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A cultura da batata | voltar ao início


Embrapa Hortaliças
Sistemas de Produção, 8
ISSN 1678-880X Versão Eletrônica
2ª edição
Autores

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A grande maioria dos solos brasileiros onde se cultiva a batata são ácidos, ou seja, com pH abaixo da faixa ideal de cultivo, entre 5,5 e 6,0. A calagem promove importante modificação no ambiente radicular, pois diminui a acidez do solo, fornece Ca e Mg e aumenta a disponibilidade e eficiência na utilização de vários nutrientes. Assim, apesar de ser considerada relativamente tolerante à acidez do solo, a cultura da batata responde positivamente à aplicação de corretivos da acidez.


A amostragem de solo é a primeira e mais crítica etapa de um bom programa de correção do solo e adubação. Para que a análise química represente adequadamente as características do solo avaliado, é de fundamental importância que a amostragem seja feita seguindo alguns critérios básicos:

  1. Dividir a área em glebas homogêneas, nunca superiores a 20 hectares, de acordo com a topografia, cobertura vegetal, cultivo precedente, drenagem, textura, cor, grau de erosão, profundidade e tipo de solo, amostrando cada área isoladamente;
  2. De cada gleba, deve-se retirar várias subamostras em ziguezague, de 10 a 20, percorrendo toda a área homogênea;
  3. Antes da coleta, deve-se afastar os detritos, vegetação e restos culturais da superfície do solo, bem como, evitar pontos próximos a cupinzeiros, formigueiros, currais, depósitos de corretivos ou fertilizantes e manchas de solo;
  4. Para a cultura da batata, a amostragem deve ser realizada a profundidade de 0 a 20 cm;
  5. As amostras podem ser coletadas com trado de rosca, trado calador, trado holandês, pá reta, ou mesmo enxadão; 
  6. Após a reunião e homogeneização das subamostras, devem ser retiradas cerca de 500 g de solo para envio ao laboratório;
  7. A coleta das amostras e o envio destas para o laboratório devem ser realizados pelo menos três a quatro meses antes do plantio e,
  8. Cada amostra deve ser adequadamente identificada.
     

A quantidade de corretivo deve ser determinada com base na análise química e física do solo, no poder relativo de neutralização total (PRNT) do corretivo e na profundidade de incorporação. Recomenda-se muito cuidado no cálculo da calagem, pois calcário em excesso eleva o pH acima de 6,0, situação que favorece o ataque da sarna-comum, uma das doenças de maior dificuldade de controle na cultura da batata.

A necessidade de calagem pode ser determinada por três métodos: o método baseado nos teores de Ca, Mg e Al trocáveis no solo, o método da solução tampão SMP e o método da saturação por bases.

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Consideram-se a susceptibilidade ou a tolerância da cultura à acidez trocável (considerando a máxima saturação por Al²+ tolerada pela cultura - mt) e a capacidade tampão do solo (Y). Este método também visa elevar a disponibilidade de Ca²+ e Mg²+ de acordo com as necessidades das culturas destes nutrientes (X).
Dessa forma, a necessidade de calagem em t/ha é calculada de acordo com a equação descrita a seguir (1):

NC (t/ha) = Y [Al³+ - (mt . t/100)] + [X – (Ca²+ + Mg²+)]          (1)

Em que:

NC = necessidade de calagem em t/ha;
Y = capacidade tampão da acidez do solo;
Al³+ = acidez trocável em cmolc/dm-³;
mt = máxima saturação por Al³+ tolerada pela cultura em %;
t = CTC efetiva em cmolc/dm-³;
X = exigência da cultura em Ca e Mg.
Y é um valor variável em função da capacidade tampão da acidez do solo, que pode ser definido de acordo com a textura do solo, enquanto os valores de mt compreendem a máxima capacidade de saturação por Al³+ tolerada pela batateira, e X, variável em função dos requerimentos de Ca e Mg da batateira (Tabela 1).

Tabela 1. Valores de Y de acordo com a percentagem de argila do solo, valores máximos de saturação por Al3+ tolerados pela batateira (mt), e valores de X para o método dos teores de Ca, Mg e Al trocáveis.

Solo

Argila (%)

Y

Arenoso

0 a 15

0,0 a 1,0

Textura média

15 a 35

1,0 a 2,0

Argiloso

35 a 60

2,0 a 3,0

Muito argiloso

60 a 100

3,0 a 4,0

Cultura

mt (%)

X (cmolc/dm-3)

Batata

15

2,0

Fonte: Alvarez & Ribeiro (1999).

