OLHARES PARA 2030

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Lourival Vilela

Lourival Vilela

Integração lavoura-pecuária-floresta: intensificação sustentável e segurança alimentar

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 13 - Climate action

A demanda crescente por alimentos, bioenergia e produtos florestais, em contraposição à necessidade de redução de desmatamento e mitigação da emissão de gases de efeito estufa (GEEs), exige soluções que permitam incentivar o desenvolvimento socioeconômico sem comprometer a sustentabilidade dos recursos naturais. A intensificação sustentável do uso da terra em áreas agrícolas e pecuárias e o aumento da eficiência dos sistemas de produção podem contribuir para conciliar esses interesses.

A intensificação sustentável atende a um dos grandes desafios da produção de alimentos, que é o de aumentar a produção nas áreas agropecuárias existentes de maneira que proporcione menor pressão ao meio ambiente e não elimine a capacidade de continuar produzindo alimentos no futuro. É nesse contexto que a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) é considerada uma das estratégias-chave para harmonizar essas demandas da sociedade. A ILPF é uma estratégia de produção agropecuária que integra diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais, dentro da mesma área (lavoura-pecuária, lavoura-floresta, pecuária-floresta e lavoura-pecuária-floresta), em cultivo consorciado, em rotação ou sucessão, de forma que haja interação sinérgica (o todo é maior do que a soma das partes) entre os componentes. E pode ser realizada com diferentes culturas e espécies animais, pode ser ajustada às diferentes condições edafoclimática, ao mercado local e ao perfil do produtor (pequeno, médio e grande).

A área atual de ILPF, estimada em 11,5 milhões de hectares, consolida a visão da Embrapa. No seu início, a Embrapa já havia incorporado em sua filosofia de pesquisa a necessidade do desenvolvimento de “sistemas de produção agrícola alternativos, que minimizem os riscos, maximizem os resultados via uma atividade contínua, que sejam capazes de utilizar (ano todo) os recursos terra, capital e, principalmente, mão de obra, tendo o homem como preocupação última”. Assim, a Embrapa deveria contemplar em suas “pesquisas, para produção de alimento e de fibras, todo o espectro agrossilvi-pastoril e socioeconômico” (José Irineu Cabral, primeiro presidente da Embrapa).

No Brasil existem vários sistemas de ILPF, os quais foram modulados de acordo com o perfil e os objetivos da propriedade rural. Além disso, essas diferenças nos sistemas se devem às peculiaridades regionais e da fazenda, tais como: condições de clima e de solo, infraestrutura, experiência do produtor, assistência técnica e tecnologia disponível.

A conversão de sistemas monoculturais (prática dominante) para policulturais deve ser entendida como um processo de mudança gradativa de um modelo produtivo para outro, ambientalmente mais ajustado e mais complexo. A interação, temporal e espacial, dos componentes agrícola, pecuário e florestal aumenta a complexidade de manejo e de gestão que exigem mais conhecimento e experiência dos produtores e técnicos. Essa complexidade resulta das inúmeras interações positivas e negativas entre os componentes dos sistemas (cultivos anuais, pastagem e árvores). E a direção e magnitude dessas interações são determinadas pelos padrões de partição de recursos (luz, água e nutrientes) e da escala de tempo em que esses padrões são medidos.

O interesse crescente na ILPF, apesar de ser mais complexa, apoia-se nos benefícios potenciais que podem ser auferidos pelo sinergismo entre os diferentes componentes do sistema. Como exemplo, destacam-se:

  • Melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo;
  • Maior taxa de infiltração, armazenamento de água no solo e sequestro de carbono decorrente do aumento na matéria orgânica do solo;
  • Redução da erosão e perdas de nutrientes do solo pela maior cobertura vegetal e melhoria da estrutura do solo proporcionada por pastagens produtivas;
  • Redução do déficit de forragem no período de estresses climáticos (seca, geada), um dos principais problemas da pecuária a pasto do país;
  • Maior eficiência de uso de fertilizantes proporcionada pela maior ciclagem de nutrientes por meio dos componentes perenes do sistema (forrageiras e árvores);
  • Redução de algumas doenças, de insetos-praga e de plantas daninhas;
  • Redução de riscos econômicos pela diversificação espacial e temporal de produtos;
  • Mitigação da emissão de GEEs nos sistemas;
  • Redução do custo na recuperação/renovação de pastagens em processo de degradação ou degradadas;
  • Redução do estresse térmico pelo sombreamento das pastagens, influenciando positivamente a reprodução e o desempenho animal (ganho de peso, produção de leite);
  • Agregação de renda pelo produtor com a produção ambientalmente adequada proporcionada pelas diferentes configurações de ILPF;
  • Intensificação e utilização racional dos fatores de produção, com reflexos no aumento de renda das propriedades.

