Marca do Programa Macaco-prego

Perguntas e respostas

1) Por que os macacos-prego descascam as árvores?
Para se alimentar da sua seiva. Embora os frutos e sementes nativas sejam o principal alimento do macaco-prego, no inverno e primavera (julho a novembro) a quantidade desses recursos na Floresta com Araucária, típica do Sul do Brasil, não é suficiente para a sua sobrevivência. Esse problema é crítico nas regiões em que essa floresta foi ou é explorada/suprimida, pois isso reduz a abundância de espécies que servem de alimento para o macaco-prego. Esses primatas, então, buscam alimentos alternativos. Assim, descascam as árvores de pínus e diversas outras espécies (p.ex. eucaliptos, cupressus, araucária, cuvitinga) e raspam o tecido (floema) exposto com os dentes e unhas, o que danifica o tronco e compromete o crescimento e, eventualmente, a sobrevivência das árvores atacadas. A seiva é apreciada por que, tal como os frutos, tem em sua composição uma grande quantidade de açúcares, além de outros nutrientes.

2) Quais são as espécies atacadas pelo macaco-prego?
Diversas espécies arbóreas, nativas e exóticas, são descascadas pelo macaco-prego para o consumo da sua seiva. Assim, há registros de descascamento das seguintes espécies nativas: cuvitinga, bracatinga e araucária, esta tanto em florestas naturais quanto plantadas. Para as espécies exóticas, os danos foram já observados em Cunninghamia lanceolata, Cupressus sp., diversas espécies de eucaliptus e, principalmente, em pínus. Essa preferência pelo pínus parece ter relação com a maior quantidade de seiva e floema que o animal obtém por área descascada e com a facilidade de remover a casca quando comparados às demais espécies. Além disso, está relacionado à sua grande disponibilidade nas proximidades dos remanescentes de floresta nativa onde vivem os macacos-prego.

3) Todas as espécies de pínus são igualmente apreciadas pelo macaco-prego?
Não, os macacos-prego exibem preferência por Pinus taeda e P. greggii. Já em P. patula praticamente não são observados danos, havendo indícios de rejeição dessa espécie por esse primata. Outras espécies, tanto aquelas de climas temperados (p.ex. P. elliottii) quanto tropicais (p.ex. P. caribaea, P. maximinoi, P. oocarpa, P. tecunumanii), apresentam índices intermediários de danos, ou seja, não são preferenciais nem evitadas.

4) Quais são os danos às árvores?
Os danos podem ser do tipo janelamento, quando apenas uma face do tronco é descascada, ou anelamento, quando o dano atinge todas as faces, sendo este mais grave, já que ao interromper o fluxo de seiva praticamente cessa o crescimento da árvore e pode resultar na sua morte.
Os ataques dos macacos-prego geralmente se iniciam em árvores entre 5 e 6 anos de idade após o plantio e podem se estender por toda a vida da árvore.  Ocorrem nas partes mais altas da árvore (terço superior do tronco), podem ser múltiplos e serão tanto mais graves quanto mais novas forem as árvores danificadas, principalmente se os danos forem do tipo anelamento.


5) Como detectar se a árvore foi atacada?
Como os ataques normalmente acontecem no terço superior da árvore, a visualização do dano pode ser dificultada, principalmente em plantios mais velhos e sem desbastes. No caso de danos recentes em pínus e eucaliptos, uma dica é que os macacos geralmente retiram a casca em tiras longas (do tamanho de um entrenó) que se acumulam sob a árvore danificada ou ficam a ela presas, como em uma banana descascada. Se a casca for pouco flexível, como na araucária, as tiras podem ser curtas, mas também tendem a ficar acumuladas na base da planta. Dessa forma, mesmo sem ver inicialmente o dano na árvore, é possível saber que ele foi realizado. Esse indício, no entanto, tende a ficar menos aparente com o passar do tempo porque as lascas removidas escurecem e são recobertas por acículas (no caso do pínus), folhas e galhos caídos. O dano na árvore também é mais facilmente observável nos primeiros meses, quando a coloração do tecido exposto é mais clara que o restante do tronco. Com o tempo, os processos de oxidação e cicatrização dificultam a visualização. Por isso, é importante que o monitoramento dos danos seja realizado anualmente, preferencialmente logo após o período de descascamento, em dezembro, quando os danos realizados recentemente ainda estão bastante evidentes.
O descascamento do tipo janelamento é mais difícil de ser detectado e, por esse motivo, é importante observar cada árvore de diversos ângulos. No caso do dano do tipo anelamento, além de ser mais fácil visualizá-lo, passados alguns meses, é possível observar que a ponteira da árvore começa a secar, ficando inicialmente com uma coloração amarelada e finalmente marrom, quando pode sofrer quebra da copa.


