OLHARES PARA 2030

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Alan Bojanic

Alan Bojanic

A segurança alimentar, a produção agrícola e o desenvolvimento sustentável

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 1 - No poverty SDG 2 - Zero hunger

Após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, o mundo experimentou mudanças significativas em diversos setores, principalmente nas áreas econômica, política e social. A produção agrícola também acompanhou essas alterações. O campo nessa época viveu momentos revolucionários, tais como a chegada das máquinas agrícolas, as plantas modificadas geneticamente, as espécies desenvolvidas com o objetivo de alcançar alta produtividade e os defensivos agrícolas.

Estávamos diante da chamada Revolução Verde, tendo seu auge na década de 60 e teve como  princípio aumentar o rendimento das colheitas e suprimentos alimentares. Os resultados dessa Revolução representaram um importante passo no uso de novas tecnologias na agricultura. Diversos agricultores conseguiram multiplicar suas produções, o que refletiu também nos consumidores, já que o preço dos alimentos apresentou quedas relevantes.

Várias lições foram aprendidas com esse novo olhar sobre a agricultura do século XX. Mas a Revolução Verde apresentou vantagens e desvantagens, assim como acontece quando há avanços tecnológicos que mudam percepções e modelos padronizados. Ao mesmo tempo em que permitiu aumentar a produção das  propriedades, muitos agricultores, principalmente os pequenos e de produção familiar, ficaram aquém das inovações e à margem da insegurança alimentar. Além disso, podemos dizer que a Revolução Verde girava em torno de uma produção meramente econômica, sem considerar aspectos sociais e ambientais.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) acompanhou de perto esse processo e colocou seus técnicos para avaliar e reformular as transformações geradas pela Revolução Verde de modo a torná-la mais equitativa e sustentável.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) acompanhou de perto esse processo e colocou seus técnicos para avaliar e reformular as transformações geradas pela Revolução Verde de modo a torná-la mais equitativa e sustentável.

Como se pode perceber, não é de hoje que a FAO busca maneiras de tornar a produção de alimentos em modelos agrícolas que se baseiem em processos que preservem os recursos naturais. Nos dias atuais, se faz cada vez mais necessário o alinhamento entre agricultura, produção de alimentos e segurança alimentar.

Mas, antes de aprofundar esse ponto da garantia da segurança alimentar, principalmente diante de um quadro de crescimento da população mundial e da demanda por alimentos, vamos olhar para a agricultura atual.
Talvez possamos estar diante de uma nova e muito mais completa Revolução Verde, já que as novidades avançadas em tecnologia estão ainda mais inseridas porteira adentro.

Vivemos a era da informação e da conectividade, e a agricultura tem se beneficiado desse universo. Além de modernizar a atividade agrícola, as novas tecnologias também podem contribuir para melhorar a gestão da agricultura e também torná-la mais sustentável de forma a amenizar os efeitos sobre os recursos hídricos e naturais. 

Um exemplo interessante são as aplicações de Big Data na produção agrícola. Esse modelo se refere à análise de grandes volumes de dados, que, quando devidamente recolhidos e interpretados, podem apoiar decisões referentes ao planejamento dos cultivos, sistema de irrigação inteligente, alertas meteorológicos, imagens via satélite combinados com informações de mercado, somados ao enorme potencial que oferecem as imagens geradas em tempo real e de alta definição capturadas por drones não pilotados, que permitem avançar de maneira vertiginosa no sentido de uma nova agricultura.

Com o Big Data, também é possível gerir adequadamente os recursos hídricos. Dependendo da textura do solo, determinadas áreas conseguem armazenar mais água do que outras, necessitando assim de menos irrigação.

