OLHARES PARA 2030

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Carmen Perez

Carmen Perez

A Mulher como Promotora de Sustentabilidade da Atividade Agropecuária

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 5 - Gender equality SDG 12 - Responsible consumption and production SDG 15 - Life on land

A participação das mulheres no agronegócio se torna cada dia mais clara e presente. Segundo levantamento feito pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócios (ABMRA), a presença da mulher em decisões no agronegócio apresentou um salto nos últimos quatro anos, triplicando sua importância na gestão da atividade rural de 10% para 31%. Essa constatação da pesquisa comprova a percepção de que o setor está se modernizando a cada dia.


É inquestionável que as mídias sociais aceleraram esse processo, permitindo que as mulheres se comuniquem de forma rápida e organizada.


Há oito anos nasceu informalmente o Núcleo Feminino do Agronegócio da necessidade de que mulheres que atuavam nesta atividade trocassem informações, discutissem dificuldades e minimizassem a carência de uma fonte aberta de aprendizado, sem censura.


O principal objetivo do grupo é se transformar em uma plataforma que tenha voz forte, que possa ser ouvida pelo poder público e ser levada em consideração na elaboração de planos e metas do setor no futuro.


Trabalhando como pecuarista há 16 anos, à frente da Fazenda Orvalho das Flores, em Barra do Garças (MT), assumi a presidência do Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA) no início de 2017. A experiência como gestora e líder mostra que a mulher tem um olhar mais empático e focado no todo, se preocupando mais com o equilíbrio, o que contribui enormemente com a sustentabilidade.


 Há mais de 10 anos, o foco do nosso trabalho é o bem-estar animal na pecuária. Em parceria com o grupo Etco, liderado pelo professor Mateus Paranhos da Unesp de Jaboticabal, implantamos mudanças nas boas práticas com os bovinos, que refletem não só nos animais, mas em todos os que estão ao redor.


O bem-estar animal é um elemento central nas ações que virão promover a produção sustentável, e não apenas um mero coadjuvante. Se ele não é pensado, o entorno é todo prejudicado.


Graças a uma pressão crescente da sociedade, cada vez mais preocupada e exigente com o modo como os animais são criados, uma nova percepção sobre o tema está sendo formada. A cada dia as pessoas estão mais atentas ao que consomem, querem saber a origem dos alimentos, quem os produziu e de que maneira eles foram produzidos. A nova geração tem outros valores e com certeza a atividade pecuária será cobrada por isso  cada dia mais.


A ideia principal da adoção de boas práticas  que levem em conta o bem-estar dos bovinos é estabelecer uma melhor relação humano-animal e eliminar (ou reduzir) as ações de manejo que resultem em sofrimento aos animais, tornando o manejo menos aversivo. A adoção das boas práticas é um caminho gradual e sem volta.


Esse trabalho inicia-se no momento em que nasce o bezerro e deve estar presente em todos os manejos até o abate. As boas práticas devem ser consideradas também fora da porteira, no transporte não adaptado, no precário e violento manejo de leilões, e por fim nos frigoríficos. Será uma transformação cultural, e os resultados trarão benefícios econômicos e gerenciais.


Projetos como fazendas comprometidas com o bem-estar animal, do grupo Etco em parceria com a Orvalho das Flores, e outras fazendas com a mesma filosofia, têm como objetivo principal compartilhar e desenvolver valores internos de respeito e comprometimento que impactam diretamente na melhoria de resultados e índices dentro das fazendas.


Por exemplo, uma das formas mais tradicionais de identificação de bovinos é a marcação a fogo feita com ferro quente. Essa prática, questionável do ponto de vista do bem-estar animal, é objeto de preocupação por parte da sociedade e de produtores mais progressistas, que estão atentos e comprometidos com a adoção de boas práticas de manejo racional. É comprovado por pesquisas que a prática da marca a fogo é dolorosa ao animal. Um estudo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontou evidências concretas de estresse em vacas e bezerros após a marcação a fogo, além de forte sensação de dor. Outro estudo, do Departamento de Agricultura do Canadá,  informa que o local da marca a fogo fica quente por até 168 horas, indicando inflamação local e dano à pele. Estudo mais recente da pesquisadora americana Cassandra Tucker identificou que a dor produzida pela marca a fogo pode durar até oito semanas, quando também ocorre a cicatrização da queimadura. Além disso, a marca a fogo deixa os bovinos mais reativos nos manejos subsequentes, já que eles se lembram da experiência negativa vivida durante o manejo no curral e das pessoas que realizaram os procedimentos que causaram dor e sofrimento.


Atualmente é possível substituir a marcação a fogo por brincos de identificação e brincos eletrônicos, que, além de reduzir o sofrimento do animal, oferece ao produtor uma importante ferramenta de gestão.


