OLHARES PARA 2030

Back

Nilza Patrícia Ramos

Nilza Patrícia Ramos

Biomassa – contribuição brasileira para energia limpa e acessível

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 7 - Affordable and clean energy SDG 9 - Industry, innovation and infrastructure SDG 13 - Climate action

A Agenda 2030 foi proposta pelos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) com o intuito de “atuar de forma colaborativa para direcionar o mundo para um caminho mais sustentável e resiliente”. Na área agrícola, foram acordadas várias ações voltadas para o desenvolvimento sustentável, tendo como base, primeiramente, o combate à pobreza, seguido da preservação ambiental e acesso igualitário aos recursos disponíveis.

O grau de comprometimento de cada país varia, sensivelmente, segundo sua aptidão, nível de desenvolvimento e vulnerabilidade. Assim, os compromissos brasileiros são bastante amplos, com forte tendência de fortalecimento de ações que envolvem o aumento de volume e a melhoria de acesso a alimentos e energia, bem como a conservação de recursos naturais e combate às mudanças climáticas. Isso devido ao caráter agrícola e à extensão nacional.

Uma contribuição de alto impacto inclui o aumento da participação de energias renováveis na atual matriz energética mundial, com grande foco na agroenergia ou agricultura voltada para a geração de energia, que engloba todas as biomassas com potencial energético. Essa ação está alinhada ao objetivo 7 da Agenda 2030, que se compromete em “assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todas e todos”.

O longo histórico de sucesso na produção de biocombustíveis, como etanol e energia elétrica a partir de cana-de-açúcar e, mais recentemente, de biodiesel de soja e sebo foi determinante para a participação brasileira na Agenda 2030. Inclusive, embasaram projeções nacionais mais longas, como a ampliação de cerca de 16% na área plantada e de 36% na produtividade de colmos da cana-de-açúcar até 2050, voltada para energia e açúcar, e ainda, 36% na área de soja até 2030, para atender a demanda de alimento na forma de proteína, mas que indiretamente disponibilizará o óleo vegetal para vários fins e, dentre eles, para biocombustível.

Essas projeções coincidem com a sinalização de continuidade em médio prazo do uso significativo de biocombustíveis líquidos, para uso veicular, dada pelo Ministério das Minas e Energia ao propor a política pública RenovaBio. Proposta com três objetivos: a) subsidiar o cumprimento da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) no acordo de Paris; b) promover a adequada expansão dos biocombustíveis na matriz energética, com ênfase na regularidade de abastecimento de combustíveis; e c) assegurar previsibilidade para o mercado de combustíveis, induzindo ganhos de eficiência energética e de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) na produção, comercialização e uso de biocombustíveis. Para período mais longo, como 2050, esperam-se alternativas, como a célula combustível, que poderá ser baseada em etanol.  

A garantia e o incentivo à continuidade no uso de biocombustíveis, por parte dos gestores públicos, tranquilizam os investimentos e ações privadas, porém não aliviam o grande desafio do país em produzir biomassa, frente à queda de produtividade observada na última década. A Embrapa tem investido inteligência e recursos para encarar esse desafio e atender às expectativas de maior oferta de produtos nas cadeias energéticas, porém a entrega desses produtos provenientes de sistemas mais sustentáveis ainda é uma meta a se concretizar.

O conceito de sustentabilidade envolve em sua essência o “atendimento às necessidades atuais sem comprometer as gerações futuras, com pilares econômicos, sociais e ambientais”. Assim, fica claro que todos os cuidados e práticas de menor impacto aos recursos naturais e às comunidades, mas com atendimento às necessidades atuais, devem ser recomendados e aplicados nas cadeias produtivas, resumindo-se em eficiência produtiva, ambiental e social.

Vários setores agropecuários já enxergam essa mudança na forma de produção como pré-requisito para se manterem competitivos no futuro. Entretanto, a movimentação nesse sentido ainda é lenta e enfrenta barreiras culturais. A exigência da certificação ambiental da produção está acelerando esse processo, com exigências de melhores balanços de carbono, água, energia e bem-estar social para produtos energéticos, porém essa iniciativa não é suficiente para garantir “o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todas e todos” proposto na Agenda 2030.

