OLHARES PARA 2030

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Marcelo Vieira

Marcelo Vieira

Evolução da liderança da agricultura brasileira

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 7 - Affordable and clean energy SDG 13 - Climate action SDG 15 - Life on land

O Brasil tem um papel cada vez mais importante na produção mundial de alimentos, biocombustíveis e bioenergia. Com a evolução da tecnologia agropecuária e a intensificação dos processos produtivos, nossa produção se viabiliza como uma das mais sustentáveis do planeta.

Somos hoje o maior exportador líquido de alimentos. No médio prazo, com a intensificação em curso de nossa pecuária e a conversão de áreas de pastagens pouco produtivas em agricultura, podemos expandir muito essa produção. Mantendo a evolução da produtividade das últimas décadas, podemos dobrar ou, até possivelmente, chegar perto de triplicar a produção de alimentos na área atualmente ocupada.

Com a implantação de nosso Código Florestal, devemos restaurar milhões de hectares de áreas de reserva legal e Áreas de Preservação Permanente (APPs), importantes componentes de nossa NDC (sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada) no Acordo do Clima firmado em Paris, em 2015. Isso tornará  nossa agricultura também um importante vetor de redução de emissões. Além disso, prevemos a recuperação de milhões de hectares de pastagens degradadas e uma grande expansão de produção de baixo carbono por meio de modelos de integração lavoura/pecuária/floresta.

O Brasil está comprometido também em dobrar a produção de biocombustíveis e quintuplicar a produção de bioenergia, sendo que já temos uma das matrizes energéticas mais limpas entre as grandes economias. Nosso etanol é o melhor biocombustível mundial em termos de redução de emissões e, quando produzido acoplado à produção de energia de biomassa, chega a evitar mais de 90% das emissões dos combustíveis fósseis, como reconhecem até mesmo as agências ambientais norte-americanas, que o classificam como um biocombustível avançado.

À medida que agricultores atualizam seus modelos de produção, aprendendo com os mais tecnificados e eficientes, e a sucessão no campo atrai gestores e funcionários mais capacitados, agregam-se importantes ganhos de produtividade e competitividade. Nossa agricultura de escala produz alimentos de baixo custo, e seremos cada vez mais o supridor de populações de menor poder aquisitivo no Brasil e no mercado mundial. E somos hoje a principal liderança no desenvolvimento de tecnologias para o ambiente tropical, que no futuro nos permitirá levar um melhor desenvolvimento da agricultura a regiões de ambientes semelhantes como África e partes da Ásia.

A agricultura familiar produzirá cada vez mais alimentos sofisticados, especiarias e produtos que necessitam de foco em qualidade, o que é mais viável em propriedades de pequena escala, como a produção de frutas, hortaliças, legumes, situação em que já podemos ver em torno dos grandes centros consumidores, cujos mercados valorizam esse tipo de produtos.

Um bom exemplo da evolução de novos modelos produtivos é a cafeicultura. Nosso café era conhecido no mercado mundial, até o final do século XX, como um produto de menor qualidade. Nos últimos 25 anos, porém, o setor se reestruturou ao diversificar as regiões produtoras e diferenciar uma multiplicidade de sabores em função da grande diversidade de ambientes produtivos. O café do Brasil assumiu a liderança em qualidade nos principais mercados mundiais, além de ser o líder em produtividade e sustentabilidade entre todos os países produtores.

Existem ainda algumas áreas de nosso ambiente de negócios que necessitam de melhor regulação, por agregarem custos desnecessários a nossa produção. Os avanços da legislação brasileira têm estado no centro das discussões do setor e são fundamentais para a eficiência e a segurança alimentar de nossa produção e para garantir uma liderança na qualidade dos alimentos exportados ao mercado mundial. Tanto leis trabalhistas quanto o sistema tributário precisam de aperfeiçoamento, assim como as diretrizes de financiamento do agronegócio, para atrair mais oportunidades de investimento para o setor. Isso, claro, mantendo a base da regulação para assegurar os direitos fundamentais de nossa população, como, por exemplo, não consentir um agronegócio baseado em trabalhadores imigrantes ilegais sem direitos trabalhistas, como a maioria dos produtores nas economias mais ricas.

Precisamos também remodelar a infraestrutura logística, que é um dos principais gargalos de nosso agronegócio. Esta ainda é baseada em rodovias, nem sempre eficientes, o que agrega um custo muito maior que na maioria dos outros países produtores de alimentos. E é fundamental também rediscutir nossa economia fechada e suas barreiras regulatórias e tributárias a produtos de economias mais competitivas, prejudiciais em negociações de comércio internacional, nas quais devemos garantir o acesso de nossos produtos aos mercados com maior poder aquisitivo.

Desenvolver a liderança da agricultura brasileira é um trabalho permanente e também passa pela sua valorização adequada diante do mercado mundial. É necessário que a liderança em sustentabilidade e responsabilidade social na produção de alimentos seja apresentada cada vez mais aos exigentes consumidores ao redor do mundo, e fazê-lo auxilia na consolidação do Brasil como um dos maiores aliados da segurança alimentar do planeta.

Marcelo Vieira

Sociedade Rural Brasileira (SRB)

Presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), é engenheiro mecânico, produtor de café, cana-de-açúcar e pecuarista em Minas Gerais há cerca de 40 anos. Já foi presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, na sigla em inglês), entidade que ajudou a fundar em 1991. É membro do conselho da Adecoagro, uma das principais empresas de alimentos e energia renovável da América Latina, da qual foi diretor por dez anos.