OLHARES PARA 2030

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Sérgio Augusto Morais Carbonell Luis Augusto Barbosa Cortez Lilian Cristina Anefalos Luis Fernando Ceribelli Madi Ricardo Baldassin Junior

Sérgio Augusto Morais Carbonell | Luis Augusto Barbosa Cortez | Lilian Cristina Anefalos | Luis Fernando Ceribelli Madi | Ricardo Baldassin Junior

Agropolo Campinas-Brasil: uma ferramenta de inovação em benefício da agricultura tropical do futuro

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 9 - Industry, innovation and infrastructure SDG 15 - Life on land SDG 17 - Partnerships for the goals

As projeções da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) demonstram que em 2050 teremos mais de 2,3 bilhões de pessoas vivendo na Terra, que associado a outros fatores (urbanização, aumento da renda, crescimento econômico, aumento na demanda de alimentos processados, dentre outros), principalmente em países em desenvolvimento, provocará um aumento na demanda por alimentos em cerca de 70%. Por exemplo, a demanda anual de cereais deverá subir dos atuais 2,1 bilhões para 3 bilhões de toneladas, e de carne de 200 milhões para 470 milhões de toneladas.

Para atender a esse aumento na produção de alimentos, estima-se que serão necessários mais 70 milhões de hectares de terra arável, das quais cerca de 120 milhões de hectares deverão vir de países em desenvolvimento (América Latina e África) e 50 milhões de hectares deverão ser poupados nos países desenvolvidos.

Nesse contexto, umas das principais perguntas é: como alimentaremos o mundo nos próximos anos, não somente produzindo alimentos, mas sobretudo protegendo o meio ambiente e garantindo o desenvolvimento social?

Qual o papel do Brasil nesse cenário?

O Brasil tem vocação e experiência em agricultura tropical de larga escala, para a qual são dedicados cerca de 61 milhões de hectares para a agricultura e florestas plantadas (7,1% do território), tornando-se o segundo maior exportador mundial de alimentos, ficando atrás somente dos Estados Unidos.

Essa dimensão é fruto da abundância de terras férteis aráveis e condições edafoclimáticas favoráveis, mas também de políticas nacionais favoráveis, um empresariado competente, recentes aumentos dos investimentos no campo e uma pesquisa científica de ponta.

Nas últimas décadas, o Brasil observou avanços importantes na produção agrícola e, principalmente, na produtividade. Por exemplo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de grãos saltou de 38,8 milhões de toneladas (1974) para 187,1 milhões de toneladas (2016) e a produtividade média nacional de 1,29 tonelada/ha para 3,28 toneladas/ha, respectivamente. No caso da cana-de-açúcar, a mais importante cultura agrícola nacional, no mesmo período, a produção saltou de 95,6 milhões para 768,7 milhões de toneladas e a produtividade de 46,5 toneladas/ha para 75,2 toneladas/ha [1], respectivamente.

Quando observamos a performance global da agricultura, vemos que esses recentes ganhos possibilitaram ao Brasil assumir um lugar de destaque no cenário mundial. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês), o Brasil ocupa a 12a posição, dentre 172 países avaliados, quando avaliado o indicador Total Factor Productivity (TFP) [2], que de modo geral avalia os ganhos de produtividade agrícola.

No que compete à disponibilidade de terra, em face do potencial de expansão sustentável da produção agrícola, segundo estimativas da FAO, considerando somente as terras consideradas ótimas (prime land), estima-se um potencial de 1,3 bilhão de hectares, considerando somente a América Latina (307 milhões de hectares) e a África Subsaariana (287 milhões de hectares).

No Brasil, quando avaliamos o uso da terra, hoje a agricultura e a pecuária somam cerca de 260 milhões de hectares. Destes, apenas cerca de 1/4 é empregado na agricultura, sendo os demais ocupados pela pecuária, majoritariamente desenvolvida de forma extensiva. Isso significa que, se tivermos uma redução da taxa de ocupação de 50%, ou seja, de 1 cabeça/ha para 0,5 cabeça/ha, seria possível liberar cerca de 100 milhões de hectares, que seria suficiente para absorver cerca de 83,3% da expansão agrícola projetada pela FAO nos países em desenvolvimento, ou ainda, superar em 30 milhões de hectares a demanda de terra para 2050.

Desta, é possível ver que o Brasil terá um papel crucial e importante na produção mundial de alimentos.

Quais os grandes desafios e como deverá ser a agricultura do futuro?