Resultados de pesquisa em ILPF, validados em fazendas comerciais, permitem concluir que a rotação lavoura-pastagem em sistemas de produção de grãos é prática efetiva para reduzir a incidência de plantas daninhas e de doenças. Os impactos positivos sobre a qualidade química, física e biológica do solo são em função do aumento da matéria orgânica e da melhoria da estrutura do solo. Consequentemente, verificam-se, por exemplo, o aumento na capacidade de armazenamento de água e nutrientes no solo, a maior eficiência de uso desses nutrientes e o maior potencial de resposta das lavouras e pastagens à adubação.

O sinergismo verificado entre lavoura e pastagem explicam, por sua vez, os ganhos em produtividade de grãos e carne nesses sistemas mistos. Ademais, esses ganhos em produtividade, pelo seu efeito “poupa-terra” (desmatamento evitado), reduzem potencialmente a pressão para a abertura de novas áreas de vegetação nativa nos biomas Cerrado e Amazônia e minimizam a competição pelo uso da terra entre produção de alimento e de biocombustíveis.

Na pecuária, a integração lavoura-pecuária passa a ser alternativa interessante para viabilizar a correção da fertilidade do solo em pastagens e para minimizar o risco de oscilações no preço dos fertilizantes nos empreendimentos pastoris. Desse modo, a produção pecuária em sistemas de integração lavoura-pecuária, quando comparada à pecuária “exclusiva”, tende a ser mais robusta diante de preços (produto e insumos) e produtividades desfavoráveis, ao mesmo tempo que tende a apresentar melhor resultado econômico quando as condições agronômicas e econômicas são mais favoráveis. O efeito positivo do pasto sobre a cultura de grãos subsequente também pode ser observado, diretamente, pela maior produtividade de grãos, em particular quando ocorre a adubação da pastagem na fase de pecuária.

Do ponto de vista econômico, considere-se o aumento na produtividade das culturas e da pastagem, o uso mais racional de insumos, máquinas e mão de obra, a melhora no fluxo de caixa e o aumento da liquidez. E, em razão da diversificação de atividades na propriedade rural, passa a existir a possibilidade de redução do risco do negócio. Por exemplo, sem irrigação, é possível obter até quatro safras por ano: soja-milho safrinha consorciado com forrageiras-pasto na estação da seca-palhada para cobertura de solo para plantio direto. A possibilidade de se estabelecer uma menor demanda por utilização de insumos como fungicidas, herbicidas e inseticidas, na integração lavoura-pecuária, representa benefícios econômicos a curto prazo, de fácil valoração. De modo semelhante, a ciclagem de nutrientes pelas forrageiras e a maior eficiência no uso desses nutrientes do solo pelas culturas de grãos na integração lavoura-pecuária, em relação ao cultivo solteiro, determina economia no uso de fertilizantes e, consequentemente, redução nos custos de produção.

Em sistemas bem manejados, citam-se como exemplos de impactos positivos da integração lavoura-pecuária: a) aumentos de 15 a 20% na matéria orgânica do solo em relação aos níveis do Cerrado nativo; b) aumento de 90% na eficiência de uso do fósforo, a longo prazo, em comparação à rotação soja-milho; c) ganhos de produtividade de soja de 10 a 15% quando em sucessão a pastagens de maior produtividade e adubadas; d) incrementos médios de produtividade animal na recria-engorda de cerca de quatro vezes (600 kg de peso vivo/ha/ano) em relação à recria-engorda na pecuária tradicional (120 - 150 kg de peso vivo ha/ano); e) incrementos médios de produtividade animal na cria de cerca de três vezes (300 kg de bezerros desmamado/ha/ano) em relação à cria na pecuária tradicional (85 – 110 kg de bezerros desmamado/ha/ano).

