OLHARES PARA 2030

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Jorge Guimarães

Jorge Guimarães

Inovação na Agricultura: Perspectivas para Avanços da Indústria no Setor

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 12 - Responsible consumption and production SDG 17 - Partnerships for the goals

Avanços recentes da eletroeletrônica e das tecnologias de comunicações (TICs) e uma perceptível convergência dos vários ramos da ciência propiciam, no conjunto, a abertura de novos caminhos para o enfrentamento dos muitos desafios dos tempos atuais, os quais se apresentam de forma interconectada e altamente dependentes de soluções imediatas. De modo geral, tais desafios abrangem toda a gama de setores da sociedade moderna. Em recente artigo no Jornal Zero, o presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, desfilou um grande conjunto de tais desafios com foco na área agropecuária. Nesse setor, “os problemas incluem uma larga e complexa lista de temas agudos, como são as mudanças climáticas com sua ampla e dispersiva capacidade de afetar diversos países a uma só vez; sociedades e economias cada vez mais dependentes de recursos naturais não renováveis e, portanto, centradas no uso de fontes poluidoras enriquecida em produtos da cadeia do carbono; economias interdependentes e intrinsicamente competitivas; crescente urbanização e envelhecimento dos cidadãos; sociedades mais educadas e mais exigentes; elevados índices de diversidade cultural e inúmeros desafios de governança, entre outros”.

No conjunto, esses desafios, antes pouco evidentes e surgidos mais recentemente na sociedade atual, requerem aplicação urgente de novos conhecimentos e das engenhosas inovações que vão se tornando disponíveis e cujas aplicações mostram-se capazes de possibilitar a superação dos desafios mencionados. 

Enfretamento dos Desafios

Para o enfrentamento desses desafios há que se considerar o extraordinário crescimento recente de inúmeras ferramentas tecnológicas, em que um considerável número de novos conhecimentos vêm possibilitando vislumbrar avanços de desenvolvimento técnico-científico ocorrendo  em ritmo exponencial. Esses avanços têm como base a redução das distâncias conceituais que existiam no âmbito das ciências básicas, eliminando, continuamente, as diferenças antes existentes como barreiras, entre física, química e biologia, avanços facilitados ademais pelos extraordinários progressos na informática e na computação, por sua vez facilitados por aplicações específicas da matemática aplicada. A geração de tais conhecimentos vem permitindo compreensão facilitada da complexidade do Universo e de suas relações no mundo natural. Com efeito, os resultados alcançados nos últimos anos na genômica, na proteômica e em seus desdobramentos aplicados vêm gerando gigantescas informações sobre as características moleculares e estruturais de microrganismos, plantas e animais, gerando, por sua vez, grande acúmulo de informações. O acúmulo de tais dados, e outros gerados de forma semelhante a partir de outras fontes experimentais de geração de grandes números, é então trabalhado com o conceito de Big Data. Por sua vez, a utilização de  algoritmos apropriados possibilita gerar a partir dos Big Data a  conectividade necessária ao desenvolvimento de máquinas inteligentes, ou seja, ao uso prático de informações na forma de inteligência artificial e daí à automação e à manufatura avançada (indústria 4.0) com suas utilizações práticas como a impressão 3D para produzir tecidos, órgãos, medicamentos e até mesmo carne sintética. Os desdobramentos alcançam a computação cognitiva e capacidade instrumental de predizer acontecimentos.  O conjunto dessas aplicabilidades, hoje em larga escala disponível até mesmo para monitoração via telefonia móvel, permite plena utilização em vários segmentos tecnológicos. O setor Agro já aplica parte desse arsenal tecnológico no uso de máquinas para plantio controlado, análise das características do solo, técnicas modernas de irrigação e em colheitadeiras automatizadas, pilotadas sem comando técnico manual, dando consistência e aplicabilidade ao conceito de agricultura de precisão.  Uma grande preocupação é com a formação dos profissionais para lidarem, conviverem e comandarem esse novo arsenal instrumental que requer contínua adaptabilidade aos novos conhecimentos.

O papel da Embrapii no Fomento à Inovação no Setor Agro

A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) é uma instituição privada com status de Organização Social que opera, mediante Contrato de Gestão, com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), com o Ministério da Educação (MEC) e, a partir de 2018, também com o Ministério da Saúde, o financiamento a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) de grupos selecionados de Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) com empresas industriais.