6) Como avaliar o nível de danos?
Para uma análise mais completa do impacto dos danos sobre a produtividade, é fundamental a realização de um inventário com a coleta de três variáveis.
- A primeira é a classificação dos danos: "anelamento" (quando a remoção da casca é feita em todas as faces, como em um anel) ou "janelamento" (quando o dano atinge apenas uma face, lembrando uma janela), uma vez que o incremento e o posterior uso da madeira são muito influenciados pelo tipo de dano. Quando os dois tipos de danos forem encontrados na mesma árvore, ela deve ser classificada como anelada, pois esse é o tipo de dano mais grave e geralmente a copa acima do dano seca.
- A segunda variável a ser registrada é a altura, a partir do solo, do primeiro dano (ou do anelamento, no caso de existirem janelamentos mais baixos. Esta altura está diretamente relacionada à idade em que ocorreu o ataque, já que o dano é quase sempre realizado no terço superior do tronco.
- A terceira é o comprimento do dano.
As três variáveis têm reflexo direto na produtividade e na qualidade da madeira. Assim, elas devem ser analisadas em conjunto de forma a contabilizar dois tipos de perda. A primeira é pela redução do crescimento da floresta. O incremento anual de um povoamento atacado cai proporcionalmente com a intensidade do ataque. A segunda ocorre pela inutilização do segmento danificado do tronco.
A Embrapa Florestas desenvolveu um aplicativo computacional que calcula a perda de madeira ocasionada por ambos os tipos de dano. Este aplicativo encontra-se disponível em Softwares para Manejo Florestal.


7) As populações do macaco-prego estão crescendo nas regiões onde há plantios de pínus?  
Não. Na região Sul, onde se concentram os plantios de pínus no Brasil, o inverno é rigoroso e a Floresta com Araucária, típica dessa região, apresenta longos períodos com baixa oferta de frutos, o principal alimento dos macacos-prego, o que limita suas populações. Também nessa região acontecem frequentes surtos de febre amarela, doença epidêmica com elevada taxa de mortalidade em macacos-prego. Esses fatores, somados à predação por inimigos naturais, mantêm as populações de macaco-prego "estáveis" nessa região.  A mortalidade é mais significativa dentre os indivíduos idosos e infantes.
Em áreas de Floresta com Araucária e plantios de pínus onde foi realizado o censo de macacos-prego, as populações (1 a 3 indivíduos/km2) eram inferiores àquelas esperadas com base em valores obtidos em estudos de longa duração (mínimo 12 meses de amostragem) conduzidos em outras porções da Floresta Atlântica (10 a 71 indivíduos/km2). Em razão da baixa densidade populacional, técnicas de controle populacional, como a esterilização e a translocação de indivíduos, não são passíveis de aplicação, lembrando que o abate de macacos-prego é crime ambiental (Lei Nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998).


8) Qual a importância do macaco-prego para o meio ambiente?
 Aproximadamente 80% da dieta dos macacos-prego é composta por frutos, incluindo mais de uma centena de espécies nativas. A maioria das sementes desses frutos é descartada intacta por esse primata que, portanto, atua com um dos principais dispersores de sementes da Floresta Atlântica. Graças à dispersão realizada por esse e outros dispersores (outros mamíferos e aves) a floresta é capaz de se manter e até de se recuperar de perturbações naturais ou causadas pelo homem. Outro serviço ambiental importante prestado pelos macacos-prego é o controle populacional de alguns insetos (p. ex. percevejos e besouros) e outros invertebrados que fazem parte da sua dieta, principalmente por que eles buscam esses animais tanto na floresta nativa quanto no interior dos plantios florestais.

