OLHARES PARA 2030

Back

José Nilton Moreira

José Nilton Moreira

A seca e as mudanças no Semiárido brasileiro

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 1 - No poverty SDG 2 - Zero hunger SDG 6 - Clean water and sanitation SDG 13 - Climate action

Nos últimos 6 a 7 anos, o meio rural brasileiro, especialmente do Semiárido, tem enfrentado uma das maiores secas de que se tem notícias, seja considerando a pequena quantidade de precipitação registrada ao longo do período, seja, principalmente, pela má distribuição dessas chuvas desde o ano de 2011. Apesar disso, não se tem observado situações trágicas como ocorria anteriormente em períodos de estiagem. Isso certamente se deve, por um lado, às políticas públicas que atendem a região, a exemplo do Bolsa Família, das aposentadorias rurais, Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), entre outros e, por outro lado, a algumas mudanças de comportamento que se observam nas famílias rurais na convivência com esse fenômeno. Aqui trataremos dessa questão em relatos  de experiências vivenciadas nos últimos anos em trabalhos da Embrapa Semiárido com produtores rurais do sertão nordestino.

A seca, como era de se esperar, tem trazido algumas mudanças importantes nas explorações agrícolas, sobretudo relacionadas às atividades praticadas em cada propriedade. A primeira delas – e que salta aos olhos – é a diminuição da atividade agrícola e a redução de áreas plantadas com cultivos alimentares tradicionais, a exemplo do milho, feijão e mandioca. E como as chamadas culturas de renda (algodão, mamona, sisal, entre outras) também não têm expandido suas áreas, a agricultura tem cedido espaço para a criação de animais, tanto em áreas “em pousio” que deixaram de ser cultivadas e, em alguns casos, com o cultivo de plantas forrageiras com o uso do capim, principalmente o buffel, como também com o cultivo da palma forrageira. A palma tem um diferencial das demais culturas em geral, visto que, permanecendo no campo, aumenta a quantidade a ser colhida sem perder a qualidade da forragem.

É comum no meio rural brasileiro, e em especial no Semiárido, a diversificação das atividades, principalmente entre os agricultores familiares. Não é raro se observar o plantio de três ou quatro culturas ao mesmo tempo e até em consórcio; a criação de bode, ovelha, vaca, porco, galinha, abelha... Com a seca, no entanto, tem se observado uma certa tendência de especialização. Ainda que não se restrinja apenas a uma ou duas atividades, nota-se uma concentração de esforços num ou noutro produto, como de certa forma já ocorre com os médios e grandes produtores. Centrar na produção de leite e fabricação de queijo e até na criação de porcos usando o subproduto do processamento, ou na criação de ovinos para entrega direta aos restaurantes ou, em alguns casos, na criação de abelhas com o apelo do mel produzido na Caatinga, são exemplos dessa tendência de especialização.

Com relação às espécies animais criadas, uma mudança que se observa, em muitos locais, é a tendência de substituição dos caprinos pelos ovinos. Quando se tem a Caatinga como alimentação principal do rebanho, com o criatório em área aberta, com pouco gasto em benfeitorias, a criação que predomina é a de caprinos. Quando se intensifica a produção, com o cercamento da área e plantio de capim, é muito comum a substituição pelo ovino, seja pelo hábito de consumir mais as gramíneas, seja, também, pelo retorno que parece maior, além do menor custo com cercas, já que o ovino é mais fácil de ser contido. Assim, a criação de ovelhas tem tomado o lugar dos caprinos em muitas propriedades. No que diz respeito às gramíneas plantadas, o capim-buffel e o urocloa ou corrente são as espécies que predominam, sendo o buffel usado mais em áreas de melhor fertilidade, e o corrente em solos mais pobres e em áreas com balanço hídrico mais favorável, a exemplo do Agreste.

Na pecuária leiteira também se notam mudanças, com uma tendência de uso de animais mais produtivos. Vacas comuns com uma produção de cinco litros de leite por dia, alimentadas exclusivamente a pasto, em que o criador tirava o leite pensando em cobrir os custos e tendo o bezerro como  “um subproduto” que trazia o principal retorno do sistema, têm sido substituídas por animais mais produtivos, ofertando de 15 a 20 litros diários ou mais, e com uma alimentação fornecida no cocho. Nessa condição, alguns coprodutos, a exemplo do resíduo de cervejaria, têm sido bastante utilizados. Como a mão de obra no campo é cada vez mais escassa, um menor número de animais fica mais fácil de ser manejado com menos trabalhadores. Uma coisa não muito favorável nessa mudança é o fato de esses animais mais produtivos serem bem mais exigentes em termos de alimentação. O que ocorre não somente na pecuária leiteira como na criação de caprinos e ovinos, em que raças mais rústicas e adaptadas têm perdido espaço para animais bem mais exigentes.

