OLHARES PARA 2030

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Mario Sergio Cutait

Mario Sergio Cutait

A produção agroindustrial diante dos desafios da inovação

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 8 - Decent work and economic growth SDG 12 - Responsible consumption and production

Em 2010,  a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por meio do seu Departamento do Agronegócio, em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), realizou uma ampla pesquisa sobre o setor de alimentação no país, que resultou na publicação Brasil Food Trends 2020. O estudo confirmou que o consumidor brasileiro estava absolutamente alinhado aos cinco agrupamentos de tendências observados nos principais países consumidores do mundo: sensorialidade e prazer; saudabilidade e bem-estar; conveniência e praticidade; confiabilidade e qualidade; sustentabilidade e ética.

Foi demonstrado também como a indústria traduzia esses atributos em suas linhas de produtos, ingredientes, processos, embalagens e na comunicação. Trata-se de um imenso e complexo universo com inúmeras possibilidades. Tínhamos à época um consumidor cada vez mais conectado, mas que procurava se localizar diante de tantas informações disponíveis. O uso da internet era crescente, embora a televisão constasse como a principal fonte de informação acerca dos alimentos, com mais do que o dobro de participação em relação à web, então somente a terceira colocada.

Praticamente oito anos depois, a Fiesp organiza uma atualização da pesquisa com um ferramental mais robusto de novas metodologias para a análise de informações, como o Big Data. A expectativa era a de sermos capazes de compreender de forma mais exata as mudanças no comportamento do consumidor de alimentos ao longo dessa quase uma década. No entanto, constatamos que a palavra exata não se aplica neste caso.

As redes sociais ganharam força impressionante, potencializadas por “influenciadores” capazes de arrebanhar milhões de seguidores com opiniões não necessariamente científicas sobre como e com o que se alimentar. São inúmeros clusters, absolutamente dispersos na rede, organizados individualmente por algum conceito ligado à alimentação, que se conectam ou não entre si. Muitos desses conceitos permanecem e ficarão limitados em termos de alcance, enquanto outros conseguem percolar todos os níveis de renda e se tornam parte das discussões do dia a dia. Quem nunca falou sobre glúten ou lactose, por exemplo? Nessa dinâmica, velhos hábitos perdem força e novos são criados, mas não se sabe por quanto tempo irão perdurar.

Todo esse movimento gera uma reação em cadeia, de forma mais ou menos organizada, com consequência para todo o agronegócio, incluindo não somente as indústrias, mas a produção agropecuária, os insumos nela utilizados, as instituições de pesquisa e, orbitando em torno desse universo, os órgãos reguladores nacionais e internacionais.

Vemos indústrias relativamente pequenas com capacidade (e competência) para participar das oportunidades que se abrem a partir das novas tendências, que muitas vezes são adquiridas por outras, gigantes do mercado mais tradicional, que procuram se localizar e se posicionar, sendo que algumas já começam a tratar os novos nichos de mercado como uma realidade que se torna concreta e veio para ficar.

A reação em cadeia atinge em cheio a área regulatória não só dos governos, mas no intuito de atender aos novos anseios dos consumidores, surgem os padrões privados, como os de sustentabilidade, que são criados em importantes mercados compradores, muitas vezes à revelia da ciência e dos organismos internacionais.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias brotam a reboque desse movimento, e outras se desenvolvem em paralelo e enfrentarão visões preconcebidas dos órgãos reguladores, que procuram se posicionar diante de tanta mudança. Muitos adotam posições pró-ciência, embasados em critérios claros e objetivos. Porém, nesse ambiente de rápidas mudanças, ganha apelo o discurso fácil (e perigoso) ligado ao princípio da precaução, como fazem muitos países europeus. Para a sociedade, esse discurso pode ser bem mais facilmente assimilável do que falar em Codex Alimentarius, OIE, ente outros.

Nesse ambiente, ganha espaço também a “demonização” de determinados ingredientes ou da própria indústria de alimentos como um todo, que passa a ser o “inimigo” a ser combatido.

Aqui entra o sério risco da fragilização da pesquisa, dos critérios técnicos e científicos, dos estudos de bancada, das referências internacionais, para dar lugar a ideologias ou protecionismos revestidos de interesse público.

É fundamental trabalhar a organização das cadeias produtivas, a comunicação com o consumidor, a representação do país nos fóruns internacionais, a maior integração das inúmeras entidades de representação setoriais que obteriam melhores resultados se trabalhassem não somente para o segmento que representam, mas para fortalecer conceitos e estruturas transversais que deem condições para o desenvolvimento sustentável dessa imensa cadeia produtiva.  

Dentro deste conceito, a recuperação da capacidade técnico-científica do Brasil é a grande prioridade, sob o risco de sermos atropelados por posturas preconceituosas em relação ao agronegócio de forma geral e às indústrias de insumos e alimentos em particular, revestidas por um discurso que vem encontrando eco justamente no vácuo deixado por quem deveria ser  protagonista da expansão e do fortalecimento do agronegócio brasileiro, a ciência.  

Mario Sergio Cutait

Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)

Mario Sergio Cutait, nascido em 1960, é formado em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Trabalha desde 1978 na empresa da família, MCassab (São Paulo/SP), e é responsável pela direção das unidades de Nutrição e Saúde animal, bem como o desenvolvimento da Unidade de Produção e abate de tilápias (um projeto inovador e pioneiro em produção em tanques rede de 20X20X5 metros, com capacidade total de 20.000 toneladas/ano).

Nos últimos 15 anos tem trabalhado no interesse de uma melhor representação da cadeia alimentar animal.

Foi Presidente da IFIF (International Feed Industry Federation), Vice Presidente da PeixeBR (Associação Brasileira da Piscicultura), e Presidente do SINDIRAÇÕES (Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal).

Mais recentemente assumiu o cargo de Diretor Titular do Departamento de Agronegócio (DEAGRO) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).