Outro modelo que tem sido acompanhado pela FAO é a chamada agricultura de precisão, que busca trazer mais eficácia ao campo, diminuindo as perdas por meio de um trabalho mais eficiente. Para isso, existem várias iniciativas, como, por exemplo, o controle das máquinas com a ajuda do GPS. Se em alguns casos isso apenas ajuda o operador a levar a máquina pelo caminho certo, em outros ele pode fazer o veículo se mover completamente sozinho, inclusive executando manobras mais complicadas.

São inúmeros os exemplos do que é possível fazer no campo ao mergulhar no universo tecnológico. Não menos importante, e também não posso deixar de mencionar, a biotecnologia que desenvolve variedades mais bem adaptadas às variações climáticas, e a nanotecnologia, com aplicações mais precisas e moderadas de fertilizantes e pesticidas.

Também existem os sensores óticos ligados a computadores com inteligência artificial e acesso à internet que são capazes de trabalhar praticamente sozinhos, deixando o produtor livre para lidar com outras questões da gestão agrícola. O controle de irrigação e a aplicação de insumos e nutrientes em períodos previamente configurados são apenas alguns exemplos do grande auxílio que o uso de sensores é capaz de proporcionar.

Mas a tecnologia sozinha não é capaz de mudar padrões e paradigmas por si só. Para além das grandes novidades é necessário garantir um novo modelo de pensamento agrícola visando um bem maior: a sustentabilidade humana.

Segurança alimentar no contexto da agricultura sustentável

Importante dizer que a segurança alimentar só é plena e efetiva quando todas as pessoas têm acesso físico, social e econômico permanente a alimentos seguros, nutritivos e em quantidade suficiente para satisfazer as necessidades nutricionais e assim poder levar uma vida ativa e saudável.
O número de pessoas vivendo em insegurança alimentar registrou alta em 2017 após anos apresentando redução. Os últimos dados da FAO apontam que 815 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar atualmente, 20 milhões a mais que em 2016.

A fome mundial voltou a crescer por consequência dos conflitos armados, das mudanças climáticas e da deterioração da economia de alguns países. Dos 815 milhões de pessoas que passam fome no mundo, 489 milhões vivem em países afetados por conflitos.

Projeções apontam que em 2050 a população será de 9.8 bilhões, 29% a mais do número atual. O crescimento maior será nos países em desenvolvimento e 70% da população será urbana.  Os níveis de renda serão maiores do que os atuais.

Para alimentar essa população maior e urbana, a produção de alimentos deverá aumentar em 70%. A produção de cereais terá que aumentar para três bilhões toneladas/ano em relação aos 2.5 bilhões produzidos atualmente. A produção de carne precisará aumentar em mais de 200 milhões de toneladas.

A vontade política e a governança participativa devem ser estimuladas para atingir o objetivo da fome zero e para a promoção de alimentos e sistema agrícolas sustentáveis, que assegurem dietas saudáveis, equilibradas e diversas para todos.

Não deixar ninguém para trás

Em 2015, o mundo deu um novo passo rumo a um futuro com mais igualdade. Após o término das metas dos Objetivos do Milênio, os países que integram as Nações Unidas aprovaram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis.

São 17 objetivos e 169 metas a serem atingidos até 2030. Na chamada Agenda 2030, o grande objetivo é não deixar ninguém para trás, ou seja, todos devem estar engajados e serem responsáveis pelas mudanças, além de se manter um olhar diferenciado para aqueles que demandam mais atenção.

Cabe destacar que, na Agenda 2030, estão previstas ações mundiais nas áreas de erradicação da pobreza, segurança alimentar, agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, padrões sustentáveis de produção e de consumo, mudança do clima, cidades sustentáveis, proteção e uso sustentável dos oceanos e dos ecossistemas terrestres, crescimento econômico inclusivo, infraestrutura, industrialização, entre outros.

De uma forma mais geral, posso dizer que a alimentação e a agricultura estão no centro da Agenda 2030 como elo fundamental para alcançar todos os objetivos. A falta de uma alimentação adequada afeta o desenvolvimento apropriado de crianças e adultos. A prática de uma agricultura não focada na preservação dos recursos naturais e com capacidade de mitigar e se adaptar às mudanças climáticas coloca em risco a produção futura de alimentos para atender a demanda mundial, que, como vimos, exigirá cada vez mais.

