OLHARES PARA 2030

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Arnaldo Borges

Arnaldo Borges

Agricultura e Desenvolvimento sustentável

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 1 - No poverty SDG 2 - Zero hunger SDG 12 - Responsible consumption and production

Dentre os grandes desafios para a próxima década, certamente uma lista proposta pelo ganhador do Nobel de Química, de 2000, Alan MacDiarmid deve ser considerada. MacDiarmid listou dez desafios para a humanidade nos próximos 20 anos, sendo eles: a fome, a energia, a água, o meio ambiente, a pobreza, o crescimento demográfico, as doenças, a perda da democracia, a educação e o terrorismo e as guerras. 
Considerando que os cinco primeiros itens têm correlação direta com a saúde, alimentação e meio ambiente, a prioridade continua centrada em temas ligados ao agro. 

Segundo a FAO, em 2000, os obrigados a dedicar seu dia a dia a buscar algo para comer, condenados a não desenvolver todo o seu potencial físico e humano, eram 14,7% da população mundial. Hoje são 11%. Combater a fome sempre esteve na prioridade humana e neste quesito o Brasil está relativamente bem posicionado. Enquanto hoje 11% da população global é atingida por essa mazela, no Brasil a média atual gira em torno de 2,5%, embora seja bom lembrar o que diz o escritor Argentino Martin Carrapós:  “e se em vez de centenas de milhões de famintos fossem 100? E se fossem 24? Então diríamos, ‘ah bem, não é tão grave?’ A partir de quantos começa a ser grave?”

O fato é que o Brasil atende muito bem a demanda interna de alimentos, inclusive com grande volume de excedentes. Somos detentores das tecnologias mais avançadas de produção na faixa tropical do planeta, e a despeito de inúmeras críticas, podemos nos considerar um gigante na produção de alimentos com grande viés sustentável. E as tecnologias continuam em pleno desenvolvimento.

A Sustentabilidade do atual modelo de produção

De 800 milhões de habitantes em 1750 chegamos a 7,4 bi atualmente, ou seja em 267 anos a população do planeta cresceu dez vezes, o que leva a concluir que o modelo estabelecido no início da Revolução Industrial tem um altíssimo grau de eficiência, pois, enquanto o mundo se urbanizava, principalmente nos últimos cem anos, os fazendeiros garantiam o suprimento permanente de alimentos.

O grande desafio no horizonte relaciona-se ao suprimento contínuo para uma população global que insiste em continuar crescendo, com tendência a chegar a 9 bilhões em 2050. Considerando que existe uma correlação entre a demanda de recursos naturais e o volume de alimentos a ser produzido, o uso de conceitos de sustentabilidade na produção passa a ser intrínseco ao modelo adotado. Não há como planejar tecnologias de produção sem considerar em um mesmo status de importância manejos que garantam a longevidade das plataformas usadas pela agricultura e  pecuária.

Entre os grandes equívocos da sociedade brasileira está o não reconhecimento da qualidade e efetividade das regras do modelo produtivo e sua sustentabilidade. Nitidamente existe uma confusão entre as regras estabelecidas e suas aplicações. Se o modelo não é perfeito e carece de constantes revisões, não se pode dizer o mesmo sobre sua aplicação. Entre estabelecer regras e fazer com que sejam  cumpridas na sua plenitude, existe uma óbvia diferença. Não se pode condenar uma lei pela ausência ou parcial cumprimento. O Código Florestal brasileiro, apesar das críticas, ainda é considerado um dos mais avançados do planeta.  Não reconhecer esse fato prejudica uma discussão racional sobre a sua evolução.

Desafios na pecuária

Segundo a Embrapa, o atual estágio de degradação das pastagens brasileiras representa o maior desafio da atividade pecuária no Brasil; diferentes graus de degradação atingem uma área aproximada de 70 milhões de hectares, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Norte.

A produção a pasto, além de ser a mais salutar fonte de alimento para os ruminantes, produz uma carne com grande diferencial competitivo nos mais diferentes mercados. Proveniente do boi de capim, a carne a pasto, além de ser reconhecida como mais saudável e natural, pode garantir grande competitividade em função dos custos de produção. Como grande solução para o enfrentamento da degeneração das pastagens brasileiras, a Embrapa vem preconizando diferentes soluções, entre elas os Sistemas de Integração ILP/ILPF, que a exemplo de outros modelos de sucesso, como o plantio direto e o milho safrinha, além de inverter a espiral de degradação das pastagens, firma-se como uma das criativas soluções para aumento de produtividade, verticalização da produção e consolidação de mais uma solução de grande viés sustentável do agronegócio brasileiro.

Implantação dos Sistemas de Integração 

As principais dificuldades encontradas no estabelecimento do modelo ILP/ILPF principalmente na pecuária estão relacionadas à resistência cultural do pecuarista em implantar agricultura numa propriedade, condição em que em toda a sua história prevaleceu a pecuária. 

São conceitos diferentes de gestão, “times” diferentes, qualificação diferente de mão de obra, aquisição de máquinas e equipamentos, orientação técnica, análise de mercado e principalmente disposição para risco. Ainda que superadas todas essas fases, o maior desafio para a implantação dos sistemas de integração, principalmente para o médio produtor, é o acesso ao crédito. Diferente do agricultor que tem um amplo histórico de captação de recursos no sistema bancário, o pecuarista é visto e até mesmo qualificado na categoria de risco desconhecido, já que, diferentemente do agricultor, raramente busca recursos no sistema bancário, não constituindo, portanto, um histórico de captação de crédito.  

