OLHARES PARA 2030

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Jorge Gerdau Johannpeter

Jorge Gerdau Johannpeter

Oportunidades da crise e parcerias empresariais na construção de uma sociedade sustentável e justa

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 9 - Industry, innovation and infrastructure SDG 10 - Reduced inequalities SDG 17 - Partnerships for the goals

O desenvolvimento da competitividade se dá pelo domínio do conhecimento tecnológico e pela capacitação de equipes, com líderes indicando claramente onde querem chegar. A partir desse preceito, guiamos  nosso propósito de aprimorar a gestão pública brasileira. É indiscutível que os anos passados nos mostram que o setor principal do desenvolvimento, o setor primário, tem na base do seu sucesso o investimento na melhoria de processos de tecnologia e o constante investimento no conhecimento adquirido. Tudo isso passou, e ainda passa, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). É importante que haja esse reconhecimento para que continuemos com o mesmo entusiasmo a buscar novos avanços.

Precisamos manter o investimento na tecnologia. O aumento de produtividade foi obtido exclusivamente por competência do trabalho do uso da ciência e da inovação. Assim, no cenário da Embrapa, é preciso continuar nessa caminhada, integrando-se cada vez mais às necessidades, aperfeiçoando sempre mais suas competências e se ajustando à competitividade internacional, pois sem tecnologia não há futuro.

Ao avaliar o cenário da crise que vivemos nos últimos anos, podemos verificar que a máquina pública brasileira apresenta uma estrutura de custos sociais e a própria estrutura administrativa muito aquém do orçamento de Estado de que dispomos. Estamos acumulando déficits. O país está mais pobre. O Produto Interno Bruto de 2017 sinalizou alguma reação e, agora, o mercado financeiro prevê uma melhora para 2018.

O Banco Mundial indica que, quando a taxa de investimento fica abaixo de 20% do PIB, a economia não cresce mais do que 2%. Logo, precisamos buscar o reequilíbrio entre despesas e geração de receitas. Se os investimentos não forem feitos, continuaremos em dificuldades. Melhorar a eficiência pública é, certamente, um dos desafios mais importantes a serem superados. Nesse cenário, as parcerias com entidades e organizações da sociedade civil são fundamentais.

É crucial que possamos integrar as experiências e os conhecimentos da iniciativa privada e do poder público. Os empresários, muitas vezes, não avaliam as dificuldades por que passam os gestores públicos. No governo, por sua vez, nem sempre há  experiência de mercado ou espaço para  adoção de ferramentas de modernização utilizadas pelas empresas. Mas, no fundo, tanto empresários quanto gestores públicos querem o aumento da eficiência e da competitividade. Por isso, é preciso maximizar o intercâmbio de conhecimentos e concretizar parcerias.

Um exemplo está na experiência do Movimento Brasil Competitivo (MBC), que há 16 anos faz parcerias em busca da melhoria da governança e gestão em governos municipais, estaduais, governo federal e empresas estatais. Os resultados apresentados são excelentes no que diz respeito à melhoria da administração pública, com a diminuição de custos e o aumento da qualidade dos serviços prestados pelo Estado. Esse é um dos caminhos, sem dúvida. 

Ocorreram avanços importantes, mas, ao analisar o país como um todo, identificamos um longo caminho pela frente. Ainda não começamos a absorver totalmente a cultura da governança e da gestão. Não é raro que gestores públicos comecem a implantar processos e acabem os abandonando no meio do caminho por fatores diversos. Com base na experiência do MBC, que trabalhou tecnicamente com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, conseguimos resultados importantes, como o estímulo a uma cultura de inovação e a mudança de procedimentos internos.  A principal ação da cooperação técnica, nesse caso, foi desenvolver a capacidade de analisar os impactos das ações regulatórias da agência nos setores industriais, fomentar o pensamento crítico sobre os processos, além de acolher sugestões de melhorias dos servidores capacitados. Em outra parceria, o governo do estado de Goiás conseguiu passar do 16º lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para o primeiro lugar no Ensino Médio e segundo lugar no Ensino Fundamental, em 2013, promovendo uma série de mudanças na educação local.  Tudo é uma questão de governança e gestão. 

