OLHARES PARA 2030

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Francisco Matturro

Francisco Matturro

A trajetória da Agrishow como vitrine de tendência e inovações tecnológicas para a agricultura brasileira

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 8 - Decent work and economic growth SDG 9 - Industry, innovation and infrastructure SDG 12 - Responsible consumption and production

O ambiente de negócio quando a Agrishow foi criada em 1993 estava cercado de desafio. O país vivia um descontrole inflacionário inusitado e a economia caminhava sem rumo definido. Era necessário imaginar algo inédito em termos de eventos para a agricultura. Existia uma miríade de feiras no extenso território nacional, mas carecia do conceito de suprir propostas para atender as demandas concretas das cadeias produtivas do agronegócio.

O plano formulado pela Agrishow sugeria um modelo dinâmico de exposição. Os clientes passariam a avaliar o desempenho das novidades apresentadas pelas empresas em termos de produtos e serviços. Esse foi, sem dúvida, o diferencial no planejamento e na organização do evento. Uma sacada estritamente empresarial e comercial, tanto do ponto de vista do vendedor como do comprador das máquinas e implementos.

Na verdade, essa formatação colocava em prática a visão atávica de um setor comprometido com a expansão a todo custo, com potencial para participar do seleto grupo das maiores nações produtoras e exportadoras de alimentos.

Já havia sinais visíveis da musculatura do agronegócio para se aproximar dos Estados Unidos, União Europeia e Argentina, todos localizados em zonas temperadas. A tropicalização dos cultivos, com ciclos diferenciados, abriu as porteiras para aproveitarmos as terras em todas as condições climáticas e edafológicas.

De forma célere, o modelo da Agrishow foi reproduzido com sucesso em diversos polos importantes da produção agropecuária nacional. O relacionamento e a troca de experiência entre os agricultores abriram espaço para a difusão da tecnologia. As empresas aceleraram seus programas de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) para atender a profusão de demandas vindas do campo.

Acompanhar as revoluções tecnológicas

As revoluções tecnológicas no campo, a partir dos anos 1970, sustentaram muitos casos de sucesso apresentados nos quatro cantos do mundo. Tivemos a domesticação do Cerrado, seguida pelo sistema de plantio direto na palha, que ganhou aprimoramento e intensidade na adoção entre os produtores. A área de aplicação dessa tecnologia representa hoje em torno de dois terços da área ocupada pelas culturas anuais. Esse mesmo processo agora sucede em anos recentes na integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF). Tudo isso, com a peculiaridade de acontecer nos trópicos.

A agropecuária sempre foi beneficiada pelas grandes revoluções tecnológicas ocorridas no mundo:

1° – Produção manual à mecanizada, com a máquina a vapor (1760);

2° – Produção manufaturada em massa, com a eletricidade (1850);

3° – Eletrônica, informática, telecomunicação, biotecnologia e nanotecnologia (meados do século XX).

A Revolução Verde, coordenada pelo engenheiro-agrônomo Norman Borlaug, passou a ser muito difundida depois da II Grande Guerra Mundial (1939–1940). Tratava-se de um novo pacote tecnológico baseado na mecanização agrícola, agroquímicos (fertilizantes e defensivos) e sementes melhoradas. As políticas públicas, como o crédito rural, estimularam muito a adoção dessas tecnologias. O surgimento e o próprio trabalho desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na década de 1970, junto com outros órgãos estaduais e privados, engrossaram esse movimento no Brasil.

Em tempos recentes, como fenômeno mundial presente nas mais diferentes atividades econômicas, chega ao campo a chamada Revolução Agro 4.0. É o uso do telefone móvel e fixo, o computador, a televisão, o rádio, o satélite, a internet, os sensores, as redes, o wi-fi e o Big Data.

Esse processo pode ser interpretado como uma continuidade da história desencadeada pela Revolução Verde. De lá para cá, houve um salto monumental na área de PD&I, até então circunscrita praticamente ao hemisfério temperado. Nesse ínterim, com o potencial da sua viçosa produção tropical, aparece a figura original do Brasil.

Se, por um lado, a geração e a acumulação de conhecimento ganham proporções colossais com a biotecnologia e a agricultura de precisão, por outro lado a digitalização acelera a instrumentalização e a conectividade na agricultura inteligente, com o envolvimento de máquinas, robôs, drones, animais, pessoas, plantas, dentre outros.