9) O macaco-prego pode ser considerado uma praga?
O macaco-prego, mais especificamente a espécie Sapajus nigritus (anteriormente chamada Cebus nigritus), não deve ser tratado uma praga. O comportamento de forrageio em cultivos agrícolas ou florestais, que pode resultar em danos, não é um comportamento padrão dentro da espécie, sendo realizado apenas por algumas populações, as chamadas "populações-problema". Populações que não encontram alimento suficiente no seu ambiente natural utilizam recursos alternativos para sobreviver e algumas delas encontraram na seiva de cultivos florestais estes recursos. Prova disso é que existem plantios de pínus sem danos, mesmo onde os macacos-prego estão presentes, e que os macacos-prego não realizam danos aos plantios ao longo de todo o ano, mas apenas quando a disponibilidade de frutos é baixa nas florestas nativas.  Embora a produção de frutos nativos na Floresta com Araucária seja naturalmente baixa no inverno e primavera (quando o macaco-prego descasca o pínus), esse fenômeno é agravado pela redução das áreas de floresta e pela extração seletiva de espécies nativas.

10)  Por que o manejo do macaco-prego é tão complexo quando comparado àquele das pragas?
Para responder essa pergunta, primeiro é preciso esclarecer que o macaco-prego que causa danos ao pínus é uma espécie (Sapajus nigritus) nativa e, segundo a lei de crimes ambientais (Lei Nº 9605, de 12 de fevereiro de 1998), impedir a sua procriação ou provocar a sua morte é crime. Assim, métodos usados para o controle de pragas não são aplicáveis ao macaco-prego. Essa espécie possui grande capacidade de se adaptar a ambientes alterados, mesmo que para isso tenha que buscar recursos complementares em cultivos agrícolas e florestais. Além disso, possui grande capacidade de deslocamento, tanto na copa das árvores quanto no solo, de modo que aceiros e cinturões verdes tendem a ser inócuos, além de reduzir a área dos cultivos. Por último, mas não menos importante, a espécie apresenta grande desenvolvimento cerebral e elevada capacidade cognitiva, de modo que os indivíduos tendem a encontrar rapidamente soluções para problemas (p.ex. barreiras, engodos) encontrados e transmitem os conhecimentos adquiridos para outros membros do grupo.

11) Por que o macaco não pode ser manejado via inimigos naturais?
Os principais inimigos naturais do macaco-prego são os felinos de médio e grande porte (onça-pintada, puma e jaguatirica), além de grandes gaviões (gavião-de-penacho, gavião pega-macaco e harpia). Os filhotes e os indivíduos debilitados, no entanto, também podem ser predados por carnívoros de menor porte, como quatis, e serpentes. Alguns desses predadores ainda estão presentes nos remanescentes de Floresta com Araucária e atuam ativamente no controle populacional dos macacos-prego e outras presas. Os grandes felinos e gaviões, no entanto, praticamente desapareceram das florestas do Sul do Brasil em função do seu estado geral de degradação e fragmentação. Sua reintrodução tem sido, muitas vezes, apontada como uma solução para o controle populacional dos macacos-prego em plantios de pínus. No entanto, além das populações de macaco-prego nesses plantios serem geralmente pequenas, sem tendência de aumento, a reintrodução de grandes predadores apresenta uma série de desvantagens nesses ambientes. Dentre elas, destacam-se o risco de predação de animais domésticos e do próprio homem, a impossibilidade de direcionar a predação a uma única presa (macaco-prego) e a falta de garantia de sobrevivência dos predadores nessas paisagens fragmentadas em função da falta de recursos e da caça ilegal. Mas uma questão bastante importante a ser também levada em consideração são o elevado custo e o longo tempo envolvidos nos programas de reintrodução.

12) O que pode ser feito hoje para reduzir os danos e o prejuízo?
Ainda não existe um método de manejo comprovadamente eficaz para reduzir os danos provocados pelo macaco-prego aos plantios florestais. A pesquisa em busca de soluções para esse problema é bastante diversificada, envolvendo ações de ordenamento florestal e análise química de potenciais substâncias deterrentes (inibidoras do ataque), dentre outras (vide Tabela 1).
No entanto, hoje, dois métodos apresentam bom potencial para reduzir os danos a médio e longo prazos. O primeiro é a substituição dos plantios de P. taeda e P. elliottii com altos níveis de danos por Pinus patula. O segundo é o enriquecimento dos remanescentes de floresta nativa (Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal) próximos aos plantios florestais com espécies de frutos nativos apreciados pelo macaco-prego, principalmente aquelas que produzem frutos durante o inverno e primavera (como por ex. Allophylus guaraniticus, Psychotria stachyoides, Randia armata e Solanum inodorum, além da araucária em suas diferentes variedades). Como esse é o período de menor oferta desse recurso na Floresta com Araucária, o macaco-prego busca a seiva de pínus como alimento alternativo, de modo que o aumento gradativo da oferta do alimento preferencial deve levar a uma diminuição da pressão sobre o pínus.