Uma das grandes funções dos governos é estimular instituições que trabalham no desenvolvimento tecnológico, seja por meio de uma empresa como a Embrapa, seja por meio de instituições vinculadas de uma forma ou de outra ao campo da pesquisa. Portanto, o governo tem que ser um agente mobilizador e investidor desses projetos de longo prazo para o desenvolvimento da tecnologia sustentável. 

É decisivo que haja investimento, mas existe também no campo da pesquisa outro aspecto que é o do aprendizado da eficiência e da produtividade. Nossa experiência passada nos ensina isso. Esse conhecimento tem que ser difundido para que se possa obter maiores resultados no desenvolvimento da pesquisa. Temos que delimitar o que foi feito nos anos passados para basear a estratégia, analisar o que se pode fazer melhor, em que áreas se deve continuar investindo. É importante que se planeje com base na experiência passada para um futuro cada vez melhor. Uma pergunta importante é: para se alcançar uma significativa produtividade, quais são os fatores que podem ser aprimorados?

Temos que observar o que o mundo está fazendo. E o que vemos? Vemos países como Estados Unidos, Índia e Alemanha criando uma política na área das tecnologias, a chamada economia digital. Isso já acontece nos setores público e privado. E acredito que não temos opção. Se quisermos um Brasil competitivo, precisamos buscar esses caminhos. São países que já optaram por uma política nacional, assumidamente de tecnologia, inovação e digitalização. Portanto, é urgente que o Brasil tenha um plano abrangente e de Estado para garantir  sua produtividade e sua competitividade. É indiscutível que, comparativamente, o Brasil tem como maior potencial a agricultura, o agronegócio. Por suas condições naturais, o setor primário brasileiro conquistou uma posição única e isso vai continuar por muitos e muitos anos. Por essas condições já atingidas, e pelas conquistas tecnológicas por meio da Embrapa e de outras instituições, é pacífico que alcançaremos o desenvolvimento global do país.

Esse é um motivo de grande orgulho para todos os brasileiros, um exemplo de que somos capazes de ocupar um lugar de destaque no concerto mundial se fizermos  nosso dever de casa.

A tecnologia associada a essa riqueza tem um potencial enorme. Nossa meta é ter eficiência no conjunto ─ no público e no privado. Nossa convicção é de que se melhorarmos em 30% a nossa produtividade, teremos uma oportunidade a mais de gerar superávit primário elevado. Outro ponto fundamental no investimento da eficiência é o avanço na questão da desburocratização. Temos que perseguir o caminho da simplificação, caminhada extremamente importante a ser feita. Temos que descobrir os custos de produção, descobrir quais os fatores que atravancam o desenvolvimento do país. Por isso, as reformas estruturais são tão complexas. Elas exigem profundidade e entendimento.

Portanto, nosso desafio real é perceber  nossa capacidade de investimento, nossa produtividade, nossa eficiência e nossa inovação. Só esse esforço pode nos levar a padrões internacionais e à tão desejada sustentabilidade econômica, política, social, cultural e ambiental.

Jorge Gerdau Johannpeter

Movimento Brasil Competitivo (MBC)

Jorge Gerdau Johannpeter é atualmente membro de Grupo de Controle da Gerdau e um dos acionistas controladores da empresa. Exerceu os cargos de CEO e Presidente do Conselho do Grupo. Com forte atuação na busca pela eficiência e qualidade da gestão nos setores público e privado, é presidente do Conselho Superior do Movimento Brasil Competitivo, presidente emérito do Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade e membro das Academias Internacional e Brasileira da Qualidade. Nas áreas da cultura, sociedade e educação, preside o Conselho da Fundação Iberê Camargo e o Conselho Consultivo da Junior Achievement Brasil, além de ser integrante do Conselho da Parceiros Voluntários e do Conselho de Fundadores do movimento Todos pela Educação.