em programas bem concebidos e levados ao produtor final por um sistema integrado de assistência técnica e extensão rural que obteve o maior êxito nos efeitos da geração de novas tecnologias destinadas aos produtores. Esses esforços, apoiados pelos instrumentos de política agrícola — o crédito, o preço mínimo, os recursos do custeio e da comercialização e os investimentos bem programados — garantiram ao país a profunda mudança tão esperada. 

De importadores de alimentos, em menos de uma década, já estávamos sendo olhados como grandes abastecedores do planeta. E, o que é melhor, o desenvolvimento de sistemas de manejo dos nossos recursos naturais não só possibilitou a recuperação de áreas reconhecidamente degradadas nas mais produtivas e competitivas que o mundo conhece. O consumidor brasileiro, acostumado a adquirir produtos caros, em menos de vinte anos trocou  sua posição e passou a consumir alimentos mais baratos, reduzindo  gastos neste item de 42% a 48% para um mínimo de 14% a 18%. 

Aí pôde a família brasileira experimentar os benefícios de uma renda mais adequada em que se possibilitava a vestimenta, a moradia, o transporte, o plano de saúde, a educação e o lazer como antes nunca tinham vivenciado. Hoje, esse modelo se repetirá em outros povos, especialmente naqueles de clima tropical que passarão de demandadores a produtores e até mesmo exportadores de alimentos. 

O mundo terá a tendência de urbanização sem precedentes e com isso muitos povos não poderão contar com seus efetivos recursos naturais para o alto abastecimento em alimentação. Vão ser dependentes de outras áreas, como o Brasil, com vastos recursos naturais — não que sejam infindáveis. Pela evolução tecnológica que estamos realizando, sabemos de antemão que somos os detentores das maiores e mais confiáveis plataformas de recursos naturais, que bem manejadas poderão dar a garantia da segurança alimentar e até mesmo nutricional mesmo após o equilíbrio esperado da população mundial em 2050. 

Todas essas premissas se ancoram no resultado e capacidade de, por meio da ciência e da tecnologia, continuarmos a criar inovações capazes de atender de um lado a gigantesca demanda alimentar no mundo e de outro o uso de recursos naturais destinados à geração de energia renovável também em forte e crescente demanda. 

Mais uma vez, deve sobressair-se o esforço para conquista do uso racional da água, do solo, das plantas, dos animais e do clima que, bem manejados, irão propiciar com total segurança e sustentabilidade as demandas que sobre eles vierem a cair. Esta é a tarefa primordial de qualquer sociedade que se preze e pretenda poder usufruir dos recursos gerados pelas suas inteligências no manejo, no uso aquedado dos seus recursos tropicais. É evidente que o surgimento de uma nova agricultura tropical deverá exigir um maior esforço na conquista de inovações que representem novos conceitos e novos parâmetros, provavelmente surpreendentes para o conhecimento da quadrimilenar agricultura temperada. Se forem inteligentes, essas sociedades detentoras de maiores recursos em seus biomas tropicais terão de tomar a decisão estratégica de investimentos maciços que possam atingir o grau de evolução esperado nesta tarefa. Fundamental e lógica será a decisão de investimentos para o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da inovação, que possibilitem a manutenção da capacidade competitiva desses novos núcleos e a garantia da segurança alimentar no mundo carente de alimentos projetado para 2050. As evoluções que estamos conquistando até agora, no desenvolvimento genético, na agricultura de precisão,  fatalmente levarão à chamada  agricultura da informática e da automação. Ela será sem dúvida, muito mais eficiente e competitiva. Aliando-se ainda os conceitos da tropicalidade, em que os sistemas integrados de manejo, de plantio e de combate biológico de pragas e doenças, bem como diferentes produções em uma mesma área, no mesmo ano, vão significar, juntamente com a recuperação biológica da fertilidade dos solos, evoluções imbatíveis. É verdade que temos muito ainda o que fazer, mas, para isso, deverá haver precedência das estratégias de definição do que é mais importante. Para um país como o Brasil, que chegou onde está, o retrocesso seria fatal. Nossas instituições científicas são capazes e estão preparadas para cumprir fielmente a sua missão. Fomos bem-sucedidos no passado. Mais uma vez o seremos. Basta testar.

Alysson Paolinelli

Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho)

Mineiro de Bambuí, nascido em 1936, tornou-se agrônomo em 1959 pela Escola Superior de Agronomia de Lavras (Esal), que depois tornou-se Universidade Federal. 

Em 1971, assumiu a Secretaria de Agricultura de Minas, a convite do governador Rondon Pacheco e criou  incentivos e inovações tecnológicas que tornaram Minas o maior produtor de café do Brasil. 

Em 1974, aceitou convite do presidente Ernesto Geisel para tornar-se ministro da Agricultura, e tratou de modernizar a Embrapa e promover a ocupação econômica do cerrado brasileiro. 

Implantou um ousado programa de bolsas de estudos para estudantes brasileiros nos maiores centros de pesquisa em agricultura do mundo. Cuidou também da reestruturação do crédito agrícola e do reequacionamento da ocupação do bioma amazônico. 

Após deixar o Ministério, ainda exerceu cargos de destaque na vida pública brasileira;  Presidente do Banco do Estado de Minas Gerais,  Deputado Constituinte, Presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura).

Voltou a ser secretário de Agricultura no governo Hélio Garcia e permaneceu no cargo até 1978. 

Em 2006 foi agraciado com o World Food Prize,  premio que equivale ao Nobel da Alimentação. 

Hoje exerce o cargo de Presidente Executivo da ABRAMILHO (Associação Brasileira dos Produtores de Milho).