OLHARES PARA 2030

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Alvaro Salles

Alvaro Salles

A agricultura brasileira diante de novos desafios

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 12 - Responsible consumption and production SDG 17 - Partnerships for the goals

Nos últimos anos, habituamo-nos a ver números surpreendentes quando se trata do crescimento da agricultura brasileira, especialmente no Cerrado. Desde o início da década de 1970, tivemos o privilégio de assistir a uma grande mudança em Mato Grosso e outros estados que despontaram como novas potências agrícolas. Onde havia apenas árvores retorcidas foram surgindo áreas extensas cultivadas e pujantes cidades; onde só havia bovinos pastando “na larga” e animais silvestres, e não se viam pessoas residindo nem trabalhando, nasceram comunidades prósperas e organizadas, contrariando a crença de que a agricultura mecanizada expulsa a população do campo.

A agricultura ocupou boa parte do Cerrado brasileiro, cresceu, modernizou-se e transformou a realidade de muitas pessoas. Vários agricultores pioneiros, em sua maioria procedentes das regiões Sul e Sudeste, conseguiram prosperar em seus empreendimentos, enquanto outros foram mudando de atividade, mas o fato é que a maior parte deles conseguiu melhorar a sua vida e a de suas famílias.

Neste cenário, novas gerações estão gradativamente assumindo os negócios familiares e serão responsáveis por superar desafios muito diferentes dos que seus pais encontraram.   Novos problemas técnicos foram surgindo e, embora parte deles tenha sido solucionada parcial ou totalmente, alguns persistem, agravados na maioria das vezes pelos sistemas de cultivos praticados, e terão que ser equacionados de modo a não se inviabilizar a atividade agrícola aos poucos.

Aliado a isso, os produtores enfrentam o constante aumento de custo, que, apesar do crescente incremento de produtividade, tem andado sempre nos calcanhares da produção. Isso provoca uma permanente pressão nos agricultores e acaba levando muitos deles a se verem diante da difícil decisão de vender ou arrendar suas propriedades a grandes empresas do agronegócio.

As commodities predominantes em nossa agricultura foram e continuarão sendo muito importantes para o Brasil e sua população. Os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) que têm sido feitos por empresas públicas e privadas são elevados e, mesmo que não sejam suficientes, ainda assim estão conseguindo manter índices satisfatórios de produtividade. Tecnologias inovadoras são colocadas a cada momento à disposição do produtor, a exemplo da Agricultura 4.0, baseada na Conectividade Digital, e da Internet das Coisas, que prometem verdadeira revolução na automação e controle dos processos das propriedades rurais.

Tudo isso poderá elevar os ganhos em eficiência de nossa agricultura, porém o Brasil precisa preparar a comunidade rural para poder utilizar com eficiência essas tecnologias. As ciências agrárias, em todos os níveis, precisam ter seus currículos reformulados. A maioria das tecnologias embarcadas nas novas máquinas e implementos, assim como outras tecnologias disponíveis, fica muito à frente da capacitação técnica disponibilizada atualmente, necessária para sua plena utilização. Nesse contexto, o investimento em capacitação de alto nível se torna imperioso, sob pena das novas tecnologias acabarem sendo apenas sinônimo de aumento de custos sem a contrapartida do incremento das receitas.

Sabemos que, apesar de notícias esporádicas de altas produtividades alcançadas, as produtividades médias estão estagnadas há algum tempo e, mesmo com a chegada dessas novas tecnologias, faz-se necessário repensar e disseminar novas técnicas de manejo a serem empregadas, para que a agricultura continue sustentável em todos os seus aspectos. Porém, se todas as energias se concentrarem em apenas resolver os eventuais problemas das culturas predominantes, por certo enfrentaremos grandes crises, talvez em maior escala do que ocorreu em épocas passadas. E temos que considerar a diferença de que, em função do tamanho dos problemas e da própria agricultura do passado em relação à atual, naquele momento algumas dificuldades econômicas referentes ao equacionamento de dívidas rurais conseguiram ser parcialmente solucionadas, o que dificilmente voltaria a acontecer nos dias de hoje.

É necessário repensar a agricultura nacional, assim como redirecionar os esforços da pesquisa pública e privada para resolver os novos desafios, que devem ser enfrentados em conjunto, visando otimizar o uso dos recursos humanos e financeiros disponíveis. Isso nos conduz à necessidade de aprendermos por fim a trabalhar em conjunto: os dirigentes das empresas precisam aprender a valorizar as parcerias público/privadas (PPPs), pois somente dessa forma conseguiremos que as equipes de cada empresa sejam colaborativas com os parceiros e assim poderemos fazer frente aos desafios impostos.

