OLHARES PARA 2030

Back

Francisco Turra

Francisco Turra

Mais proteínas e mais segurança alimentar

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 3 - Goog helth and well-being SDG 12 - Responsible consumption and production SDG 17 - Partnerships for the goals

Poucos alimentos são tão acessíveis à população mundial como o ovo.   Baixo custo, sem qualquer impedimento religioso, apreciado por todas as culturas.   Suas propriedades foram reveladas para o mundo e agora todos sabem que faz (muito!) bem à saúde.  É um alimento completo.  E há um grande espaço para expandir seu consumo médio no mundo, que hoje está em 220 unidades anuais. 

Sob outra perspectiva, a carne de frango caminha para se consolidar como a proteína animal mais consumida no mundo, algo que deve ocorrer já na virada da próxima década, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).   Hoje, esse posto é ocupado pela carne suína.  Mas, diferente do que se possa pensar, isso ocorre apenas pelo fato de o consumo de uma proteína crescer em níveis maiores que a outra.  Não há retração.

 O mundo quer e precisa de mais proteína animal.  Com mais renda, o cidadão asiático reduz o espaço do arroz no prato para colocar um corte de ave ou de suíno.  Para os que têm maior poder aquisitivo, entra o corte bovino. A substituição do carboidrato pela proteína é um processo natural e esperado entre nações com elevação do produto interno bruto (PIB) per capita. Em um futuro próximo, o mesmo deverá ocorrer nos países africanos. 

Está aí uma equação complexa.  Se, por um lado, vemos um exponencial crescimento de demanda por proteínas, por outro, há um equilíbrio a se construir entre a oferta e tipo de produtos ofertados, custos de produção e os impactos desse crescimento.

Essa é uma questão que já ganhou a pauta do setor de aves. O Conselho Internacional de Avicultura (IPC, sigla em inglês), que representa 90% da produção mundial de carne de frango e do qual o Brasil é signatário (ocupando a vice-presidência), adotou uma estratégia conjunta de princípios de sustentabilidade para a indústria global do setor. 

Com o objetivo de estabelecer um norte para os princípios já amplamente adotados pela avicultura mundial, os princípios de sustentabilidade estão baseados em três pilares estratégicos: econômico, social e meio ambiente. 

Sob a perspectiva ambiental, o acordo unificado do IPC indica o aprimoramento da eficiência de reprodução, produção de alimentos para animais, gerenciamento de resíduos e emissões, uso sustentável da água, com preservação do bem-estar animal.

Já o pilar social está centrado na segurança alimentar da população e no bem-estar animal, com a oferta de alimentos seguros para o consumo humano, com reduzido risco de patógenos como a Salmonela e o Campylobacter.

Por fim, o pilar econômico vislumbra o crescimento sustentável das agroindústrias do setor, com respeito aos princípios da segurança alimentar e da melhoria da nutrição humana.

Na visão do conselho, a proposta busca assegurar o crescimento contínuo da cadeia produtora de carne de frango.  Esse crescimento, de acordo com a proposta, deve se ajustar às crescentes restrições ambientais e sociais mundiais, em acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDGs, em inglês), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas em 2015.

Os princípios estabelecidos já são amplamente adotados por diversos players da avicultura mundial, como é o caso do Brasil. O que se busca é estabelecer um comportamento padrão na indústria pelo crescimento sustentável.  Produtor de uma das proteínas mais acessíveis no mercado, o setor de carne de frango deve uniformizar sua estratégia global de trabalho, com respeito à segurança alimentar da crescente população mundial e ao meio ambiente.

Esse é um debate que não se restringe ao setor de aves.  Embora inexista uma entidade mundial de suínos (algo que já está em articulação pela Associação Brasileira de Proteína Animal – ABPA e por organizações da Espanha), as mesmas diretrizes também pautam grandes produtoras mundiais do setor sediadas no Brasil. 

Fato é que ambas as cadeias produtivas – avicultura e a suinocultura – já caminham em passos sólidos na direção dos SDGs.  No Brasil, organizações de referência, como a Embrapa Suínos e Aves, investem esforços constantes com objetivos bem traçados na ampliação da melhoria da produtividade, com menor custo e menor impacto ambiental.   Os índices zootécnicos alcançados até aqui colocam o país na vanguarda da pesquisa global.  Nosso status sanitário é nosso passaporte: somos o único grande produtor mundial livre de influenza aviária.  Por aqui, também não enfrentamos questões como peste suína clássica e diarreia suína epidêmica.

Graças à nossa excelência produtiva, alcançamos níveis de oferta de alimentos que permitiram ganhar ampla capacidade competitiva internacional.  Com 13 milhões de toneladas de carne de frango em nossos planteis, ofertamos 42 quilos do produto a cada brasileiro anualmente (um dos maiores índices mundiais) e ainda enviamos 4,3 milhões de toneladas para mais de 150 países nos cinco continentes.  De carne suína são 3,7 milhões de toneladas, com quase 15 quilos anuais para cada brasileiro, e quase 700 mil toneladas embarcadas para 70 países.   E como temos sido eficientes. Com investimentos em genética, uma farta oferta de insumos e uma das mais avançadas estruturas produtivas do planeta, produzimos mais em um menor espaço de tempo, valorizando questões relevantes como a qualidade e o bem-estar animal.

