OLHARES PARA 2030

Convergência tecnológica e de conhecimentos na agricultura

Convergências técnicas-científicas são crescentes nas instituições de pesquisa, empresas e propriedades rurais. Podem ser entendidas como uma integração sinérgica de conhecimentos e tecnologias já disponíveis que possibilitam gerar inovações na produção de bens e serviços por meio da transformação digital, engenharia genética, bioinformática, mercado digital, entre outros.

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Cleber Oliveira Soares

Cleber Oliveira Soares

A pecuária diante das mudanças do clima e da tecnologia

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 9 - Industry, innovation and infrastructure SDG 12 - Responsible consumption and production SDG 13 - Climate action SDG 15 - Life on land

A ONU convoca o Brasil a responder por 40% da demanda suplementar de alimentos para as próximas décadas, especialmente no que se refere ao suprimento de proteína de origem animal. O aumento da produtividade é uma das diretrizes para o incremento da oferta mundial de alimentos, sem a necessidade de abertura e uso de novas áreas. Essa é a tônica da chamada Agricultura Tropical Sustentável. Sob esse enfoque, as instituições de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) brasileiras têm desenvolvido ativos tecnológicos para a produção de carne e leite a pasto – como a intensificação dos sistemas produtivos, a otimização do uso da terra, a disponibilização dos sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta (ILPF), o bem-estar animal, o moderno conceito “Carne Carbono Neutro”, entre outras tecnologias sustentáveis.

Há uma expectativa, para o horizonte de 2050, de 72% do consumo de proteína de origem animal (carne, leite e derivados) ocorrer em países em desenvolvimento, contra os 58% atuais. Essa projeção tem como suporte a expectativa na melhoria de qualidade de vida e renda da população, especialmente na Ásia, América Latina e parte da África, e o fato de o consumo de carne e leite estar associado ao poder aquisitivo do consumidor.

Por sua vez, enquanto há países com consideráveis índices de consumo per capita, disponibilidade de produção e oferta de carne e leite, ou renda que favorecem esse consumo, ainda hoje é necessário alimentar quase 1 bilhão de famintos e reduzir 25 mil óbitos diários no mundo decorrentes da fome. É premente e urgente atender a demanda global por carne, leite, seus derivados e outros alimentos. Para o Brasil, os modelos de produção sustentável e de base biológica são vantagens competitivas, que nos projetam para um protagonismo de futuro próximo.

O Brasil possui uma forma singular de fazer pecuária. Evoluímos muito da década de 1970 para cá. Saltamos, em 45 anos, de uma média nacional de produtividade de carne (peso vivo) de 56 kg/ha/ano para 115 kg/hectare/ano em sistemas extensivos; sob sistemas de ILPF, produzimos hoje 900 kg/ha/ano; enquanto em sistema de alta lotação, também a pasto, chega-se a 2.500 kg/ha/ano. Sob pastagem irrigada pode-se alcançar 4.500 kg/ha/ano.

Atualmente, a pecuária representa 6,8% de todo o PIB brasileiro. Entre 1990 e 2015, houve uma redução da área de pastagens em 12%, enquanto, no mesmo período, a produtividade de carne cresceu 229%. É o efeito poupa-terra na prática! O que explica essa evolução? Desse avanço na produção de carne, 21% ocorreram pela área de pasto e 79% são decorrentes de produtividade animal. Destrinchando este último indicador, averiguamos que o desempenho animal contribui com 38% desse índice, enquanto os outros 62% são provenientes da taxa de lotação. Isso demonstra que a qualidade das pastagens tropicais tem papel estratégico na eficiência da produção animal no Brasil.

CT&I têm contribuído para a evolução dos protocolos de qualidade, desde boas práticas de produção até sistemas de produção integrados, passando por rastreabilidade e certificação. Têm contribuído ainda  com o desenvolvimento de tecnologias portadoras de futuro, como a biotecnologia, a nanotecnologia, a genômica, a proteômica e a bioinformática, e com o desenvolvimento ferramental de tecnologias de informação e comunicação, as chamadas TICs. Não é possível deixar de mencionar os importantes avanços na pecuária de precisão e na economia digital, na eficiência energética dos sistemas produtivos, na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), na recuperação e reconversão de pastagens, e no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis para dentro e para fora da porteira.

