OLHARES PARA 2030

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Clara Oliveira Goedert

Clara Oliveira Goedert

A organização de bancos genéticos como base para a segurança alimentar e melhoramento genético

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 12 - Responsible consumption and production SDG 15 - Life on land

Importância da biodiversidade para a humanidade

Segundo as estatísticas, aproximadamente 1 bilhão de pessoas no mundo deita-se diariamente com fome. Sharp (2014) estimou que, em meados deste século, a população mundial atingirá 9 bilhões de habitantes. Essas verdades deixam-nos chocados e receosos, pensando em como produzir mais alimentos para essa população crescente, pois tem-se a consciência de que os níveis atuais da produção agrícola mundial serão insuficientes para satisfazer o aumento das demandas por alimentos da população.

Essa ameaça não é destes tempos, entretanto, do século XX em diante, tem se avolumado de forma assustadora.  O grande impacto é que muito dessa diversidade está sendo perdida por meio da desertificação, do crescimento explosivo das cidades nos países em desenvolvimento e da extensiva adoção de variedades melhoradas e cultivares. Diante desse desafio, a pesquisa agrícola necessitará mais ainda da variabilidade genética, disponibilizada e materializada no germoplasma conservado, que permitirá, em associação com novas práticas agrícolas e ações de melhoramento genético, contribuir para o aumento da produção agrícola.

 A importância dos recursos genéticos estará ainda mais em evidência, diante do cenário de mudanças climáticas, em que novas variedades e cultivares adaptadas ou resilientes às novas condições bióticas e abióticas serão fundamentais para a sustentabilidade da agricultura.

A diversidade genética das espécies é a base da agricultura e da segurança alimentar

No contexto da valoração da biodiversidade e dos recursos genéticos nela contidos, a preocupação não se resume somente à conservação de um gene ou genótipo em particular, mas principalmente à conservação da variabilidade, com o objetivo de manter uma larga faixa de espécies, variedades e genes (GOEDERT et al.,1997).

Recursos genéticos: manifestação física da biodiversidade

A diversidade biológica é representada por todas as espécies de plantas, animais, microrganismos, em interação com os ecossistemas e os processos ecológicos, dos quais essas espécies fazem parte.

A manifestação física da biodiversidade é representada pelos recursos genéticos, definidos como Sir Otto Frankel, professor australiano (1900/1998), foi o fundador do movimento sobre recursos genéticos e quem cunhou, junto com a dra. Erna Bennett, o termo “recursos genéticos”, para descrever o material genético de plantas, animais e outros organismos. Muito antes que a biodiversidade se tornasse “palavra e causa” de grande importância, Sir Otto já pressionava a humanidade para assumir a responsabilidade de proteger ambas as diversidades: domesticada e silvestre (BROWN, 1999).

Os recursos genéticos tratam da variabilidade genética entre as espécies de grupos de espécies de plantas; . Palavra criada pelo cientista alemão August Weisman em 1883, pela combinação do prefixo “germ”, que significa “do qual algo nasce” e “plasma”, para o “material que dele se forma”.Segundo Giacometti (1987), genes e germoplasma constituem materiais praticamente idênticos, porém o germoplasma governa o processo da hereditariedade, e os genes constituem os elementos desse processo. Existem diferentes formas de germoplasma, como a semente, a planta ou o bulbo, o tubérculo, o rizoma, a estaca, o grão de pólen, o meristema o microrganismo e modernamente o DNA.

Os recursos genéticos de plantas constituem-se na base física detentora da variabilidade de espécies silvestres e domesticadas, fonte esta, que oferece os materiais originais e/ou básicos, que deveriam estar incorporados aos programas de genética e melhoramento. Mas não é o que vem acontecendo nos 40 anos de atividades em recursos genéticos no país e no mundo; o desinteresse dos geneticistas e dos melhoristas de plantas, em usar os materiais disponíveis nos bancos genéticos como nos bancos ativos, é, sem dúvidas, um dos aspectos mais negativos e muitas vezes de atraso, no avanço de resultados mais promissores na obtenção de variedades mais produtivas e de melhor desempenho.

O Brasil possui entre 50 e 55 mil espécies de plantas superiores, constituindo-se no país de maior biodiversidade do mundo (20% a 25%); entretanto a agricultura e a segurança alimentar do povo brasileiro são totalmente dependentes da introdução de recursos genéticos originários de outros países; nenhum país rico em biodiversidade na Terra é autossuficiente em recursos genéticos vegetais. Praticamente, todas as atividades da agropecuária brasileira, bastante diversificadas em função do tamanho e da diversidade ecológica do país, jamais avançariam sem a importação sistemática e crescente de recursos genéticos (GIACOMETTI, 1993).