A Embrapii é uma organização nova no cenário das entidades promotoras do suporte à pesquisa no Brasil, tendo por distinção o fomento exclusivo à inovação industrial. Criada em dezembro de 2013, passou a operar efetivamente no final de 2014, selecionando, mediante chamadas públicas por editais, centros e grupos de PD&I vinculados a universidades e outras ICTs, públicas ou privadas (estas sem fins lucrativos), com capacidade técnica para resolver demandas das empresas por soluções tecnológicas com ênfase na inovação. Os grupos selecionados tornam-se Unidades Embrapii (UE) e seus projetos com empresas passam a ser financiados sem reembolso, em até 1/3 do valor negociado. A seleção das UEs tem como requisitos:

  1. Reconhecida capacidade técnica focada em temática específica de desenvolvimento de projetos de P&D inovadores;
  2. Infraestrutura física e de pessoal: recursos humanos qualificados, instalações físicas e equipamentos preexistentes;
  3. Histórico de desenvolvimento de projetos de P&D com foco nas demandas de empresas;
  4. Demonstração de faturamento mínimo proveniente de recursos de empresas nos três anos que antecedem à candidatura junto à Embrapii;
  5. Experiência na gestão profissional, cobrindo tanto a gestão técnica como financeira de projetos tecnológicos;
  6. Capacidade de prospecção proativa de projetos e mapeamento de potenciais clientes.

Além de tais exigências, as UEs assumem compromisso, por contrato, de aceitarem avaliação permanente com base em metas de desempenho. As propostas submetidas à Embrapii são avaliadas por comitês de especialistas oriundos dos setores empresarial e acadêmico com experiência em PD&I e também nos temas das propostas. Para serem submetidas à avaliação pelos comitês, as unidades apresentam à Embrapii um Plano de Ação (PA) com duração prevista de seis anos, especificando a estimativa de número de projetos, com quantas empresas, e custo dos projetos previstos para execução em seis anos.

Modelo Operacional

Uma vez selecionada, a UE já recebe parte dos recursos antecipados pela Embrapii para a Unidade ampliar iniciativas de prospecção, estando também credenciada para negociar e contratar projetos com empresas até o valor total autorizado no PA. Para cada projeto contratado, a Embrapii financia, sem reembolso, até 1/3 do seu valor. Os outros 2/3 são negociados entre a UE e cada empresa, sendo que no mínimo 1/3 provém da empresa. A contrapartida da UE, de até 1/3, inclui usualmente recursos não financeiros, como: recursos humanos,   equipamentos, máquinas, infraestrutura, etc. O restante do custo do projeto constitui o compromisso financeiro mínimo da empresa, o qual pode advir de recursos de financiamentos de agências oficiais, com as quais a Embrapii mantém acordos específicos: BNDES, Finep, Fapes, bancos de desenvolvimento ou recursos de fontes de obrigatoriedade legal para financiar P&D: ANP, Aneel, Lei de Informática e outros. Cabe à UE nessa etapa a discussão e elaboração do projeto em conjunto com a empresa, sem a participação da Embrapii, o que dá flexibilidade e agilidade ao processo de contratação. O conteúdo, o cronograma, as metas, as macroentregas e os compromissos acertados, inclusive quanto à repartição de direitos de propriedade intelectual, passam a ser do conhecimento da Embrapii, tendo em vista o acompanhamento do desenvolvimento do projeto. Cabe também à UE a plena execução do projeto com a participação ou não de pesquisadores da empresa. Um aspecto importante a ser considerado na elaboração dos projetos entre a UE e as empresas é relativo ao estágio de maturidade da tecnologia a ser aplicada no desenvolvimento do projeto. A Embrapii tem como alvo operar na faixa do TRL (Technology Readiness Level) de 3 a 6-7, ou seja, no chamado Vale da Morte dos projetos de PD&I. Assim, a Embrapii não apoia pesquisa básica (TRL 0, 1 e 2), nem na fase de produção em escala industrial (TRL 8 e 9) resultantes dos produtos desenvolvidos.

Vantagens do modelo Embrapii

O modelo operacional da Embrapii oferece vantagens especiais no incentivo à inovação pelas empresas e despertou grande interesse de cooperação. Vários acordos de complementação da operação da agência estão em curso, incluindo BNDES, Finep, Fapesp, FAPSC, Capes, CNPq, Sebrae,  BDMG, BRDE, BNB, Ministério da Saúde. Outros acordos estão em avançada negociação: INPI,  Fundação Araucária, FAPPB, Fapemig, além de outros Ministérios visando reforçar a atuação das UEs e atração de novas empresas.