É previsível que apenas com a adoção de tecnologias seja possível promover incrementos na produtividade, qualidade, e consequente segurança alimentar e nutricional no país e no mundo. Exemplo disso é o possível salto na produção de carne bovina no Brasil, que pode passar dos atuais 9,5 milhões de toneladas para 24,2 milhões de toneladas, caso sejam adotadas as tecnologias e inovações já disponíveis hoje. E isso sem aumentar em um único hectare a área atualmente ocupada por pastagens.

Responsável por 1/3 de toda a carne exportada no mundo e com mais de 209 milhões de bovinos, o Brasil é a clara demonstração de como a biotecnologia e a inovação são imprescindíveis aos sistemas de produção. Essa área da Ciência tem contribuído sobremaneira para melhorar a produtividade, com o uso crescente de biotécnicas de reprodução animal (inseminação artificial, sexagem de embriões, manipulação de embriões, transferência de embriões, clonagem de animais etc.), a exemplo da bovinocultura, em que cerca de 14,5 milhões de animais já são reproduzidos com o uso dessas biotécnicas, o que equivale a 7% do rebanho brasileiro.

A evolução do uso de painéis de marcadores moleculares para fenótipos produtivos em bovinos de corte e de leite, o uso de formulações de enzimas e microrganismos para melhorar a eficiência digestiva de ruminantes, o uso de seleção genômica associada à aplicação de DEP (Diferença Esperada na Progênie) genômica para acelerar a evolução e o melhoramento genético dos rebanhos e a edição precisa de genes para expressão de caracteres de interesse produtivo e econômico são outras contribuições importantes da biotecnologia para a melhoria de produtividade.

Outro exemplo de como a biotecnologia e a inovação têm contribuído para garantir a segurança alimentar e nutricional, tanto no Brasil quanto em países importadores, tem sido o mapeamento da resistência e susceptibilidade animal às encefalopatias espongiformes transmissíveis, doenças de grande impacto na economia dos países produtores e que muito preocupam a segurança alimentar mundial. Especialmente para a scrapie em ovinos e caprinos, e a encefalopatia espongiforme bovina (EEB), também conhecida como doença da vaca-louca. Essas ferramentas auxiliam não só na seleção genética, como em programas de melhoramento, análises de risco epidemiológico, programas de prevenção e controle dessas e outras doenças. Com isso, o país vem se mantendo com risco insignificante para EEB na Organização Mundial de Saúde Animal.

Mais de 95% dos sistemas de produção de carne e leite no Brasil têm sua base em pastagens, nas quais são demandadas 50 mil toneladas de sementes de forrageiras tropicais, o que representa cerca de 20% do mercado interno formal de sementes, movimentando mais de R$ 1 bilhão por ano. Isso resulta em vantagem comparativa por viabilizar custos de produção e vantagem competitiva, por produzir alimentos seguros e altamente desejados pelo mercado consumidor. A produção a pasto garante, ainda, higidez sanitária e prevenção de problemas importantes, como a EEB. Ademais, fomos reconhecidos em 2018 pela OIE como país livre de febre aftosa com vacinação e rumamos para sermos, em 2025, livre sem vacinação.

A pecuária brasileira é verde. Já utilizamos tecnologias que envolvem bem-estar animal, qualidade da carne e de leite, conservação do solo e da água, mitigação de GEEs, sequestro de carbono e prestação de serviços ambientais em áreas com pastagens. E temos plenas condições de atender às principais demandas globais de sustentabilidade. Com esse enfoque, foi desenvolvido o conceito produtivo “Carne Carbono Neutro”, e outros em construção como o “Leite Carbono Neutro”, a “Carne Brasileira com Baixo Carbono” e diferentes combinações de ILPFs. Mais do que tecnologias, o país desenvolveu uma robusta plataforma multi-institucional para monitoramento das emissões e mitigações de GEEs em diferentes sistemas de produção e região produtivas (Plataforma ABC), com métricas e indicadores próprios para o Brasil.