Certamente, a forma como produziremos alimento amanhã será diferente dos modelos agrícolas atuais.

Hoje, aproximadamente 11% da população mundial (mais de 800 milhões de pessoas) passam fome e a agricultura do futuro terá um papel vital na mudança desse cenário, não apenas atendendo a demanda por alimento, mas garantindo o acesso ao alimento.

A agricultura do futuro terá como grande desafio conciliar a larga escala com a pequena escala; atender as demandas de alimentação humana e animal, e de combustível (food-feed-fuel); mecanizar as atividades de forma eficiente e com baixo impacto; minimizar os impactos ambientais (solo, água e ar); reduzir o uso de fertilizantes, pesticidas e energia, principalmente de origem fósseis, das diferentes atividades; proteger a fauna e a flora; e desenvolver novas técnicas e culturas para atendimento de regiões específicas.

O aumento da produtividade no campo e o uso intensivo e sustentável do solo precisarão ser perseguidos. Precisaremos desenvolver novos modelos de produção fundamentados nas múltiplas culturas; sistemas integrados de produção (por exemplo, sistema lavoura-pecuária-floresta); cultivo em áreas marginais; técnicas sustentáveis de manejo e exploração comercial sustentável da biodiversidade; desenvolvimento de novas variedades (por exemplo, resiliência à seca, resistência a pragas e doenças, etc); uso intensivo da agricultura de precisão; novas tecnologias para plantio, colheita e recolhimento de biomassa; dentre outras.

Para esses novos cenários, precisaremos desenvolver ferramentas analíticas que assegurem a sustentabilidade das diferentes etapas agrícolas, garantindo assim o atingimento das métricas almejadas e a mitigação dos efeitos do aquecimento global.

Importante destacar que os desafios e as oportunidades da agricultura do futuro nos países tropicais (incluindo o Brasil) são totalmente distintos das soluções, alternativas e dos modelos a serem implantados pelos países do Hemisfério Norte. Dessa forma, para transformarmos a agricultura brasileira e nos tornarmos a principal potência mundial, precisaremos ser capazes de quebrar paradigmas e desenvolvermos novas técnicas e tecnologias inovadoras para o campo.

Finalmente, a agricultura do futuro deverá perseguir os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), principalmente no que compete a questões sociais, buscando a erradicação da pobreza, fome zero e agricultura sustentável, saúde e bem-estar, redução das desigualdades, trabalho decente e crescimento econômico e educação de qualidade.

Quais as oportunidades da Bioeconomia?

A Bioeconomia é uma tendência mundial que visa à produção e à transformação de recursos biológicos de forma economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente justa, de modo a atender as necessidades e demandas da sociedade moderna. Dentre suas premissas está a substituição dos produtos de origem fóssil (ou o seu consumo, como nos casos dos biocombustíveis) por bioprodutos (bio-based products). Entretanto, os desafios dessa nova economia não são apenas econômicos (competitividade econômica de produtos), mas também ambientais e sociais. Ou seja, a bioeconomia exige que haja uma maior produção como menos recursos, que os impactos ambientais sejam reduzidos e que sejam gerados mais postos de trabalho e de maior qualidade.

Entretanto, um dos principais desafios é: como agregar todos esses ganhos nos bioprodutos e ainda competir economicamente com os produtos fósseis convencionais no curto e médio prazo?

Como peça-chave, deveremos: aumentar a eficiência produtiva do campo e criar produtos de alto valor agregado, principalmente, através do aproveitamento e transformação de coprodutos agrícolas e industriais.

Isso significa que tem-se, nesse novo cenário, uma grande e real oportunidade para o Brasil se tornar a principal economia em todo o mundo. Entretanto, para alcançarmos esse patamar, precisaremos de novas ideias, soluções inovadoras, novas tecnologias, processos, serviços e novos produtos, ou seja, temos um novo e ainda desconhecido ambiente para a pesquisa e um novo mercado a ser explorado.

Qual o papel da pesquisa científica e tecnológica?

A Ciência é o requisito básico para a inovação. Assim, a pesquisa científica e tecnológica precisará ser capaz de atender as necessidades da sociedade moderna, seja entregando novas soluções ao setor produtivo seja prospectando alternativas para o futuro.