A atuação das pesquisas deve ter também como objetivo ampliar o horizonte de sustentabilidade das empresas rurais, especialmente das pequenas e médias empresas, sejam elas familiares ou não, através da busca de alternativas às culturas predominantes na paisagem do Cerrado. O foco dessas mudanças deverá estar voltado para os produtos que a população moderna irá consumir.  É certo que, em todos os países desenvolvidos, os hábitos de consumo estão mudando rapidamente e a nossa agricultura precisa estar preparada para essas mudanças. Nesse sentido, precisamos prospectar e adaptar novos cultivos de produtos exóticos — e por que não de nossa biodiversidade — que tenham a possibilidade de se tornar consumíveis, com alto valor agregado, e assim criar um ambiente amigável ao desenvolvimento das empresas rurais.

O uso responsável dos recursos naturais deverá cada vez mais estar na agenda de todos, bem como a adoção de práticas agrícolas sustentáveis, apoiadas por máquinas e equipamentos eficientes, e a utilização de tecnologias inovadoras. Isso deverá ser um dos grandes diferenciais das propriedades modernas. Nesse cenário futuro, por exemplo, não sobreviverá a irrigação por irrigação, a utilização eficiente da água deve ser a prioridade, mediante o uso adequado de sensores, que determinarão a quantidade correta e necessária a cada cultura. Logicamente culturas eficientes na utilização de água e fertilizantes deverão receber uma atenção especial da pesquisa, assim como sistemas de irrigação que sejam mais eficazes.

A utilização de bioinseticidas à base de bactérias, fungos e vírus certamente será grande aliada da produção nacional. A efetiva prospecção e caracterização desses microrganismos deverá fornecer novas moléculas que, somadas a técnicas biotecnológicas, inter-relações sinérgicas ou características endófitas, deverão fazer parte dessa nova agricultura, por meio de uma maior eficiência das plantas diante de estresses bióticos e abióticos, assim como na produção de alimentos funcionais.

O desenvolvimento de novas moléculas de agroquímicos certamente terá seu espaço, porém cada vez mais a busca por elas deverá ser direcionada ao menor impacto sobre organismos não alvos, acompanhada do uso consciente de sua utilização.

Além disso, a eficiência energética de tratores, colheitadeiras e veículos utilizados nas propriedades, bem como o desenvolvimento de implementos agrícolas que promovam pouco revolvimento do solo e, consequentemente, exijam menor esforço de tração, terão que ser priorizados, pois sabemos que a energia será cada vez mais um insumo de alto custo.

E, afinal, como será a agricultura do futuro?  A agricultura feita por poucos, instalados dentro de um escritório, com tratores autônomos, em um mundo digitalizado? Poucos acreditam que nossa geração verá isso, mas não por falta de tecnologia disponível. Aliás, talvez no caso de algumas tarefas que ofereçam riscos às pessoas, mais rapidamente do que imaginamos deverão ser utilizados equipamentos autônomos, visando à segurança na manipulação de substâncias perigosas à saúde.

No entanto, fica a dúvida: como substituir o olho humano na avaliação de doenças em estágios iniciais, ou na identificação do inseto minúsculo que fica alojado em partes inferiores de plantas? Enfim, a necessidade de contar com os agentes bem treinados dificilmente deixará de existir, porém as tecnologias deverão ser importantes ferramentas para o auxílio de suas atividades, tornando o profissional mais produtivo e lhe assegurando mais tempo disponível para se dedicar à família e a outras atividades.

Espera-se que a agricultura continue como grande indutora de progresso do Brasil, mas nosso empenho, enquanto produtores, gestores e pesquisadores, é que ela também traga prosperidade às propriedades rurais, assim como alimentos de qualidade para toda a população.  A atuação das empresas de P&D deve estar voltada para desenvolver tecnologias modernas e sustentáveis, e assim serão reconhecidas também pela comunidade urbana como parte fundamental do desenvolvimento do país.

Alvaro Salles

Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt). Foto: Márcio Trevisan

Alvaro Lorenço O. Salles é natural de Francisco Beltrão (PR) e se mudou para Mato Grosso em 1972 com sua família, que é pioneira em cultivo da soja no Cerrado mato-grossense. Engenheiro-agrônomo, Salles é atualmente diretor executivo do Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt) e membro da Comissão de Assuntos Técnicos e Biotecnologia da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).  (entre outros cargos já exercidos, foi presidente da Associação de Engenheiros Agrônomos da Grande Rondonópolis (Aeagro), da Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat), da Comissão Estadual de Sementes e Mudas – Mato Grosso (CESM – MT),  e do Fundo de Apoio à Cultura do Algodão (Facual); diretor fundador da Abrapa e diretor tesoureiro da Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão (Ampa).