Skip to Content

A cultura da batata | voltar ao início


Embrapa Hortaliças
Sistemas de Produção, 8
ISSN 1678-880X Versão Eletrônica
2ª edição
Autores

Web Content Display

A batata-semente é um fator fundamental para garantir a qualidade e a produtividade na cultura da batata. O plantio de batata-semente de má qualidade pode comprometer uma safra, mesmo que todas as outras condições sejam altamente favoráveis ao cultivo. Portanto, recomenda-se a utilização de uma batata-semente com boa sanidade, estado fisiológico e brotação adequada. A boa sanidade da batata-semente é proporcionada pelas práticas relativas ao processo de certificação de sementes, na colheita, seleção, beneficiamento e embalagem, bem como no processo de armazenagem, garantindo níveis toleráveis de doenças conforme padrões previstos em normas oficiais. Tubérculos com estas características são encontrados em batata-semente produzidas por produtores especializados.

É necessário também que a batata-semente se apresente em bom estado fisiológico e bem conservada, isto é, colhida na época adequada, túrgida e firme. Deve-se evitar a utilização de tubérculos esgotados e murchos, indicativos de uma idade fisiológica muito avançada. O plantio desses tubérculos mal conservados resulta em plantas pouco vigorosas e ciclo vegetativo mais curto, comprometendo seriamente a produção.

Outra característica essencial é a brotação adequada da batata-semente. A brotação é considerada apropriada quando os brotos apresentam comprimento próximo de 1 cm. Deve-se evitar o plantio de tubérculos com um único broto ou com brotos pouco desenvolvidos, que dão origem a poucas hastes por cova. O número reduzido de hastes por cova, além de insuficientes para garantir a produtividade, pode provocar falhas se hastes forem quebradas ou atacadas por doenças ou pragas. O plantio de tubérculos com brotos pouco desenvolvidos pode retardar a emergência, causando crescimento desuniforme das plantas, dificultando os tratos culturais. Em adição, o atraso da emergência expõe os brotos por mais tempo ao ataque de doenças e pragas de solo.

Os estádios fisiológicos da batata semente são divididos em: dormência, dominância apical, brotação múltipla e senescência. Os estágios recomendados para o plantio são a fase da dominância apical, se necessitar de um campo com plantas de poucas hastes, para produção de material para processamento ou consumo in natura; ou de brotação múltipla, para obterem-se plantas com muitas hastes para produção de sementes.

O manejo da batata semente conforme estes estádios fisiológicos pode ser controlado pelo forçamento artificial de brotação ou pelo armazenamento. Se o armazenamento for por curto prazo, até 4 meses, pode ser feito em armazéns convencionais com ventilação natural. Porém, se o período de conservação for de até 8 meses, haverá necessidade de uso de câmaras frias com condições controladas. A temperatura do ar deve ser próxima a 4 ºC na superfície do tubérculo e umidade mínima do ar de 85%, ambos controlados pelos equipamentos de refrigeração da câmara fria. Também há a necessidade de se restringir a concentração de CO2 ao valor máximo de 0,5%. Na prática, isso é feito abrindo-se as portas da câmara fria por 6 horas a cada semana de operação; ou se esta for de uso contínuo, o ato de abrir e fechar as portas já é o suficiente para manter adequado o conteúdo de CO2 do interior da câmara. A semente que atingir o último estádio fisiológico (senescência) deve ser descartada.

Sementeiro é uma pratica agrícola que visa fornecer batata-semente própria produzida dentro da propriedade agrícola e consiste em plantar pequena parcela de multiplicação de "sementes" feita pelo produtor de batata consumo, com o objetivo de viabilizar o uso de semente de qualidade, para redução do seu custo na lavoura de consumo, assim como da melhoria da sanidade da lavoura. Esta prática resulta em sensíveis ganhos de lucratividade na lavoura. Em alguns estados, é necessário fazer a comunicação escrita ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) avisando sobre este plantio da parcela de semente própria, principalmente se a cultivar for protegida junto ao Serviço Nacional de Proteção de Cultivares.

Para implantar o sementeiro, o produtor precisa adquirir cerca de 20% da semente que planta habitualmente ou que pretende plantar, quando multiplica apenas uma vez. Caso queira multiplicar a semente por duas gerações antes de fazer a lavoura de batata consumo, o produtor precisa adquirir 5% da necessidade.

Para suprir uma lavoura de 1,0 ha de batata-consumo, no caso de fazer um sementeiro de uma multiplicação, o produtor precisa adquirir 400 kg de batata-semente certificada. No caso de efetuar semente de duas multiplicações, o produtor necessita comprar 100 kg de batata-semente certificada para iniciar o sementeiro.