Temos no Brasil um capacitado, robusto e competente ambiente de pesquisa, mas precisamos tornar os esforços investigativos mais eficientes e responsáveis, e acima de tudo, direcioná-los para o atendimento das demandas do setor produtivo. Ademais, uma parte dos esforços da pesquisa aplicada precisa ser direcionada para desenvolver cadeias produtivas completas (from cradle to grave), minimizando assim os riscos do investimento. Isso não significa que devemos deixar de realizar pesquisa básica, pelo contrário, mas essa precisará ser guiada parte pelo estado da arte mundial e parte pelas oportunidades de mercado. Além disso, a pesquisa básica assume um importante papel de atualização e capacitação de pesquisadores seniores e jovens pesquisadores.

Ademais, a pesquisa brasileira precisará deixar de ser individual (muitas vezes impulsionada pela curiosidade do pesquisador) e tornar-se coletiva, multidisciplinar, dinâmica e institucional. Para colhermos os frutos da Bioeconomia, a pesquisa brasileira precisará ter visões de curto, médio e longo prazo, ser capaz de garantir a continuidade ao longo dos anos e estar alinhada às estratégias de desenvolvimento das instituições, dos municípios, das regiões, dos estados e do país.

Os ambientes de educação e pesquisa precisam incorporar nas matrizes curriculares o tema “negócio” e estimular os jovens pesquisadores ao empreendedorismo. As startups e as spin-offs deverão assumir nos próximos anos um papel-chave no campo das inovações disruptivas.

Para que tudo isso ocorra, é crucial aumentarmos os investimentos em pesquisa e desenvolvimento agrícola, assim como aumentar o crédito e os investimentos no campo.

Qual o papel do Estado?

As experiências internacionais demonstram que o Estado tem um papel vital no processo de transformação dos esforços de pesquisa em inovação, assim como no desenvolvimento tecnológico e econômico das empresas.

O Estado precisará implementar políticas públicas de longo prazo de modo a implantar e assegurar programas nacionais estratégicos em pesquisa, ensino e capacitação; implementar ações que permitam uma maior competitividade de tecnologias e produtos renováveis e limpos e de empresas que atuam na Bioeconomia no âmbito nacional e internacional; promover esforços de modo a fortalecer as instituições e capacitar as competências em pesquisa; implementar políticas de flexibilização,  incentivo e auxílio às parcerias público-privadas, dentre outras.

Em suma, o Estado precisará ser forte o suficiente para guiar os esforços em pesquisa e assegurar a manutenção de um ambiente competitivo e favorável para as empresas que atuam na Bioeconomia, mas fraco o suficiente para intervir nas relações institucionais e mercadológicas.

Qual o papel da iniciativa privada e da inovação?

A inovação só existe por meio da iniciativa privada. Os ganhos e benefícios da pesquisa somente viram realidade e são convertidas em produtos, serviços e soluções para a sociedade por meio do setor produtivo, ou seja, pela indústria.

Dessa forma, é crucial intensificar e restabelecer o diálogo e as relações entre a iniciativa privada e as instituições de pesquisa. É necessário alinhar o discurso e os interesses de modo a (re)construir parcerias responsáveis, construtivas e duradouras.

Nesse novo ambiente, a pesquisa brasileira precisará ser multidisciplinar, dinâmica, flexível e, acima de tudo, responsável com prazos, metas e objetivos. Por outro lado, a iniciativa privada precisará aumentar os investimentos, assumir maiores riscos, compartilhar informações estratégicas em prol da pesquisa científica e tecnológica e assegurar parcerias de médio e longo prazo.

Finalmente, as empresas nacionais precisarão mover esforços para agregar valor às commodities agrícolas brasileiras e desenvolver produtos “marca Brasil”, aumentando assim a competitividade da agricultura nacional. Nesse contexto, a criação de ambientes (ecossistemas) e a implantação de políticas que estimulem o nascimento de spin-offs e startups é um elemento-chave.

O Agropolo Campinas-Brasil

O Agropolo Campinas-Brasil nasceu em junho de 2015 como fruto dos esforços de relevantes tomadores de decisão, motivados pelas necessidades de mudanças e oportunidades em Bioeconomia. Campinas foi a cidade escolhida por apresentar todos os ingredientes necessários para criação de um ecossistema inovativo de classe mundial em Bioeconomia, ou seja, uma vasta competência em pesquisa (3º polo nacional em pesquisa e desenvolvimento, de acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes), um importante conglomerado de empresas de base tecnológica (3ª melhor cidade para negócios, de acordo com Urban Systems, 2016), um governo forte (2ª melhor cidade em infraestrutura e gestão dos recursos público, de acordo com Urban Systems, 2016, e Folha de São Paulo, respectivamente) e um ambiente favorável à inovação (5 parques tecnológicos e 3ª melhor cidade para empreender, de acordo com Endeavor).