Toda a operação da Embrapii é monitorada semestralmente por uma Comissão de Acompanhamento do Contrato de Gestão (CACG) nomeada pelos ministérios supervisores. A CACG monitora as ações da Embrapii por um conjunto de 21 indicadores que são, em sua maioria, resultantes do somatório das metas e outros componentes quali-quantitativos assumidos pelas UEs junto à Embrapii tais como atividades de prospecção, contratos assinados, projetos concluídos, propriedade industrial, nível de satisfação das empresas, entre outros.

 Situação atual e onde e como Atuar no Setor Agro

A Embrapii opera hoje (dezembro de 2017) com 42 unidades, distribuídas em 15 unidades da federação, sendo 11 universidades, 17 institutos privados (sendo 9 ISI-Senai) sem fins lucrativos, 5 institutos públicos e 9 polos dos institutos federais. De um modo geral, nas chamadas para seleção de novas UEs a competição tem sido alta (1:10 a 1:15 candidaturas por vaga oferecida), comprovando o interesse das ICTs em participar do modelo operacional da Embrapii. Um total de 30 unidades Embrapii atua nas temáticas mencionadas acima como desafios para o setor Agro. De fato, essas UEs têm foco em projetos em eletroeletrônica e informática, vale dizer na base das TICs. Um outro tanto atua em processos tecnológicos que cobrem o setor. No conjunto, as UEs oferecem soluções tecnológicas avançadas para o enfretamento da maior parte dos mencionados desafios. Os setores de competência das UEs estão assim distribuídos: Tecnologia da Informação e Comunicação (TICs), 14 unidades; Tecnologias Aplicadas,10; Biotecnologia, 7; Materiais e Química, 6; Mecânica e Manufatura, 5. Tal expertise cobre os seguintes temas de inovação industrial: Manufatura Aditiva (Senai CIMATEC e Senai Joinville); Big Data e Análise de Dados ( DCC-UFMG, CEEI-UFCG); IoT (IFSC-USP, CESAR, CPqD, Lactec); Nanotecnologia (IPT-Materiais, CNPEM); Inteligência Artificial (CEEI-UFCG, DCC-UFMG); Produtos Inteligentes (CERTI, Eldorado, Inatel, ISI-SC, IF-SC); BioProdução e Bioeconomia (TECNOGREEN-POLI-USP, IPT-Bio, Embrapa Agroenergia, Esalq-USP, CNPEM); Digitalização da Produção (INDT, TECGRAF-PUC-RJ, IF-PB, ISI-RS); Materiais Avançados (CSEM, IPT-Materiais, CNPEM).

Durante este curto período de três anos, foram contratados 354 projetos com 250 empresas de portes médio e grande, num montante de R$ 600 milhões, com a seguinte distribuição: 33% Embrapii; 20% UEs; 47% Empresas. Os valores contratados são variados, mas a média atual é de R$ 1,7 milhões por projeto e o número de projetos/UE varia de 1 a 20, com média de 8 projetos por unidade. Nesses três anos de operação o modelo operacional da Embrapii tem alcançado crescimento exponencial de suas atividades, comprovando a grande adesão e resposta positiva das empresas industriais.

Jorge Guimarães

Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii)

Graduado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1963), doutorado em Ciências Biológicas (Biologia Molecular) pela Escola Paulista de Medicina-UNIFESP (1972) e Pós-Doutorado pela National Institutes of Health (USA). Atuou como professor na UFRRJ, UNIFESP, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto-SP, na UNICAMP, UFF e UFRJ. Professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisador Sênior do CNPq. Foi Diretor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq) entre 1990 a 1994, Secretário da Secretaria de Tecnologia do MCTIC em 2003, Presidente da CTNBio no período de 2004 a 2006 e Presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) de 2004 a 2015. Recebeu títulos de Professor Emérito da UFRJ em 1999, da UFRRJ em 2007, da UFF em 2012, da UFRGS em 2013 e da PUC/RS em 2015. Recebeu também títulos de Doutor Honoris Causa da University of Nottingham e de diversas universidades brasileiras. Foi agraciado com diversas comendas, com destaque para Grã-Cruz e Comendador da Ordem do Mérito Científico e com a Medalha do Pacificador, concedida pelo Exército Brasileiro. Exerceu por dois períodos a Presidência da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular. Possui larga experiência em pesquisa e orientação na área de Bioquímica. Suas pesquisas focam predominantemente em Química de Proteínas e Enzimologia, atuando principalmente nas áreas de hemostasia e trombose. Atualmente é Diretor Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial – EMBRAPII.