Esses eventos marcantes, que impactam de forma direta os mercados de bens de capital e serviços, refletem nos negócios praticados nas feiras e exposições.

Não há como descolar a tecnologia da gestão. Quando a primeira muda, automaticamente acontece o mesmo com a segunda. Essa ligação não pode passar sem percepção. Daí a visão da cadeia produtiva do agronegócio e não apenas da agropecuária.

Mundo do Big Data

Há pelo menos 50 anos, existe uma profícua e numerosa produção científica amparada e analisada com resultados de campo nos quatro cantos do planeta. Essa profusão de dados gerada e espalhada em gigantescos bancos de dados, a cada momento, cresce em volume exponencial, com mais fatos e conhecimentos novos. A solução passa pelo desenvolvimento de sistemas inteligentes para administrar o Big Data e na busca de ganho e eficiência pela agricultura.

Pesquisa realizada pelo The Boston Consulting, no final de 2016, entrevistou 50 executivos das maiores companhias do mundo no agronegócio. Os investimentos em P&D alcançaram de US$ 20 a US$ 25 bilhões em 2015, sendo que 75% deles mencionaram como uma tecnologia prioritária a agricultura baseada em dados.

Estudos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam mais de 60 fatores do ambiente que influenciam a produção agropecuária, do ponto de vista do solo, da planta e do clima. Há um amplo envolvimento de assuntos complexos e diversificados, em termos de conhecimento e de prática. Uma recomendação de sucesso, muitas vezes, leva algumas safras de observação para ter validade técnica.

A chamada Agricultura 4.0 associa a agropecuária ao ambiente da quarta revolução tecnológica. A robotização e o uso de drones integram as operações de campo. Já o monitoramento com o emprego de smartphones, tablets e computadores amplifica, moderniza e otimiza os modelos de gestão tradicional de pequenas, médias e grandes plantações. O agricultor acompanha em tempo real a atividade da fazenda, mesmo sem a presença física, com uma vantagem em termos de tempo e de recursos.

Na Agrishow, a Agricultura 4.0 se faz presente na agricultura de precisão. Tecnologias embarcadas em tratores, pulverizadores, colheitadeiras, plantadeiras, distribuidores de fertilizantes, entre outros, representam conjuntos de sistemas eletrônicos inteligentes que se conectam uns com os outros. Isso possibilita maior aquisição, processamento, armazenamento e comunicação de dados. As operações de semeadura, adubação, defesa sanitária e de colheita ganham precisão e padrão.

As áreas de produção agropecuária mais avançadas do país registram máquinas inteligentes monitoradas por GPS para plantio, tratos culturais e colheita. O resultado é economia na aplicação de insumos e ganhos de produtividade.

A cada ano, as empresas expositoras incorporam produtos e serviços ligados à digitalização da automatização da produção agropecuária.

Com novos participantes entrantes no mercado, a conexão e a colaboração entre os agentes atuantes melhoram as prescrições do setor. É o caso da escolha das sementes, do espaçamento adequado e da data de plantio, bem como o diagnóstico de pragas e doenças e a recomendação no uso de fertilizantes. Na inteligência artificial, as soluções ficam mais integradas e facilitam a captação da linguagem do campo.

Horizonte focado no bio

Até 2030, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima em US$ 1 trilhão por ano a contribuição global da biotecnologia. Esse valor está distribuído entre os setores de saúde (US$ 260 bilhões), produção primária (US$ 380 bilhões) e industrial (US$ 420 bilhões). Em torno de 80% dos produtos farmacêuticos passarão a ser desenvolvidos com o uso de biotecnologia.

A Agrishow valoriza as práticas sustentáveis inéditas da agricultura nacional, a tropicalização de cultivos, o plantio direto e a fixação biológica de nitrogênio. Os esforços para os próximos anos estão concentrados na ILPF, bem como na matriz energética limpa, baseada na bioenergia.

Esses são exemplos a serem fortalecidos, pois representam a capacidade inovadora do Brasil. É uma combinação entre a engenhosidade da ciência com a rica base de recursos naturais do país.