A governança do Agropolo Campinas-Brasil é liderada por representantes dos Institutos de Pesquisa do Estado da São Paulo da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Instituto Agronômico – IAC, Instituto de Tecnologia de Alimentos – ITAL, Instituto de Zootecnia – IZ e Instituto Biológico – IB), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Secretaria de Economia, Desenvolvimento, Inovação, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, da Prefeitura Municipal de Campinas, do TechnoPark Campinas e do Agropolis International/Montpellier, na França.

Hoje, diversas outras parcerias nacionais e internacionais estão em curso, das quais: Embrapa, Consulado Geral de França em São Paulo, CNPEM-CTBE, Fundação CPqD, CCC&R, Consulado do Reino dos Países Baixos em São Paulo, BE-Basic Foundation/Países Baixos, IAR Pole/França, Fraunhofer IVV/Alemanha, Consórcio New Frontiers in Food (Wagralim/Bélgica, Vitagora/França, Valorial/França e Food Valley/Países Baixos).

Na fase atual (2016–2018), as ações do Agropolo Campinas-Brasil estão concentradas no desenvolvimento de roadmaps tecnológicos em Bioeconomia com foco em 12 áreas estratégicas de desenvolvimento. Essa etapa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) (Programa de Políticas Públicas em Bioeconomia/ PPPBio - Processo 2016/50198-0) e deverá auxiliar as ações de pesquisa e desenvolvimento em Bioeconomia no Estado de São Paulo.

Dentre as ações estratégicas do Agropolo Campinas-Brasil, destacam-se:

i.          Catalisar as parcerias em pesquisa e desenvolvimento tecnológico entre a academia e o setor privado, criando assim um ambiente favorável à inovação;

ii.         Criar parcerias que propiciem ampliar e criar novas fontes de financiamento para o desenvolvimento e inovação tecnológica em Bioeconomia;

iii.        Formar grupos associados de pesquisa, estimulando as parcerias, as joint ventures e os investimentos em Bioeconomia;

iv.        Atrair novos investimentos e acessar novos mercados para as empresas instaladas da região de Campinas;

v.         Criar um ecossistema inovativo de classe mundial de modo a maximizar os nascimentos e as instalações de empresas startups e spin-offs em Campinas;

vi.        Projetar internacionalmente o Agropolo Campinas-Brasil como plataforma de inovação e negócios entre a região de Campinas e o mundo.

[1] A safra 2010 registrou o pico de produtividade de 79,04 toneladas/ha.

[2] Indicador informativo que mede a produtividade agrícola, levando em consideração os inputs (uso da terra, uso da mão de obra, uso de capital e os recursos e materiais em empregados pelas fazendas no campo) e os outputs (produção). Quando os outputs crescem mais rapidamente que os inputs, observam-se ganhos no fator de produtividade total. O TFP é mais abrangente que outros indicadores de produtividade como a produtividade agrícola (t/ha) e o valor adicionado na agropecuária por trabalhador (US$/trabalhador), pois leva em conta uma série de outros fatores empregados na produção.

Sérgio Augusto Morais Carbonell

Agropolo Campinas-Brasil/Instituto Agronômico (IAC)

Pesquisador Científico, Diretor geral do Instituto Agronômico – IAC/APTA-SAA-SP e Presidente da Diretoria Executiva do Agropolo Campinas-Brasil

Luis Augusto Barbosa Cortez

Agropolo Campinas-Brasil

Vice-Presidente da Secretaria Executiva do Agropolo Campinas-Brasil

Lilian Cristina Anefalos

Agropolo Campinas-Brasil/Instituto Agronômico (IAC)

Pesquisadora Científica, Assessora Técnica da Diretoria geral do Instituto Agronômico – IAC/APTA-SAA-SP e Membro da Secretaria Executiva do Agropolo Campinas-Brasil

Luis Fernando Ceribelli Madi

Agropolo Campinas-Brasil/Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital)

Pesquisador Científico, Diretor geral do Instituto de Tecnologia de Alimentos – ITAL/APTA-SAA-SP e Membro da Secretaria Executiva do Agropolo Campinas-Brasil

Ricardo Baldassin Junior

Agropolo Campinas-Brasil

Gerente de Projetos do Agropolo Campinas-Brasil