Design inteligente, os próximos passos da Genética

Um dos investimentos de mais rápido retorno na pecuária, a genética bovina brasileira, comandada quase que totalmente pelas raças zebuínas, vive um salto evolutivo sem precedentes. Desde a saga dos pioneiros que deram início às importações das raças zebuínas no final do século XIX e início do século XX, passando pela multiplicação do material genético via monta natural, intensificado por meio da inseminação artificial e mais recentemente com amplo domínio das técnicas reprodutivas in vitro, a genética bovina, assim como a genética dos grãos, está alcançando o seu estado da arte. 

Entre os próximos desafios que a genética brasileira tem pela frente, a implantação da Genômica destaca-se como de maior relevância. Sua adoção deverá influenciar muito o futuro no melhoramento genético, na medida em que fornecerá várias possibilidades de manipulação genética de forma pontual e com alto grau de precisão. Os resultados da ferramenta genômica inserida no conjunto de ações que compõem os procedimentos do melhoramento genético representam alto ganho de escala em retornos. Deverá ser a fonte de maior revolução no melhoramento genético desde os primeiros selecionadores. 

Popularizar ciência no centro das soluções

Popularizar ciência se tornou uma ciência em si pela simples razão de que a geração de soluções está num ritmo mais acelerado do que a transferência das informações, seja via mercado, seja por canais oficiais, ou ainda por ambos.

Fazer chegar às diferentes camadas da população, tanto no que diz respeito a faixa de renda quanto nos diferentes setores da sociedade, em particular os setores produtivos, é um desafio fundamental da democratização das oportunidades.

Nos países em desenvolvimento, a exemplo dos BRICS  − Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul −,  permear a ciência, o conhecimento e as informações fundamentais para o uso eficiente dos recursos naturais, tanto nas plataformas 100% antropizadas quanto nas áreas em fase de implantação de sistemas de produção, foi e sempre será fundamental no sentido de permitir implantar os mais amplos conceitos de sustentabilidade.

Arnaldo Borges

Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ)

Nasceu em Uberlândia, no dia 08/11/1952. Médico Veterinário, formado pela UFMG em 1976. Membro nato do Conselho Deliberativo Técnico da ABCZ desde 1978; membro do CJRZ desde 1983; criador da raça Nelore desde 1980, na Faz. Ipe Ouro. Pai de quatro filhos, Ana Carolina, casada com Daniel Bertolucci; João Marcos; Maria Isabel e Manuel Eduardo. Avô de João Francisco e Pedro Antonio. 

De tradicional família de zebuzeiros, com uma história de 110 anos no trabalho de melhoramento das raças Gir e Nelore (1906). Seu avô, Rodolfo Machado Borges, foi um dos fundadores da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro, antecessora da ABCZ.

Responsável pela difusão das raças zebuínas em vários países, já realizou 387 julgamentos oficializados pelo Colégio de Jurados das Raças Zebuínas no Brasil, Argentina (Palermo), Bolívia, Costa Rica, Guatemala, México e Paraguai, no total de 97.244 animais avaliados.

Em 34 anos de assessoria a rebanhos da raça Nelore e Nelore Mocho, avaliou e acasalou mais de 300.000 animais, no Brasil e exterior.

Participou do 1º registro internacional realizado na Índia, no Distrito de Bhavnagar, em 1998, representando a ABCZ e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Trabalha junto com seus filhos médicos veterinários João Marcos e Maria Isabel, na empresa de assessoria em genética animal IPEÊ OURO, de propriedade da família.

Cargos que ocupou:
• Diretor da ABCZ na gestão de Manoel Carlos Barbosa (1980/1982);
• Diretor do Departamento Técnico da ABCZ (Superintendência Técnica) na gestão de Newton Camargo de Araújo, período em que foi implantado o Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos em parceria com a EMBRAPA (1982/1986)
• Membro da Diretoria da ABCZ na gestão de Heber Crema Marzola (1990/1992)
• Membro da Diretoria da ABCZ na gestão de José Olavo Borges Mendes (2001/2004)
• 1º Vice Presidente da ABCZ na gestão de Luiz Cláudio de Souza Paranhos Ferreira (2013/2016).
• Presidente da ABCZ – gestão 2016/2019.

Homenagens:
• “Estribo de Ouro”, homenagem da Associação dos Criadores do Maranhão (1993)
• Homenagem Asocebu Bolívia (1995) pelo trabalho de introdução do melhoramento das raças Zebuínas no país, iniciado em 1987;
• Mérito ABCZ, recebido na 66ª Expozebu (2000), na gestão de Romulo Kardec de Camargos;
• Mérito “Cebu de Oro” da Asociación Boliviana de Criadores de Cebú-Asocebu (2001), recebido durante a Expocruz, em Santa Cruz de la Sierra, na gestão de Eduardo Ciro Añez;
• Homenagem na XI Expo-Internacional de Ganadería Tropical, em Mérida, Estado de Yucatán, México (2004);
• Homenagem da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil como “Incentivador da Raça”, na NeloreFest 2014.