Vários dos mercados para onde seguem nossos produtos sofrem escassez de insumos básicos, como a água.  Milho e soja chegam somente por importação (em grande parte, do Brasil).  A população e o meio ambiente desses países pagariam um preço altíssimo, se a opção fosse o abastecimento de proteínas exclusivamente por vias internas.

Dados do Defra, o departamento de alimentos e desenvolvimento rural do Reino Unido, suportam essa análise.   Segundo o órgão, o frango produzido pelo Brasil emite metade do CO2 das granjas inglesas e francesas.  Mesmo considerando processos de importação, como as emissões no transporte ao velho continente, o produto feito aqui ainda é menos nocivo ao meio ambiente.

Isso mostra que medidas protecionistas impactam mais que balanças comerciais.   O livre comércio equilibra oferta e incentiva a produção em polos onde ela ocorre com mais eficiência.  

Para um mundo que vislumbra alcançar objetivos ambiciosos de desenvolvimento sustentável como os SDGs, o confuso cenário do comércio internacional é preocupante.  Se, por um lado, vemos costuras de acordos entre os mais diversos blocos e países, por outro, ascende uma visão protecionista das relações entre nações com grande poder no jogo global, estimuladas por iniciativas internas de produtores locais.  

Como líder mundial nos embarques de carne de frango e quarto maior exportador de carne suína, o Brasil vive intensamente os desafios que esse cenário impõe.  Em diversos mercados, somos obrigados a cumprir exigências que vão além das legislações impostas à produção interna.

Outros países aplicam tarifas exorbitantes, impraticáveis ao comércio internacional.  Exemplo disso é a Índia, um país em franco crescimento e com uma grande lacuna para o consumo de alimentos, mas com tarifas de importação superiores a 100%.   

E há ainda nações que simplesmente fecham suas portas.  Ao fim de 2017, vencemos um painel que movemos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a Indonésia, justamente pela ausência de justificativas para o bloqueio das importações dos produtos avícolas brasileiros.  Existe a possibilidade do mesmo acontecer em outro grande mercado, a Nigéria.

 O isolacionismo e os bloqueios injustificados sustentados hoje são um claro risco para a sustentabilidade do futuro.  E, neste contexto, a dificuldade enfrentada pelo Mercosul para costurar acordos comerciais é um problema que transborda as fronteiras do bloco.  Seus membros compõe um dos maiores celeiros de alimentos globais, com condições ímpares para a produção de insumos, farta oferta de água e clima adequado para a produção de proteína animal com menor emissão de CO2.  

Uma das projeções da FAO mais conhecida pelos membros do agro do Brasil é que 40% do aumento da futura demanda mundial por alimentos sairá de nossos campos. O desenvolvimento técnico, das boas práticas e dos conceitos de bem-estar animal, as inovações em preservação de recursos hídricos e a farta oferta de alimentos aqui produzidos podem não ser suficientes, entretanto, para o mundo com quase 1 bilhão de famintos.  Isso, por questões muito além dos índices de produtividade.

Se, na política e na diplomacia de tantas nações pelo mundo, continuarem a predominar o pensamento protecionista, milhões continuarão distantes de um quadro sustentável de segurança alimentar.   O interesse  de pequenos grupos não pode subtrair da população o direito básico de ter acesso ao alimento.  Talvez um 18° objetivo devesse fazer parte dos SDGs, e esse ficaria a cargo da OMC: promover o livre fluxo de alimentos.

Francisco Turra

Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA)

Formado em Comunicação Social pela PUC/RS e Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Passo Fundo/RS, atualmente é Presidente Executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal – ABPA, vice-presidente da Associação Latino-americana de Avicultura – ALA e Diretor da Divisão de Produtos de Origem Animal do Departamento de Agronegócios da FIESP.

Deputado Emérito, outorgado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, empossado como membro da Academia Nacional de Agricultura da Sociedade Nacional de Agricultura.

Turra também foi agraciado com o Prêmio Personalidade do Agronegócio, entregue pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), com a Medalha Mérito Apolônio Sales, entregue pelo Ministro da Agricultura, Pecuária e a Abastecimento, Blairo Maggi, e com o Prêmio Carne Forte. Entregue durante a Expomeat.

2010–2014 – Presidente Executivo da União Brasileira de Avicultura UBABEF

2008–2009 – Presidente Executivo da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos

2005–2007 – Vice-Presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, eleito membro do Conselho Superior do Agronegócio da FIESP/SP

2007 – Diretor de Desenvolvimento do BRDE

2003–2006 – Eleito Deputado Federal e Presidente do PP Partido Progressista do Rio Grande do Sul

2000–2003 – Superintendente Executivo do SEBRAE/RS e Diretor Institucional da FIERGS

1998–1999 – Ministro de Estado da Agricultura e Abastecimento

1996–1997 – Presidente da CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento

1995–1996 – Diretor de Desenvolvimento do BANRISUL

1987–1995 – Eleito Deputado Estadual constituinte, reeleito para Deputado Estadual

1976–1986 – Vice-prefeito de Marau-RS e eleito Prefeito de Marau