O sementeiro deve ser localizado em área distante de lavouras de produção de batata para consumo, ou separado destas por obstáculos naturais tais como matas, morros etc.; e em solo ainda não cultivado com batata ou, sabidamente, não infestado por bactéria causadora de murchadeira.

Os principais cuidados com o sementeiro são: controle dos pulgões, que são os principais vetores das viroses; erradicação das plantas anormais ou com sintomas de doenças, retirando-se do campo as plantas juntamente com todos os tubérculos; controle das doenças fúngicas da parte aérea e colheita antecipada, antes da seca natural da rama.

O tubérculo semente após a colheita passa por um período de dormência que evita a rápida brotação. A dormência é controlada por um balanço hormonal entre promotores e inibidores de crescimento. O período natural de dormência pode se estender por dois ou mais meses, dependendo da cultivar, condições de desenvolvimento do tubérculo, condições de armazenamento, ocorrência de doenças, e outras condições ambientais como temperatura e umidade.

Imediatamente após a dormência, ocorre o período de dominância apical, havendo o desenvolvimento da gema principal enquanto as gemas laterais permanecem dormentes. A duração deste período depende da cultivar e do estádio fisiológico do tubérculo. O plantio de sementes com dominância apical resulta na produção de poucas hastes por área, o que limita o rendimento.

O plantio da batata-semente deve ser realizado no estádio de plena brotação, quando pelo menos três a cinco gemas laterais apresentarem brotos curtos e vigorosos.

Quando as condições naturais não são suficientes para garantir uma adequada brotação dos tubérculos no período desejado para o plantio, pode ser necessário acelerar o processo de quebra da dormência, este processo é chamado de quebra da dormência e dominância apical.

A quebra de dormência e dominância apical é realizada quimicamente com a utilização de bissulfureto de carbono ou ácido giberélico e com outros métodos de manejo.

A utilização de bissulfureto requer cuidados especializados, por ser um gás tóxico, inflamável e explosivo, e necessita de uma câmara hermética. A dose do produto aplicado depende da cultivar utilizada e das condições ambientais. Doses abaixo do ideal não produzem o efeito desejado e doses elevadas podem causar o apodrecimento dos tubérculos. A dosagem de 10 a 35 cm3/m3 por 72 horas é eficiente para a maioria das cultivares.

O ácido giberélico pode ser aplicado por imersão dos tubérculos em uma solução, por aspersão do produto sobre os tubérculos dentro dos contentores no armazém ou por aspersão no sulco sobre os tubérculos-semente já plantados. A imersão tem a desvantagem relacionada à transmissão de doenças e a necessidade de secagem rápida dos tubérculos. A imersão dos tubérculos em solução de 5 a 10 ppm (5 a 10 gramas em 1000 litros de água) durante 2 a 5 minutos, dependendo da cultivar, tem sido utilizada. Para a aspersão dos tubérculos nos contentores usa a mesma dose, e se faz um banho usando pulverizadores com jato de gotas grossas, pulverizando-se em duas fases, primeiro sobre uma das superfícies da batata e depois virando em outros contentores para expor o lado não atingido pelo jato e pulverizando-se novamente. O gasto de calda é em media de 1,0 L por contentor de 30 kg.

Nas regiões do Sul e Sudeste do país, usa-se a aspersão do ácido giberélico no sulco de plantio, após a abertura do sulco, adubação e plantio das sementes e imediatamente antes da cobertura do sulco. Esta operação é feita em solos mais argilosos e frios, onde a evaporação é pouca, e é comumente realizada junto com o inseticida para controle da larva da vaquinha (Diabrotica spp.) e de fungicidas para prevenção de ataque de podridão-seca (Fusarium spp.) e crosta-preta (Rhizoctonia solani). A aspersão no sulco diminui o problema com doenças pela imersão, porém, ainda são necessários estudos para a indicação de um método eficiente para diferentes cultivares e formas de aplicação, a fim de evitar gastos desnecessários de produtos químicos.

O simples abafamento das sementes por cerca de 72 horas, colocando-as em ambientes fechados, o que ocasiona redução no nível de oxigênio e aumento do gás carbônico, também apresenta efeitos positivos para a quebra de dormência e dominância apical.
Qualquer uma das medidas acima precisa ser acompanhada por técnicos especializados.

A principal safra da cultura da batata nas principais áreas das regiões Sul e Sudeste do Brasil é a "das águas", que é plantada do final de julho ao final de setembro e colhida a partir do meio de novembro até o final de janeiro, onde a maioria produz sem o uso frequente de irrigação devido à alta pluviosidade do período nas regiões.