A FAO reconhece que a Agenda 2030 exige a necessidade de uma gestão responsável e a conservação dos recursos naturais e da biodiversidade. Para que o futuro da humanidade possa ser viável, vamos precisar alterar os sistemas alimentares e a agricultura, adotar novos padrões de consumo e produções diversificadas, melhorar a governança e contar com vontade política para garantir a implementação de medidas eficazes em direção a uma sociedade mais sustentável.

Caso não haja investimento em agricultura sustentável e sistemas alimentares inclusivos, o cumprimento dos ODS pode ficar ameaçado. Diante disso, o que a FAO tem feito? A Organização tem colocado à disposição dos países toda a capacidade técnica disponível, apoiado projetos que incluem as três dimensões do desenvolvimento sustentável – social, econômica e ambiental – e fortalecido alianças estratégicas com atores governamentais, da sociedade civil e do setor privado.

Nesse contexto, a FAO vê o Brasil como um dos países mais propenso a apresentar excelentes resultados no cumprimento dos ODS. Isso porque o país conta com mecanismos legais e normativos, estratégias específicas, políticas públicas consolidadas e principalmente não deixa de fora da agenda temas como combate à pobreza e preservação do meio ambiente.

Claro que o país tem desafios que precisam ser amplamente discutidos pelas instâncias nacionais, principalmente no que diz respeito ao combate à fome e à pobreza em populações consideradas como minorias.

Por esse e outro motivos, a FAO estabelece como desafio, não só para o Brasil, mas também para os outros países, considerar a sustentabilidade de forma ampla em seus aspectos social, econômico e ambiental de forma a avaliar se o que se está produzindo servirá para diversificar e tornar as dietas mais saudáveis. São dois grandes obstáculos a serem superados: eliminar todas as formas de insegurança alimentar e reduzir o sobrepeso e obesidade. Só assim poderemos dizer que a produção agrícola segue um rumo em direção a alimentos saudáveis e variados.

Alan Bojanic

Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) - Brasil

De nacionalidade boliviana, Alan Bojanic é engenheiro agrônomo da Universidade Gabriel René Moreno de Santa Cruz, Bolívia. Possui diploma de economia agrícola da Universidade de Reading, Reino Unido, e master em economia agrária (M.Sc) da Universidade de Londres. Também possui um master em ciências políticas da Universidade de Costa Rica e obteve seu Ph.D. em economia ambiental na Universidade de Utrecht, na Holanda. Também realizou estudos de pós-graduação em métodos de pesquisa para o desenvolvimento no Centro Internacional de Desenvolvimento Agropecuário de Wageningen, Holanda, e em estatísticas experimentais na Universidade de Kent, Reino Unido.

De 1981 a 1990, o Sr. Bojanic foi responsável pelo Programa de Economia Agrícola, sendo posteriormente diretor adjunto e diretor técnico no Centro de Investigación Agrícola Tropical (CIAT) de Santa Cruz, Bolívia. De 1995 a 1997, foi funcionário do PNUD como assessor em desenvolvimento sustentável e recursos naturais. Em 2004, foi diretor executivo do Serviço Nacional de Sanidade Agropecuária e Inocuidade Alimentar da Bolívia. De março de 2005 a setembro de 2010, foi Representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) na Costa Rica. Foi Representante Regional Adjunto da FAO para a América Latina e o Caribe de setembro de 2010 a fevereiro de 2013, e Representante da FAO no Chile, desde outubro de 2010. Entre suas funções adicionais foi o Coordenador da Equipe Multidisciplinar da FAO para a América do Sul. Desde 01 de março de 2013, foi nomeado Representante da FAO no Brasil.