OLHARES PARA 2030

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Arlindo de Azevedo Moura

Arlindo de Azevedo Moura

Cotonicultura pensada para durar

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 8 - Decent work and economic growth SDG 9 - Industry, innovation and infrastructure SDG 12 - Responsible consumption and production

Como os produtores de algodão "constroem" a cotonicultura que desejam ver pelas próximas três décadas.

Traçar cenários a longo prazo, numa atividade em que mal podemos prever se choverá no tempo de plantar e haverá estio na época da colheita não é tarefa simples. Vislumbrar o que pode vir a ser a cotonicultura brasileira em 30 anos aumenta sobremaneira o desafio. Não se trata apenas de um somatório de safras, mas de longevidade. A diferença entre o que se entende por "vida" para um ser humano, um animal ou uma planta, e para um empreendimento público ou privado, em qualquer atividade econômica, é que, enquanto para os primeiros – seres vivos na acepção da palavra –, ela pressupõe um ciclo marcado por início, meio e fim, para os demais, resultados do fazer humano, apenas o início é uma certeza.

A perpetuação no tempo pode ser ilimitada, desde que não faltem os recursos para isso: humanos, naturais e materiais. E eles sempre tendem à escassez. Fazê-los durar depende das decisões que tomamos.

Por isso, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) elegeu a sustentabilidade como a pedra basilar de todas as suas ações, porque nesse conceito estão contidos os três pilares que fundamentam a perpetuação da existência: o econômico, o social e o ambiental. Na safra 2016/2017, o Brasil colheu 1,6 milhão de toneladas de pluma de algodão, em 940 mil hectares de áreas plantadas. Extensão territorial essa que pode dobrar em 5 anos.  Para quem tem afinidade com a produção agrícola, esses números são bastante significativos, mas vamos deixá-los mais compreensíveis aos leitores de outros setores, aos estudantes e aos cidadãos comuns.  

Primeiro, há que se pensar o algodão com parte fundamental de uma cadeia de valor, que começa antes mesmo da lavoura, chega até o consumidor final e vai agregando, direta ou indiretamente, uma série de elos à montante e à jusante da fazenda. Essa cadeia, no ano-safra a que nos referimos, gerou riquezas (PIB) da ordem de US$ 74,11 bilhões só com a venda de produtos de confecção, mas movimentou em torno de US$ 135, 44 bilhões em seus diversos elos no Brasil. Antes das fazendas, dentro delas e depois destas, o algodão empregou mais de 1,2 milhão de pessoas, o que corresponde a uma massa salarial de US$ 11,81 bilhões, só em 2016. Em impostos, foram arrecadados o equivalente a U$S 18,31 bilhões, em IPI, ISS, PIS, Cofins e outros.

Por tudo o que representa para o país (impostos e balança comercial), para as pessoas (empregos e acesso a produtos confeccionados), a cotonicultura é fundamental para o Brasil e precisa perdurar. Voltemos, portanto, aos três pilares: para ser sustentável, a atividade, no nosso caso, a cotonicultura, precisa dar retorno para quem investe. Que sentido teria produzir algodão e não ser remunerado por isso; não garantir, a cada colheita, o capital, ou parte dele, que vai girar o próximo plantio? É preciso também que a produção não esgote os recursos naturais sem os quais ela não pode existir, como a terra e a água, e que estes atendam não apenas à necessidade da geração presente, como à das futuras, da descendência daquela família que planta e de muitas outras que dependem do negócio. Sustentabilidade presume, ainda, relações justas entre as pessoas. Isso passa pelo trabalho digno e pela atenção ao trabalhador, o que envolve, direta ou indiretamente, também a sua família, as comunidades e culturas do entorno.

Sobre esse arcabouço conceitual, a Abrapa criou o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR). Inspirando em uma iniciativa desenvolvida pela Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), em 2005, o ABR foi replicado nacionalmente pela Abrapa, a partir de 2009.  Em 2013, começou a atuar em benchmarking com a Better Cotton Initiative (BCI), entidade suíça de respaldo internacional e sinônimo de algodão sustentável no mundo. O programa serve de diretriz e certifica as boas práticas em sustentabilidade na cotonicultura.

Na safra 2016/2017, o ABR certificou 76% da pluma produzida no Brasil, algo em torno de 1,2 milhão de toneladas de algodão, em 74% da área plantada com a cultura. O benchmarking com a BCI ampliou o alcance do programa, gerando marcas históricas. Hoje, o Brasil é o maior fornecedor de algodão sustentável do mundo: 30% de toda a pluma licenciada pela BCI vêm de lavouras brasileiras.