A combinação de estratégias em duas frentes, uma com ações de menor custo e impacto, mas com difusão em curto prazo, e outra com ações mais sofisticadas e de alto impacto, com uso no médio e longo prazo, será indispensável para se disponibilizar energia proveniente de sistemas sustentáveis a todos. Nas ações de curto prazo, a atenção deve ser maior à fase agrícola, que pode aumentar o rendimento e, ao mesmo tempo, concentra entre 70% e 85% das emissões de carbono em análises de ciclo de vida (ACV) de biocombustíveis. Enquanto as ações de médio e longo prazo podem abarcar mudanças mais significativas nas fases agrícolas e industriais e ainda na cadeia de suprimentos (fertilizantes, pesticidas, máquinas, reagentes, enzimas e mesmo máquinas tanto agrícolas como industriais).

As ações de curto prazo se baseariam em mudanças já testadas e de sucesso, como a regionalização de sistemas produtivos e o uso de sistemas integrados de culturas, tanto por consórcio, como por rotação e sucessão. Esses sistemas incrementam o rendimento por área e se beneficiam do compartilhamento dos insumos. Como exemplos o uso da soja (sucessão) e do milho (consórcio ou sucessão) à cana-de-açúcar, pra geração de etanol e biodiesel. Também o uso da irrigação pode dar um salto em rendimento, mas deve ser tratado com cautela, a depender da região.

Outras práticas de resultado positivo e já disponíveis, que necessitam apenas de regionalizações, são as chamadas “conservacionistas”. Como exemplo a redução no uso de agroquímicos em função do controle integrado de pragas e doenças e mesmo do aproveitamento racional de resíduos. Também a menor movimentação do solo, no preparo e plantio, pode reduzir as emissões de CO2 em até 20%, em relação à prática convencional, e ainda a mudança no perfil dos fertilizantes, com uso de fontes mais eficientes e menos emissoras como nitrato de cálcio, nitrato de amônio, ureia protegida, fertilizantes com inibidores de nitrificação e organominerais. Aliadas a essas práticas, o maior controle de processos agrícolas e o uso de ferramentas de contabilidade do desempenho ambiental podem ser adotadas, desde já, pelos produtores, necessitando apenas de otimizações, maior divulgação e capacitação.

Na estratégia de médio e longo prazo, mas com expectativa de grandes impactos sobre produtividade e sustentabilidade, deverão ser aplicados os novos conceitos propostos pelas áreas da Bioeconomia e da Agricultura de Precisão Avançada. Essas áreas contribuirão para avanços significativos no melhor aproveitamento dos recursos e na disponibilização de produtos com menor impacto ambiental.

Nesses termos, o uso da biotecnologia no melhoramento genético permitirá o cultivo de plantas e microrganismos com algum grau de tolerância aos estresses bióticos e abióticos (seca, frio, doenças e pragas). Também são esperados ganhos nos teores de fibras, açúcares e óleo. O tempo de obtenção desses genótipos pode ser um entrave, mas são esperadas reduções significativas com o uso de técnicas de modificação genéticas (OGMs) e de ferramentas mais modernas, como a edição de genes (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), que permitirá recortar e alterar o código genético em pontos específicos de interesse. Entretanto, as equipes e os recursos devem ser consolidados e fomentados imediatamente para que os ganhos comecem a ser usufruídos até 2030.

A preocupação com os insumos e seus impactos também está no radar da pesquisa, com direcionamento para o uso de ativos biológicos como promotores de crescimento, fixadores de nitrogênio, controladores de pragas, doenças e mesmo plantas daninhas. Essa tecnologia está em evolução, com casos de sucesso na área de pragas e doenças, mas com necessidade de maiores pesquisas nas demais áreas. Os olhos das grandes empresas de insumos estão voltados para o uso desses ativos, sinalizando que têm uma preocupação com os impactos ambientais de seus produtos e que o uso de insumos biológicos será forte aliado rumo às cadeias agrícolas mais sustentáveis.