Com base na equação (1), a quantidade de corretivo a ser aplicada considera o PRNT igual a 100% e a profundidade de incorporação de 20 cm. Se o PRNT for menor, o que é comum, ou o corretivo for incorporado a maiores profundidades, por exemplo, 30 cm, o que é bastante desejável, há necessidade de correção da dose.
Necessidade de calagem com base no método SMP

Nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte do Paraná, a necessidade de calagem é calculada pelo método SMP, objetivando, para a cultura da batata, elevar o pH em água até 5,5 na camada de 0 a 20 cm (Tabela 2). Contudo, para batata cultivada em sistemas de rotação de culturas, após mais de um ano da aplicação do calcário, pode-se realizar a elevação do pH em água a 6,0, para não comprometer a produtividade das demais culturas que compõem o sistema.

Tabela 2. Recomendação de calcário (PRNT 100%) para elevar o pH do solo (pH em água) a 5,5 ou 6,0 em uso no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Índice SMP

pH em água a atingir

5,5

6,0

Calcário (t/ha)

4,4

15,0

21,0

4,5

12,5

17,3

4,6

10,9

15,0

4,7

9,6

13,3

4,8

8,5

11,9

4,9

7,7

10,7

5,0

6,6

9,9

5,1

6,6

9,1

5,2

5,3

8,3

5,3

4,8

7,5

5,4

4,2

6,8

5,5

3,7

6,1

5,6

3,2

5,4

5,7

2,8

4,8

5,8

2,3

4,2

5,9

2,0

3,7

6,0

1,6

3,2

6,1

1,3

2,7

6,2

1,0

2,2

6,3

0,8

1,8

6,4

0,6

1,4

6,5

0,4

1,1

6,6

0,2

0,8

6,7

0,0

0,5

6,8

0,0

0,3

6,9

0,0

0,2

7,0

0,0

0,0

Fonte: SBCS - Núcleo Regional Sul - Comissão de Química e Fertilidade do Solo - RS/SC (2004).

No caso da batateira, a recomendação é aplicar calcário para elevar a saturação por bases a 60% sempre que o valor for inferior a 50%, e procurar elevar o teor de Mg no solo ao mínimo de 8 mmolc/dm-³. Assim, a quantidade de calcário a ser aplicada e incorporada a uma profundidade de 20 cm é calculada pela equação (2):

NC (t/ha) = CTC x (60 – V1)/10 x PRNT      (2)0

Em que:

NC = necessidade de calagem em t/ha a 20 cm de profundidade;
CTC = capacidade de troca catiônica em mmolc/dm-³;
V1 = saturação por bases inicial do solo em %.;
PRNT = poder relativo de neutralização total.

A velocidade de reação ou reatividade (RE) e o poder de neutralização da acidez do solo do corretivo (PN) compõem o índice PRNT. Quanto maior o PRNT, maior a qualidade do corretivo e mais rápido o seu efeito na neutralização da acidez do solo. O PRNT, então, influencia a época de aplicação, além do fato de que a dose recomendada deve ser corrigida com base nesse índice. O custo do produto por unidade de PRNT, posto na propriedade, também deve ser considerado no momento de adquirir um corretivo.

A escolha do corretivo também deve considerar a disponibilidade de Mg no solo e a necessidade das culturas. Os corretivos da acidez do solo mais comumente utilizados são os calcários agrícolas (rocha calcária moída). Existem calcários agrícolas com diferentes concentrações e proporções de Ca e Mg, sendo classificados em calcíticos, quando o teor de MgO é menor que 5%, magnesianos, quando o teor de MgO é de 5% a 12%, e dolomíticos quando maior de 12%. Assim, dependendo da situação, pode-se optar pelo uso de calcários calcíticos, magnesianos ou dolomíticos.

Além dos calcários agrícolas, outros produtos como o calcário calcinado agrícola, cal hidratada agrícola, cal virgem agrícola e escórias (silicatos de Ca e Mg) podem ser utilizados para a correção de acidez do solo. As escórias ou silicatos, além da correção da acidez e fornecimento de Ca e Mg, também fornecem silício (Si), que pode ser um elemento benéfico para a cultura da batata.

O corretivo deve ser aplicado com antecedência ao plantio da batata, utilizando-se, de preferência, materiais com PRNT elevado. A distribuição do corretivo deve ser feita de maneira uniforme em toda a área, e este, incorporado até 20 cm de profundidade. Caso o corretivo seja incorporado em maiores profundidades (30 cm), a quantidade precisa ser maior e deverá ser distribuída a lanço, metade antes da aração e metade após, com posterior gradagem. Para melhores resultados, a incorporação deve ser homogênea, proporcionando o máximo contato do corretivo com as partículas de solo, favorecendo, assim, a reação de neutralização da acidez.

O gesso agrícola não possui poder corretivo de acidez, mas pode ser utilizado como excelente fonte de Ca e S, bem como, para redução da atividade do Al tóxico nas camadas mais profundas do solo. 

 

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