O programa ABR foi uma decisão tomada no presente, com foco no futuro, mas seus frutos já começam a ser colhidos a partir da safra em que o produtor rural abraça a iniciativa. As boas práticas – que abrangem as agronômicas, as relativas às legislações trabalhista e ambiental, e o uso dos insumos, armazenagem, transporte, a contabilidade, dentre outros – assim como a racionalização de todos os processos produtivos, resultam em mais produtividade, qualidade, menos desperdício e até em melhor remuneração para o produtor.

Não há como pensar sustentabilidade na cotonicultura sem um paralelo com a produtividade. Se uma implica usar racionalmente recursos escassos, a outra é justamente a arte de fazer mais, com menos. Batemos o nosso próprio recorde de produtividade em 2016/2017, colhendo 1,7 mil quilos por hectare de algodão em pluma. Já éramos e continuamos a ser o campeão mundial na produção de algodão em regime de sequeiro. Em números absolutos, mais produtividade que o Brasil no algodão, só Austrália, com 2,3 mil quilos em média. Mas, enquanto o Brasil tem mais de 95% de sua produção sem irrigação, a Austrália irriga quase 100% das suas lavouras. A produção na Austrália é diretamente atrelada à capacidade que o país tem de acumular o insumo em seus reservatórios na época das chuvas.

Água é um recurso renovável, mas não é infinito. O algodão é uma planta de grande rusticidade e pouco demandante de água. Aqui encontramos as condições de clima e solo para tirar o máximo proveito das estações de chuva, e esse é, sem dúvida, um diferencial competitivo que pode e deve ser enaltecido. Por isso, é tão importante, contra o mito tantas vezes repetido de que o algodão é uma cultura que usa intensivamente a água em sua produção, conhecer bem esses números e saber argumentar.

A produtividade do Brasil na produção de algodão não é algo que tenha surgido da noite para o dia. Ela é uma conquista em construção. Quando o Semiárido era o expoente da cotonicultura brasileira, a área ocupada com algodão chegou a 4 milhões de hectares. À época, o Ceará possuía a maior extensão de lavouras de algodão contínuas do mundo. Para se ter uma ideia, na safra 2017/2018, o Brasil deverá plantar pouco mais de um milhão de hectares. O que distingue essas duas fases é a capacidade atual de produzir muito mais no equivalente a um quarto da área do passado. Senão, vejamos: àquela época, o país colhia apenas 300 quilos por hectare. O que mudou? Absolutamente tudo. Inclusive o próprio algodão, que teve de ser adaptado ao novo bioma, o Cerrado, onde, em lugar das variedades anuais, arbóreas, os cotonicultores optaram pela arbustiva, destruída após cada safra. Muita tecnologia foi agregada, desde a semente, com variedades resistentes a pragas, doenças e também aos riscos climáticos. Mas nada disso teria sido possível sem uma mudança, em primeiro lugar, de mentalidade.

Antes de migrar para o Cerrado, a cotonicultura foi, por décadas, uma grande atividade econômica no Semiárido, onde viveu períodos de ascensão e declínio igualmente vertiginosos.  No início dos anos de 1990, a produção de algodão praticamente foi extinta no país, principalmente, em decorrência do crescimento descontrolado do bicudo-do-algodoeiro e da compactação e exaustão do solo nas áreas de plantio, em decorrência das repetidas safras no mesmo lugar e do uso intensivo de equipamentos inadequados. O novo modelo implantado de cotonicultura no Brasil teve como referência uma receita que não se sustentou, não para repeti-la, mas para construir uma nova e duradoura história. A rotação de cultura, em geral, com soja e milho, e a técnica cada vez mais adotada do plantio direto na palha, são exemplos de ações positivas para a sustentabilidade.

Atualmente, a cotonicultura caminha lado a lado com a tecnologia que, cada vez mais, é digital, disruptiva e precisa. E ela está em todas as etapas da produção, com drones sendo utilizados para monitoramento, controle e mesmo para aplicação de produtos químicos e biológicos (sim, vírus, bactérias e insetos sendo produzidos como aliados das lavouras). Softwares de gestão que auxiliam nas decisões administrativas, financeiras e agronômicas. As máquinas autopropelidas emitindo menos gás carbônico. A colheita, totalmente mecanizada, é feita por verdadeiros robôs gigantescos, muito pouco dependentes da mão de obra humana para operar. A precisão no uso dos recursos chega a níveis jamais vistos, como na aplicação de defensivos agrícolas, em que a máquina, seletivamente, fecha os bicos pulverizadores para evitar a sobreposição de produtos numa mesma área, e, consequentemente, o desperdício e maiores impactos ambientais. Tudo isso é parte de um modo sustentável de pensar e que demanda altos investimentos em educação, capacitação e aprimoramento constantes em toda a cadeia produtiva, gerando uma espiral virtuosa de desenvolvimento.