O sucesso no uso dos ativos biológicos dependerá não apenas dos resultados favoráveis de desempenho produtivo e ambiental, mas também da comunicação junto ao setor produtivo. Isso porque o setor agroindustrial ainda é bastante conservador. Assim, identifica-se que serão necessárias novas técnicas de comunicação que não se restrinjam às divulgações baseadas em resultados visuais, como os mostrados em dias de campo e feiras, mas que mostrem efeitos de longo prazo a partir do monitoramento de parâmetros. Para isso, novas ferramentas de monitoramento de áreas deverão ser disponibilizadas a custos acessíveis.

Atualmente, o conceito de digital farming já vem se desenvolvendo como modelo de sucesso futuro. Em que as propriedades utilizarão justamente grande conjunto de parâmetros monitorados ao longo do tempo, para a tomada de decisões a respeito de manejo e uso da terra. Esse conceito sinaliza o interesse em automação associada com a agricultura de precisão, tecnologias da informação e comunicação, em sintonia com sistemas de produção agrícolas e suas relações com o uso dos recursos naturais. Esse conceito já vem impactando as decisões em várias escalas de produção na Europa e EUA, com expectativas de resultados robustos até 2030, em que a ausência de ferramentas de precisão e monitoramento de dados, modelagem e antecipação de situações-problema poderão inviabilizar a competitividade dos negócios.

O entendimento e a avaliação da eficiência produtiva e de limites de capacidade de resposta das culturas, por ambientes de produção, também deverão evoluir até 2030. O conceito de yield gap analysis já existe e vem se difundindo no meio técnico-científico, podendo no futuro se associar à agricultura de precisão na identificação de variáveis limitantes de produtividade, envolvendo, além das informações clássicas de solo e planta, informações da comunidade microbiana e suas interações ambientais, no que se chamaria de agricultura de precisão avançada. Entretanto, o conhecimento a respeito das funções dessas comunidades, nos mais variados ambientes produtivos, e suas interações e sobrevivência nos sistemas agrícolas e seus insumos, ainda está longe de ser suficiente para recomendações de manejo, o que atrasa as inovações nessa área.

Grandes empresas do agronegócio mundial também estão adotando a ideia da “descarbonização” de seus produtos e construindo banco de dados para análises mais sofisticadas de fatores de produção (Big Data). Assim, a associação entre o entendimento a respeito dos limites de produção de cada ambiente e as formas de superá-los, com o monitoramento de informações das digital farmings e aplicação de tecnologias de maior eficiência produtiva e ambiental, será a grande oportunidade da agricultura do futuro, com melhor uso da terra e consequente “descarbonização” de cadeias produtivas.

Todas essas evoluções só se desenvolverão e disseminarão, em escala, se um ponto-chave for atingido, que envolve a maior integração entre as nações, com aumento de parcerias técnicas e científicas tanto bilaterais, mas principalmente em blocos ou consórcios. Essa união pode acelerar os avanços e principalmente melhorar o aproveitamento dos recursos humanos e financeiros. Reforçando a proposta da própria Agenda 2030, que foi construída para que os países colaborem mutuamente para o atingimento dos objetivos de desenvolvimento sustentável propostos. 

Nilza Patrícia Ramos

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Graduada em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP/Jaboticabal (1998), Especialização em produção Vegetal pelo Instituto Agronômico de Campinas - IAC (1999), mestrado em Agronomia (Produção e Tecnologia de Sementes) pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP/Jaboticabal (2001) e doutorado em Agronomia (Fitotecnia) pela Universidade de São Paulo -ESALQ/USP-Piracicaba (2004). Atualmente é pesquisadora em Produção de Biomassa e Agroenergia da Empresa na Embrapa Meio Ambiente. Possui experiência em Manejo e Produção de cana-de-açúcar, milho, soja e girassol. Coordena projetos envolvendo produtividade e desempenho ambiental de culturas energéticas.