Uma das práticas já implementada com ótimos resultados é massagear o bezerro logo nas primeiras horas de vida, para que ele se familiarize com o homem, o que gera uma convivência muito mais pacífica, com mais segurança e tranquilidade entre homem-animal.  


Outra medida que visa o bem-estar é a desmama feita lado a lado, gradualmente, permitindo que a mãe e o bezerro mantenham contato visual pós-desmama, ao invés de serem separados abruptamente.


Com a adoção dessas medidas simples e efetivas, é possível trazer muitos benefícios, com retorno financeiro. Um ambiente de trabalho e um manejo tranquilo impactam diretamente na qualidade de vida dos funcionários e na qualidade do produto.


Animais calmos ganham mais peso, o que já foi provado em muitos estudos, enquanto animais estressados não só perdem peso como terão uma carne mais dura após o abate, devido ao alto índice de cortisol liberado pelo estresse.


Com a adoção das boas práticas há um aumento no índice de fertilidade das vacas, já que com o cortisol alto (devido ao estresse) elas têm mais dificuldades para emprenhar. Há também uma redução significativa na mortalidade dos bezerros.

Quando comecei a pensar em diversificação no meu negócio, seguindo por esse caminho de manter um olhar multifocal na comunidade, nos animais e no meio ambiente, a escolha pela heveicultura (plantio de seringueiras) surgiu como um complemento que se integraria perfeitamente com minha filosofia de vida e de trabalho, e a busca pela sustentabilidade.


A emissão de gases poluentes é um dos principais fatores que intensificam o efeito estufa, responsável por mudar o clima e acelerar o aquecimento global. O assunto é visto há muito tempo como um problema sério. Projetos para minimizar a emissão dos gases prejudiciais estão sendo criados em todo o mundo. As florestas de seringueira são apontadas como um dos caminhos para a redução de emissão de gases do efeito estufa. Segundo estimativas, cada árvore de seringueira tem capacidade de neutralizar 0,558 toneladas de C02 eq. (gás carbono equivalente) em um período de 20 anos.


A cultura da seringueira tem um importante papel econômico e social. Do ponto de vista ambiental melhora a fauna, a flora e o clima, fator de tanta preocupação. A cultura é lenta e artesanal. Com o ciclo de vida mais longo de uma árvore permite maior envolvimento com o meio ambiente e o estabelecimento de uma relação de respeito com a natureza. O plantar e colher, o ato de esperar (são sete anos até que a seringueira comece a produzir). Um dos objetivos do plantio de seringueiras é empregar as mulheres do campo que estão sem ocupação, empoderando-as para que criem sua independência financeira. Em geral, as mulheres são mais meticulosas e mais cuidadosas com a sangria. Além disso, a jornada de trabalho da exploração do látex permite que elas conciliem o trabalho com as tarefas domésticas sem se sobrecarregarem. É um privilégio poder proporcionar isso.

Muitas são as mulheres que driblam desafios para atuarem como líderes no agronegócio, um setor tradicionalmente masculino.  Estamos ocupando nosso espaço, exercendo nosso papel e começando a ser vistas como legítimas representantes da nova geração do agronegócio. É um grande desafio mudar a imagem distorcida que a sociedade tem do agronegócio, especialmente dos pecuaristas, vistos como os grandes vilões do meio ambiente. Juntas, estamos construindo uma nova história, com coragem e competência, trazendo inovações e um olhar mais sensível ao setor e apresentando um agro moderno, produtivo, sustentável, que gera oportunidades.

 

Carmen Perez

Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA)

A pecuarista Carmen Perez se encantou pela vida rural muito cedo, na infância, observando a lida do avô, com as propriedades da família, tradicional no setor sucroalcooleiro no interior paulista. Aos 22 anos, trocou São Paulo pela fazenda Orvalho das Flores, no Mato Grosso. Chegou em dia de chuva e foi acompanhar o manejo na maternidade. Encontrou animais e colaboradores convivendo em ambiente de extrema hostilidade: vacas agressivas, bezerros assustados e vaqueiros mal preparados. Decidiu mudar essa cultura, e assim o fez.

Uniu-se a parceiros importantes, como o professor Mateus Paranhos, na Unesp de Jaboticabal, e implantou o manejo racional em sua propriedade, tornando-se referência nacional em bem-estar animal. Todos os bezerros que nascem em sua propriedade – cerca de 1,5 mil por safra – são massageados, os vaqueiros foram treinados e, 16 anos depois, a qualidade do rebanho, 100% comercial, mudou.

Desde 2011, ela diversificou o seu negócio e investiu em um projeto de seringueiras, que é economicamente viável e proporciona ganhos ambientais na Orvalho das Flores.

Carmen busca constantemente por novidades, pesquisas, novas técnicas e oportunidades que melhorem a produtividade e a qualidade de seu rebanho ao mesmo tempo em que proporcionam ambiente de trabalho diferenciado para a sua equipe.

Hoje Carmen é presidente do NFA( núcleo feminino do Agronegócio)