A safra de "verão" é feita nas regiões dos Campos de Cima da Serra dos estados do Sul e Minas Gerais e nas regiões da Chapada da Diamantina, Alto Parnaíba e Planalto Central do entorno de Brasília. Os plantios podem ser feitos nos meses de outubro a janeiro.

O cultivo "da seca", que começa no final de janeiro até final de março e colheita prevista para final de maio a final de julho, deve ser realizado com irrigação suplementar e compensatório nos curtos períodos de estiagem, atentando sempre para evitar as geadas precoces em maio nas regiões onde ocorre inverno rigoroso.

O plantio "de inverno", realizado de abril a julho e colhido entre julho-outubro, é também praticado nessas mesmas regiões, em locais onde não ocorrem geadas, mas depende de irrigações durante o ciclo. Já o cultivo "da seca", que começa em janeiro-março, deve ser realizado o mais cedo possível para evitar as geadas em regiões onde ocorre inverno rigoroso.

Regiões que apresentem microclimas específicos consideradas não tradicionais para o cultivo da batata, como o Planalto Central e áreas altas na região Nordeste, comumente apresentam condições razoáveis de plantio durante o ano, quando não ocorrer excesso de chuva, que dificulta o controle de doenças e prejudica a aparência dos tubérculos. Nestes locais, maiores produtividades e melhor qualidade do produto são obtidas durante o inverno seco, sob irrigação.

Os sulcos de plantio, geralmente, têm espaçamento de 70 cm a 90 cm, dependendo da finalidade da produção. Para batata-consumo, o espaçamento entre sulcos é de 80-90 cm; para batata-semente, utiliza-se 70 cm a 75 cm entre sulcos. O espaçamento entre as linhas deve permitir o tráfego de máquinas durante os tratos culturais.

A profundidade de plantio depende das condições do solo. Em solos argilosos, normalmente, os tubérculos-semente são posicionados de 3 cm a 5 cm abaixo da superfície do solo; já em solos de textura média ou arenosa, a profundidade pode ser de até 10 cm.

A distância entre as plantas nas linhas varia de 30 cm a 40 cm para a produção de batata-consumo e de 20 cm a 25 cm para o cultivo de batata-
semente.

A quantidade de tubérculos-semente a ser utilizada depende do seu tamanho, uma vez que um tubérculo grande produz maior número de caules do que um tubérculo pequeno. Para batata consumo, a densidade utilizada varia de 15 a 20 caules por metro quadrado.

O número de tubérculos por caixa ou saco varia de acordo com o tipo de semente (Tabela 1). O número de tubérculos necessário para o plantio de um hectare varia de acordo com o espaçamento entre e dentro da linha (Tabela 2).

Tabela 1. Tipo, peso e número médio de tubérculos por caixa ou saco de 30 kg.

Tipo

Malha (mm)

Peso médio dos tubérculos (g)

Número médio de tubérculos

p/ caixa ou saco

I

51-60

136

220

II

41-50

68

440

III

31-40

37

800

IV

23-30

16

1.800

V

16-23

12

(1)

VI

13-16

10

(1)

VII

10-13

8

(1)

(1) Minitubérculos-semente oriundos de produção em ambiente controlado comercializados por unidades, na prática vendem-se em embalagens menores de 5 a 10 kg, e no campo planta-se em uma população média de 75.000 sementes por ha, no espaçamento entre plantas de 0,15 cm a 25 cm.

Tabela 2. Número de tubérculos necessários para plantar 1,0 hectare.

Espaçamento entre linhas

Espaçamento na linha

0,25 m

0,30 m

0,35 m

0,70 m

57.143

47.619

40.819

0,75 m

53.333

44.444

38.095

0,80 m

50.000

41.667

35.714

Em relação ao número de caixas ou sacos de 30 kg de sementes para o plantio de 1,0 ha de lavoura comercial, com sementes tipo I, utiliza-se cerca de 110 caixas ou sacos no espaçamento de 50 cm; do tipo II, cerca de 74 caixas ou sacos no espaçamento 40 cm; e do tipo III são necessárias cerca de 52 caixas ou sacos no espaçamento de 30 cm.

O plantio pode ser feito manualmente ou com auxílio de mecanização em covas ou sulcos, previamente abertos com auxílio de sulcadores, com posterior cobertura das sementes com enxadas ou sulcadores. O plantio mecanizado pode ser realizado com máquinas de alimentação manual ou automática, que fazem a abertura dos sulcos, a disposição e a cobertura das sementes. Embora existam máquinas especificas para a adubação antes do plantio, algumas fazem a adubação juntamente com o plantio, e também a aplicação de produtos fitossanitários.

Veja Também