Programas de recursos genéticos usados pela Embrapa: breve histórico

A Embrapa criou em novembro de 1974 o Centro Nacional de Recursos Genéticos (Cenargen), em Brasília, com o objetivo de: promover o enriquecimento dos recursos genéticos no país; pesquisar e desenvolver as técnicas de conservação de germoplasma de espécies de valor atual e/ou potencial e avaliar e caracterizar os recursos genéticos e promover a sua utilização nos programas de melhoramento.

Na época, as atividades em recursos genéticos eram desconhecidas e inexistentes no país. Antes do estabelecimento do Cenargen, as coleções de sementes das espécies alvo eram chamadas de coleções de trabalho e mantidas por melhoristas, que não dispunham de instalações adequadas para o armazenamento de suas sementes. As informações e resultados obtidos permaneciam em cadernos individuais, aos quais poucas pessoas tinham acesso.

 A partir de 1980, as atividades relacionadas à área de recursos genéticos passaram a compor um sistema de organização denominado de Programa Nacional de Pesquisas em Recursos Genéticos por Produto (PNPRG), em que o Cenargen foi indicado como a Unidade coordenadora. Nesse programa, foi oficialmente formalizada a primeira Rede de Bancos Ativos de Germoplasma, contando com 10 bancos ativos. Foi o período de formação de pessoal técnico e do estabelecimento de infraestrutura adequada às pesquisas relacionadas a essa área nas Unidades. Como ponto forte, destaca-se que nesse PNPRG não houve problemas de orçamento, pois o mesmo ocorreu nos primeiros anos da Embrapa, quando o sistema de governo confiou à Embrapa a pesquisa em agropecuária brasileira. Até a presente data, a área de recursos genéticos experimentou mais quatro modelos de sistema organizacional e, em todos os sistemas, foram mantidos os mesmos objetivos: o enriquecimento e a conservação dos recursos genéticos exóticos e nativos de importância atual e potencial para o país; e as mesmas linhas básicas de pesquisa, desenvolvimento e uso de recursos genéticos.

Bancos genéticos base para a segurança alimentar e melhoramento genético

Os recursos genéticos vegetais, animais e microbianos constituem-se na parte essencial e básica da biodiversidade, que é usada pelo homem para promover o desenvolvimento sustentável da agricultura e produção de alimentos.    

O que é um banco genético?

É um agregado de partes que formam um conjunto, ou seja, um corpo completo de atividades de pesquisas concernentes à área de recursos genéticos, cujo objetivo precípuo é a conservação e uso sustentável desses recursos na agricultura para a segurança alimentar. O corpo completo de atividades e manejo é representado por um Programa de Pesquisa de Recursos Genéticos. A existência e o sucesso de um Programa de RG dependem da organização, do planejamento e execução das ações inerentes à área e às atividades de pesquisa e ao desenvolvimento em recursos genéticos nas Unidades. As estruturas físicas de um banco genético são pesadas e caras, constituindo-se de várias câmaras frias (variando +10 ºC até -20 ºC), ou congeladores horizontais (-18 ºC), ou botijões de nitrogênio líquido (-180º). Normalmente, são abrigados em uma estrutura de alvenaria adequada e constituída de laboratórios e salas de trabalho de apoio.

 O banco genético não se forma espontaneamente e nem se mantém sozinho. É parte do Programa de RG criado para organizar e dar suporte a um complexo de ações de pesquisas, apoio e desenvolvimento de recursos genéticos, realizadas nos bancos ativos de germoplasma (BAGs) e no Cenargen, seguindo normas internacionais e as leis brasileiras.  Banco genético e as atividades de pesquisas e manejo em recursos genéticos desenvolvidos na Rede de BAGs formam um conjunto de ações interativas e complementares entre si, focando as seguintes linhas técnicas: a) enriquecimento da variabilidade genética; b) conservação ex situ e in situ a curto, médio e longo prazo; c) caracterização e avaliação do germoplasma; d) manutenção de um sistema eficiente de informação; e e) divulgação dos recursos genéticos para consolidação de uma consciência nacional, sobre a sua importância.

Organização de um Programa Nacional de Recursos Genéticos

As ações de gestão de um Programa Nacional de Recursos Genéticos devem ser de caráter integrado, descentralizado, participativo e finalístico no sentido de formar e manter a Rede de Bancos Ativos e o banco genético, além de promover o uso sustentável dos recursos genéticos.

Os conhecimentos e a experiência adquiridos permitiram-nos observar e refletir sobre os programas de recursos genéticos já utilizados pela Embrapa. A análise mostrou que os programas usados não foram satisfatórios, pela ausência de uma gestão interativa e complementar, em que as atividades de pesquisa e manejo dos recursos genéticos desenvolvidos nos BAGs e no banco genético tivessem linearidade. Entretanto, isso não quer dizer que fracassaram; conseguiram manter as atividades apesar dos muitos percalços pela falta de recursos financeiros, tanto para custeio quanto para investimento, além da falta de pessoal treinado.