Existe outra maneira de produzir algodão, pensando em longo prazo, e com foco na crescente demanda dos mercados interno e externo? Não sei, desconheço. A história do algodão no Brasil já teve muitas fases, desde a chegada das esquadras portuguesas, quando os índios já cultivavam e fiavam a fibra no território recém-descoberto pela civilização ocidental. Mas, particularmente, acredito que qualquer nova proposta exequível será não mais que uma evolução da atual. Produzir no Brasil, ao contrário do que dizia Pero Vaz de Caminha em sua célebre carta ao rei de Portugal, é um desafio.

As mesmas condições de clima e solo que proporcionam o desenvolvimento das lavouras também são perfeitas para as pragas e doenças. Pensar numa cotonicultura orgânica, por exemplo, como propõem pessoas que desconhecem o negócio, mais que uma utopia, é um risco real e nada tem de sustentável. Para ser certificado como orgânico, o algodão não pode receber qualquer aplicação de adubos químicos, inseticidas e herbicidas, nem usar sementes transgênicas. Mas alguém tem de combinar isso com o bicudo-do-algodoeiro, a mais devastadora praga da cotonicultura, que requer um gasto médio de US$ 150 por hectare em seu combate.

Mesmo o convívio entre culturas de pequenos produtores orgânicos ao lado de grandes cotonicultores convencionais é perigoso, porque pode pôr em risco o trabalho de 30 anos, uma das mais valiosas cadeias produtivas do país e a própria economia nacional, e condenar a atividade pelos próximos 30 anos. A Abrapa está investindo R$ 17,7 milhões, junto com o Instituto Mato-grossensse do Algodão (IMAmt), a Embrapa e a Fundação Eliseu Alves, na pesquisa de uma variedade de algodão resistente ao bicudo. É parte das muitas ações que a entidade promove em favor da cadeia, catalisada pelos recursos oriundos da histórica vitória contra os Estados Unidos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), que contestou os subsídios concedidos pelo governo americano aos seus produtores de algodão, que tornavam desleal a concorrência entre os países.

O arrojo pelo qual é conhecida a cadeia do algodão, seja em encarar uma contenda mundial, ou em investir em pesquisa, sustentabilidade, qualidade, rastreabilidade e até em falar com o consumidor final, como acontece no movimento Sou de Algodão, revela uma atuação organizada, estratégica e em bloco. Sem união dos produtores, nada disso seria possível.

Embora trabalhe para alcançar o estado da arte nas lavouras e em ações de sustentabilidade, nem todos os fatores dependem do produtor, e, no entanto, estes que fogem à sua ingerência são cruciais. Não adianta bater recordes de produtividade sem infraestrutura logística dimensionada para uma produção cada vez maior, ou pensar a longo prazo sem segurança jurídica. É inútil ser mais produtivo se toda a margem, e por vezes, o capital, escoar em tributos exacerbados, leis descasadas da realidade, morosidade e excesso de burocracia e ideologias retrógradas e improdutivas. O iminente risco de extinção da Lei Kandir, que desonera a exportação de produtos agrícolas, é uma ameaça real à sustentabilidade da cultura do algodão e do agro em um horizonte de 3 décadas. A cadeia produtiva tem de engrenar para além da porteira, e as ações governamentais, estruturantes, são fatores decisivos para garantir a perpetuação do negócio, que deve continuar gerando desenvolvimento, divisas, emprego e renda.

Arlindo de Azevedo Moura

Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa)

Graduado em Administração de Empresas pela Universidade de Ijuí (RS), com Pós Graduação em Administração Financeira.

Atuou profissionalmente em diversas áreas como Administração, Finanças, Controladoria e Comercial.

Tem mais de 35 anos de experiência na Administração de Empresas de médio e grande porte nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Mato Grosso.

Exerceu, por sete anos, o cargo de Diretor Presidente da Kepler Weber S.A.

Foi, por oito anos, Diretor do Banco John Deere e Diretor Financeiro para a América do Sul do Grupo americano John Deere.

Atuou, por oito anos, como Diretor Presidente e membro do Conselho de Administração da SLC Agrícola S.A., responsável pela Abertura de Capital da empresa em 2007 e deu grande impulso ao crescimento e desenvolvimento da empresa.

É presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão – Abrapa – para o biênio 2017/2018.

É presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão e seus Derivados -  no Ministério da Agricultura.

Desde janeiro de 2013 é Diretor Presidente da Terra Santa Agro S.A