Na agenda da Agrishow, cabe incorporar o tema da bioeconomia. Esse ramo da atividade humana busca reunir os setores da economia que utilizam recursos biológicos. A proposta é oferecer soluções coerentes, eficazes e concretas para grandes desafios, como as mudanças climáticas, a substituição de insumos de origem fóssil, a segurança alimentar e a saúde da população.

Junto com o conceito de "ciclo de vida", em paralelo, correm as boas práticas de produção. É o planejamento do descarte, do reúso ou da reciclagem de todos os componentes do produto, até mesmo embalagens, rolhas, rótulos, etc. Portanto, o futuro exigirá tônica na produção de base biológica, com componentes renováveis e de baixo impacto ambiental.

A Agrishow é um espaço apropriado para ser a vitrine das verdadeiras revoluções em curso na biologia. Isso explica a integração entre as indústrias farmacêutica, química, de alimentos, da saúde, da energia e da informação. A bioindústria promete ser a maior indústria do planeta.

Com experiência, capacidade e diversidade biológica, o Brasil é um candidato certo para ocupar lugar de destaque na incipiente bioeconomia. A posição de protagonismo e liderança conquistada no agronegócio deve ser transferida a essa área. Trata-se de um tema de suma importância para quebrar a lógica de que países com economia baseada em recursos naturais e em conhecimento ocupam extremos opostos no eixo do desenvolvimento econômico.

Desenvolvimento Sustentável

Na Agrishow, de uma maneira geral, as empresas expositoras e de serviços envolvidos na sua montagem e funcionamento zelam pelo desenvolvimento sustentável. Os gráficos colhidos ao longo do tempo em termos de faturamento, expositores e visitantes servem para mostrar os progressos conquistados.

A alimentação e a agricultura estão praticamente relacionadas, de forma direta ou indireta, com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A Agrishow contribui para fortalecer a imagem do Brasil neste importante rally em prol do desenvolvimento sustentável.

A Agrishow estimula as empresas expositoras e prestadoras de serviços a adotarem práticas indutoras para o crescimento econômico sustentado, com inclusão social e proteção ambiental. Em suas comunicações e informações externas busca sempre a melhoria da sua imagem e reputação. Esse engajamento faz parte das soluções para os grandes desafios e as vantagens competitivas do agronegócio brasileiro. Com entidade privada, constitui um agente importante no cumprimento dos ODS.

Coerente com a agenda dos ODS, a Agrishow deve reforçar uma visão inclusiva e integrada do que seja progresso sustentável. Para tanto, apresentar os avanços e contribuições do agronegócio brasileiro, em âmbito interno e externo, seja no aumento da renda seja na diminuição da desnutrição.

Um aspecto inteligente dos ODS é a sua complementaridade, de modo que o progresso em uma área não ocorra à custa de outra. Essa foi uma falha frequente no passado. Por isso, no conteúdo da Agrishow, destaca-se a importância do aumento da produção de alimentos, fibras e energia renovável a ser buscado em sintonia com a gestão responsável dos recursos naturais; a mitigação nas emissões de CO2 e o abastecimento de água das populações.

Nesse sentido, são bem-vindas as ações para se aproximar da Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, criada pelo governo brasileiro, em 2016, composta por 16 entidades, em que oito são governamentais e oito da sociedade civil.

Com visão global, a Agrishow está consciente da relevância da conectividade nos tempos correntes. O estrategista Parag Khanna, do Centro de Globalização da Universidade Nacional de Cingapura, é a referência nesse assunto. Para ele: “viabilizada por tecnologias e infraestrutura de transporte e comunicações e por relações de comércio, a conectividade é a parte determinante da amarração com a geografia”. Em cada uma de suas edições, o aumento das visitas de comitivas estrangeiras mostra a dimensão internacional adquirida pela Agrishow.

Francisco Matturro

Agrishow e Associação Brasileira do Agronegócio (Abag)

Graduado em administração de empresas, Francisco Matturro exerceu o cargo de diretor da Marchesan Implementos e Máquinas Agrícolas, foi presidente da CSMIA/ABIMAQ e diretor da ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio. Atualmente exerce o cargo de vice-presidente da Associação e de presidente da AGRISHOW – Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação (biênio 2018/19).