Para cumprir sua meta, um Programa de RG deve ter foco, compromisso de execução e gerar impactos na segurança alimentar; contar com forte apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e da Embrapa; haver disponibilidade de recursos financeiros e pessoal treinado. Adjunto a essas palavras, há o pedido de criação do Programa Brasileiro de Recursos Genéticos, que é a grande demanda das instituições brasileiras, que de alguma maneira se dedicam na salvação e uso de recursos genéticos. 

Normalmente, na organização de um programa, definem-se os princípios básicos que o caracterizam, descritos alguns a seguir:

  1. O PNPRG deverá estar sob a responsabilidade direta do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD).
  2. O PNPRG constitui-se da rede de Bancos Ativos de Germoplasma dos Produtos e do Banco Genético Vegetal.
  3. O PNPRG envolve ações de gestão da coordenação/gestão técnico-científica e administrativas.
  4. O PNPRG deve estar localizado no Cenargen.
  5. Gestão técnico-cientifica e administrativa: um coordenador, pesquisador, doutor, com conhecimento e competência área RG.
  6. Curadores/agentes de interação/BAGs/produtos: pesquisador e/ou analista, mestre ou doutor com lotação no Cenargen.
  7. Banco Ativo de Germoplasma: cada grupo/produto terá um líder/gestor.
  8. Deverá ser constituído um Conselho Técnico do PNPRG com participantes externos e internos da Embrapa.

Procurou-se fazer um relato de fácil compreensão, tentando destacar o valor intrínseco e indiscutível da biodiversidade e dos recursos genéticos para a humanidade, chamando-se a atenção de que muita pesquisa ainda está por fazer. Citando as palavras do presidente da Embrapa, de que “estamos em mudanças de época” na Empresa, vamos transformar essa fase de mudanças em ponto forte para conservação e uso sustentável de recursos genéticos, empoderando sua importância na segurança alimentar e futuro da sobrevivência da humanidade.

 

 

 

Referências

BROWN, A. Sir Otto Frankel. Geneflow. IPGRI. Pg.6. 1999

GIACOMETTI, D.C. e FERREIRA, F.R., Organização e uso de bancos de  germoplasma de fruteiras. In: IX CONGRESSO BRASILEIRO DE FRUTICULTURA, Campinas, SBF, 1987. p.11-17

GIACOMETTI, D.C. A Pobreza da rica Diversidade do Brasil (artigo não publicado). Arquivado como Folheto na Biblioteca da Embrapa/Cenargen. 1992.

GIACOMETTI, D.C. The management of genetic resources as a component of biological diversity (last article written). Diversity, Bethesda, v. 8, n. 3, p.10-13, 1993

GOEDERT, C.O., VALLS, J.F.M. e VEIGA, R.F. de A. Biodiversidad y recursos genéticos. In: El cambio global y el desarrollo tecnológico agropecuário y agroindustrial del Cono Sur: Implicâncias para los INIAs y el PROCISUR. Montevideo, Uruguay, 1997, p. 65-69

SHARP, A. Meeting global challenges: Discovery and innovation through convergence. Science : 1468-1471.2014.

Clara Oliveira Goedert

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal de Pelotas (1961), mestrado em Crop Production - University of Wisconsin - Madison (1973) e doutorado em Agriculture Genetic Resources Conservation - University of Reading (1984).  Pesquisador A do Centro Nacional de Pesquisa em Recursos Genéticos e Biotecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Tem experiência na área de conservação de recursos genéticos vegetais, com ênfase em manejo e conservação a longo prazo de sementes ortodoxas; desenvolvimento de atividades de pesquisa em fatores abióticos que influenciam as condições da qualidade do germoplasma semente; curador dos bancos ativos de germoplasma de cereais do sistema de curadorias da Embrapa Recursos Genéticos. Experiência de duas décadas de gestão do Sistema Embrapa de Recursos Genéticos Vegetal, Animal e Microbiano. Experiência de gestão como presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes. Fundadora e presidente da Associação Brasileira de Recursos Genéticos. Coordenadora Técnica e Administrativa do projeto financiado pelo CNPq denominado COLBIOAGRO focando manejo e conservação de recursos genéticos em 19 Unidades da Embrapa. Coordenadora Técnica e Administrativa do projeto financiado pelo Banco Mundial  denominado PROBIO II, em 9 Unidades da Embrapa; foi um projeto a nível nacional envolvendo 8 Instituições do país. Relatório deste projeto publicado em 2017 como Série Embrapa.