Com a intensificação da pecuária, a substituição da vegetação da Caatinga pelo pasto cultivado, usando quase sempre o capim-buffel, tem se verificado em muitas localidades, ainda que isto não se constitua num fato novo e nem, necessariamente, estimulado pela seca. Entretanto, essa mudança tem gerado dois tipos de problema: o primeiro de erosão, em razão das chuvas torrenciais de final de ano, que ocorrem quase sempre com a pastagem raspada e o solo descoberto. O outro problema que tem se observado com a retirada da Caatinga é a incidência de ataque de lagarta nas pastagens, causando grandes prejuízos à atividade. Por outro lado, em anos de seca mais severa, muitos criadores tem se valido de plantas da Caatinga, como o mandacaru, o xique-xique, a macambira, entre outras, que são utilizadas, cada vez com mais frequência, para “socorrer” os rebanhos. Daí a ocorrência de “pastos sujos”, em que não é retirada toda a vegetação quando da implantação da pastagem ou não se faz a limpeza dos pastos, deixando algumas plantas nativas na área.

Essa retirada da Caatinga para o cultivo do capim, que ocorreu em grande escala há alguns anos, principalmente nas grandes propriedades, hoje em dia  diminuiu, ora associado ao fato de se reconhecer esse sistema como pouco sustentável, pela degradação do solo, ora pelo reconhecimento da importância da Caatinga, não só para alimentação dos rebanhos como por suas diversas outras funções. Cabe, ainda, o registro de que os agricultores familiares mais engajados nos movimentos sociais têm recebido formações ao longo dos anos, em que a preocupação com a preservação do bioma tem sido tema recorrente.

É importante destacar o fenômeno do crescimento do plantio da palma no sertão, principalmente com a possibilidade de suplementação de água. Diferentemente da região do Agreste, no Sertão a palma que era plantada como reserva estratégica agora assumiu um “status de cultura” para alimentação permanente dos animais. A palma tem se constituído num cultivo importante até entre agricultores não criadores, como cultura para ser comercializada. E considerando que é uma espécie que tem uma certa tolerância à água salobra,  seu cultivo tem sido associado, em alguns casos, a poços com águas que não se prestam a outros cultivos.

Ainda sobre a vegetação da Caatinga, como se sabe, o extrativismo de lenha, carvão, madeira e mel sempre foi uma fonte importante de recursos em muitas áreas. Com as preocupações mais recentes com a preservação do bioma tem se observado não só o cuidado em manter algumas dessas espécies de plantas como também o cultivo sistemático de algumas delas, a exemplo do umbuzeiro, do maracujá-do-mato, entre outras.  

É sabido que os poços no Semiárido costumam ter baixa vazão e água de baixa qualidade. Por causa das secas, o número de poços perfurados e instalados se multiplicou, com ou sem outorga de uso da água. Primeiro, pela necessidade de dessedentação animal e, depois, para uso com pequena irrigação de hortas e pomares e de culturas forrageiras mais tolerantes ao sal, quando a água se apresenta um tanto mais pesada.

Mesmo as pequenas propriedades costumam ter alguma disponibilidade de terra, que passam a ser “molhadas” sem muita técnica, mas garantindo pequenas áreas verdes que se destacam na paisagem. Se a água tem qualidade e o poço uma vazão superior a 3 a 4 mil litros/hora, começa a surgir uma irrigação já mais estruturada, com uso de fruteiras comercias, predominando os citros, banana, manga e goiaba. Apesar da utilização de poços artesianos ter crescido bastante nos últimos anos, ainda existe um potencial grande a ser explorado, visto que muitos desses poços foram perfurados, mas não chegaram a ser instalados.

Tanto a seca quanto a violência no campo e até a busca por mais opções de lazer têm sido responsáveis pela diminuição da população rural. Pequenos aglomerados urbanos têm surgido e é comum ver-se, nessas localidades, algumas atividades agrícolas, como plantio de pequenas hortas, criações de galinha, porco e até engorda de carneiro no quintal das casas. Em algumas regiões, encontra-se também criação de abelhas sem ferrão, mas já em escala menor.

Ainda que a criação de animais tenha ocupado espaço que antes era destinado às lavouras, a seca trouxe, sem dúvida, uma redução dos rebanhos em muitas áreas até pela necessidade de ajuste à capacidade de suporte das pastagens. É urgente que se criem políticas públicas para recuperação dessas pastagens e consequente fortalecimento da capacidade de suporte animal dos estabelecimentos. Além disso, uma política de apoio (crédito) para restabelecimento do rebanho a partir de animais remanescentes, mais adaptados seria muito bem-vinda.

Por outro lado, se algumas políticas públicas, conforme citado no início, favoreceram de forma decisiva para que os efeitos das secas não fossem tão danosos, como em outros tempos, há de se registrar que outras políticas deixaram muito a desejar, como é o caso do esfacelamento da assistência técnica e extensão rural (ATER) que se observa na quase totalidade dos estados nordestinos. Ainda que esse espaço, em parte, tenha sido ocupado por algumas organizações não governamentais, não resta dúvida de que a região carece de uma extensão rural pública, forte, que prepare melhor os agricultores na convivência com o desafiador fenômeno da seca. Além disso, é urgente que se busque o fortalecimento dos estudos e disseminação dos conhecimentos e tecnologias de manejo e aproveitamento dessa biodiversidade tão castigada com a seca dos últimos anos.

José Nilton Moreira

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Possui graduação em Agronomia pela Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (1981), mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1995) e doutorado em Zootecnia pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (2005). Atualmente é pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Tem experiência na área de Zootecnia, com ênfase em Avaliação, Produção e Conservação de Forragens, atuando principalmente nos seguintes temas: semiárido, ovinos, bovinocultura leiteria, caprino, capim buffel e melancia forrageira.