Em termos ambientais, observam-se benefícios a médio e longo prazo das pastagens para as culturas de grãos, dentre outros, devido aos impactos positivos sobre a conservação dos recursos naturais e à melhoria na qualidade do solo observada durante a fase de pastagem. Assim, a conservação do solo e da água tende a ser favorecida na integração lavoura-pecuária, uma vez que as perdas de água e de solo são substancialmente menores do que em sistemas de cultivos de grãos, tanto em plantio convencional (com aração de solo) quanto em plantio direto; e assim, proporcionar maior recarga de lençol freático. Em razão dos inúmeros benefícios das forrageiras (gramíneas e leguminosas), elas devem ser consideradas componentes-chave para o desenvolvimento de novos sistemas agropecuários.

Estimativas da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) indicaram que, até 2030, o consumo mundial de madeira em toras aumentará aproximadamente 45% em relação ao consumo em 2005 e atingirá cerca de 2,4 bilhões de m3. Segundo esses estudos, a pergunta fundamental não é se haverá madeira no futuro, mas sim de onde virá, quem a produzirá e como será produzida.

A ILPF é uma alternativa importante para produzir essa madeira e substituir aquelas extraídas de florestas naturais e que, no futuro, serão mais escassas e de acesso limitado. Nesse contexto, a ILPF pode promover a diversificação da atividade agrícola e ou pastoril e florestal, com melhor utilização dos recursos naturais (lavoura, pastagem e floresta) mais eficiente no uso dos recursos ambientais e alternativa ao plantio de árvores comerciais, capaz de permitir a introdução da atividade florestal com continuidade de atividades agrícolas e ou pastoris nas terras cujo  potencial agropecuário é alto, sem com isso deslocar as atividades agropecuárias – ao contrário, mantendo-as em bases sustentáveis, promovendo a agrobiodiversidade, mitigação da emissão de gases de efeito estufa e o bem-estar animal a campo.

A presença de árvores constitui um estrato fixador de carbono atmosférico acima do solo e favorece novos nichos e habitats para o aumento da biodiversidade. E, em sistema de pecuária de corte e leite, neutralizar a emissão de GEEs pelos bovinos em sistemas de integração pecuária-floresta e integração lavoura-pecuária-floresta. Nesse sentido, a Embrapa desenvolveu o conceito “Carne Carbono Neutro”, ou CCN, que é representado por um selo alusivo à produção de bovinos de corte sob sistemas de integração, com a introdução obrigatória do componente arbóreo como diferencial.

Em razão desses benefícios potenciais, a ILPF foi incluída entre as tecnologias que compõem os compromissos voluntários assumidos pelo Brasil na COP-15, que resultaram na criação do Plano Setorial para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, o que se convencionou chamar de Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono). Além disso, em abril de 2013 foi sancionada a Lei nº 12.805, que institui a Política Nacional de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) objetivando fomentar novos modelos de uso da terra, conjugando a sustentabilidade do agronegócio com a preservação ambiental. Em alinhamento com esse cenário, a Embrapa inseriu na sua programação de pesquisa um portfólio ILPF e, conjuntamente com o setor produtivo (Rede Fomento ILPF), estabeleceu um programa de transferência da tecnologia para alavancar sua adoção e implementação nas diferentes regiões do país.

*Artigo rlaborado com apoio do comitê gestor do portfólio de ILPF da Embrapa

Lourival Vilela

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Graduação em Agronomia pela Universidade de Brasília - UNB, em 1977. Mestrado em Agronomia, Área de Concentração Solos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, 1982. Trabalha na Embrapa Cerrados, Planaltina, DF, desde 1977. Iniciou desenvolvendo pesquisa em seleção e melhoramento em soja e participou da seleção da primeira variedade de soja recomendada pela Embrapa para o Cerrado, cv. Doko. E, a partir de 1982, as atividades de pesquisa focaram em correção de solo e adubação em culturas anuais e pastagem. Em 1985 iniciou estudos em recuperação de pastagens degradadas no Cerrado e correção de solo e adubação de pastagens. E, a partir de 1986, iniciou pesquisas em sistema de integração lavoura-pecuária. Atualmente, é Presidente do Portfólio de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) da Embrapa e líder do projeto Rede Transferência de Tecnologias em ILPF.