Tabela 1. Sinopse das propostas para reduzir os danos causados por macacos-prego aos plantios de pínus já avaliadas ou em avaliação pelo Programa Macaco-Prego.

Proposta

Viável ou eficiente

Motivos

Retirada de animais das áreas-problema*

Não

 
(1) os macacos-prego são importantes para a manutenção das florestas nativas, pois são dispersores de sementes e predadores de insetos, de modo que sua retirada poderia provocar mais desequilíbrio; (2) as populações são pequenas; (3) alto custo; (4) risco de transmissão de doenças.

Esterilização de animais*

Não

(1) impedir a procriação da fauna nativa constitui crime ambiental; (2) o crescimento populacional baixo e as populações pequenas não fornecem base técnica para pedido de autorização; (3) alto custo.

Abate de animais via caça ou uso de venenos*

Não

(1) crime ambiental previsto na Lei 9605 de 12 de fevereiro de 1998; (2) a autorização para abate teria que ser dada pelo órgão competente, mas não há base técnica, pois as populações são reduzidas e o dano não compromete a produção de alimentos; (3) o emprego de métodos capazes de provocar destruição em massa aumenta a pena.

Uso de silhuetas de predadores*

Não

(1) eficiência de curta duração. Os macacos-prego rapidamente aprendem a reconhecer o engodo.

Reintrodução de inimigos naturais*

Não

(1) programas de reintrodução são caros, longos e de resultado incerto; (2) populações de grandes gaviões (pega-macaco e harpia) e felinos (puma, onça) dificilmente se mantêm em ambientes alterados; (3) podem trazer risco para a pecuária, animais domésticos e o próprio homem.

Uso de aceiros ou cercas vivas com outras espécies florestais cercando talhões de pínus*

Não

(1) os macacos-prego cruzam facilmente aceiros e, principalmente, cercas-vivas para acessar os plantios; (2) perda significativa de áreas de produção.

Oferta artificial de alimentos*

Não

(1) os macacos-prego precisam de dieta diversificada e bem distribuída dentro do território dos diferentes grupos; (2) alto custo de manutenção e baixa eficiência.

Ronda de pessoas com a intenção de afugentar os animais*

Não

(1) alto custo de manutenção; (2) perseguir espécimes da fauna silvestre também constitui crime ambiental; (3) pode apenas transferir o problema de local.

Uso de substâncias deterrentes**

Em  desenvol-vimento

(1) pesquisa focada em substâncias presentes em plantas evitadas pelo macaco-prego; (2) alguns resultados promissores, mas poderá levar vários anos até que algum produto possa ser utilizado em larga escala.

Ordenamento florestal**

Em avaliação

(1) colheita final em idades mais avançadas para plantios atacados; (2) viabilidade e efeitos de desbaste de árvores com crescimento estagnado por danos; (3) alternativas de manejo visando melhoria da rentabilidade econômica de talhões atacados; (4) aperfeiçoamento do software SisPinus para planejamento da produção em áreas sob ataque.

Plantio de espécies alternativas**

Em avaliação

(1) algumas espécies de pínus (p.ex. P. patula) são pouco apreciadas ou não consumidas pelos macacos-prego; (2) essas espécies podem ser usadas em áreas com histórico de danos significativos; (3) estratégia de curto a médio prazo, podendo ser transitória.

Enriquecimento das áreas florestais  nativas com espécies apreciadas pelos macacos-prego**

Em avaliação

(1) espécies frutíferas nativas, que produzem no inverno e primavera (período de menor disponibilidade de alimento para os macacos e quando causam danos); (2) pode-se aproveitar o momento de recuperar APPs, diminuindo o custo operacional; (3) estratégia de médio a longo prazo, mas tende a ser permanente; (4) baixa disponibilidade de mudas em viveiros.

* propostas sugeridas ou executadas por terceiros e apenas avaliadas quanto à sua viabilidade e eficiência pelo Programa Macaco-Prego; ** propostas formuladas com base nos resultados das pesquisas do Programa Macaco-Prego.