Os conceitos, os conhecimentos, as práticas e os processos desenvolvidos nos diferentes tipos de sistemas ILPFs oportunizaram aos produtores, técnicos, formuladores de políticas públicas e outros atores o que há de mais moderno em tecnologias para sistemas integrados – tema este no qual o Brasil é vanguardista e líder global. Os ILPFs tiveram seu nascedouro no Brasil interior, em municípios com forte tradição agrícola, e hoje estão em mais de 12 milhões de hectares, com grande potencial de adoção em outros países de clima tropical e subtropical.

Por si só, esses sistemas de ILPF já são inovadores na agropecuária brasileira. Uma realidade que, duas décadas atrás, pensava-se ser muito difícil, para não dizer impossível. Hoje, esse sistema é um dos pilares não só para o incremento de produtividade – pelo efeito poupa/otimiza-terra, de agregação de valor aos produtos –, mas, sobretudo, por mitigar a emissão de gases de efeito estufa (GEEs). É, sem dúvida, uma das mais robustas tecnologias para o futuro sustentável da agropecuária nos trópicos.

No momento em que o mundo inicia o debate de sobretaxação de produtos agrícolas, o Brasil evolui com tecnologias e inovações produtivas sustentáveis que o colocam em posição de protagonismo como potencial grande fornecedor de serviços ambientais. Já se discute no Brasil sobre precificação de carbono em sistemas pecuários. Com os sistemas integrados superavitários em carbono será possível em horizonte de curto prazo (antes de 2030) termos negócios e mercados de carbono a partir da produção pecuária e suas integrações.

É evidente que temos um espaço grande para crescer com a intensificação da produção pecuária sustentável. Mas não tenhamos dúvidas de que poucas nações do mundo, como o Brasil, terão no horizonte 2030 tamanha disponibilidade tecnológica e inovação para produzir e ofertar alimentos, especialmente proteínas de origem animal em quantidade, segurança e qualidade nutricional que o mundo precisa. E, ao mesmo tempo, contribuir para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

Cleber Oliveira Soares

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Médico Veterinário, mestrado em Parasitologia Veterinária e doutorado em Ciências Veterinárias. Pesquisador A da Embrapa desde 2001 lotado no Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (Embrapa Gado de Corte), foi Chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Corte de 2005 a 2010, foi membro titular dos Comitês Assessores Externos (CAE) do Centro de Pesquisa Agropecuária do Pantanal, Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite, da Embrapa Informática Agropecuária, da Embrapa Suínos e Aves. Foi membro da Diretoria do Colégio Brasileiro de Patologia Animal. Foi Secretário Geral da Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária - SBDA . É membro de comitês científicos e técnicos no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Fundação de Amparo à Pesquisa dos Estados de MS e de MT; CAPES, Colégio Brasileiro Argentino de Biotecnologia, Embrapa, INIA-Uruguai, INIA-Venezuela, BIOTECH-SUR, INTA-Argentina dentre outros. É consultor Ad-hoc de revistas científicas nacionais e internacionais, editoras, fundações de amparo a pesquisa nacionais e internacionais, MAPA, MCTI, MDIC, BNDES, CAPES, FINEP, CBAB, ICGEB, FAPESP, FAPEMIG, CGEE, Academia Brasileira de Ciências, Academia de Ciências do México, Banco Mundial, Rede Global de Academias de Ciências e outras agências e autarquias. Membro dos Conselhos Superiores da FUNDECT e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do MS. Membro do Conselho Universitário Superior da Universidade Anhanguera-Uniderp. Membro do Fórum Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de MS. Membro do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável de Campo Grande, MS. Atua como professor colaborador em programas de pós-graduação na UFMS, UnB, UFRRJ, UCDB, UFRPE, UNESP, e outras universidades, com disciplinas na UFMS; e como professor do quadro permanente de pós-graduação da UFMS e da UNB. Tem experiência nas áreas de parasitologia, doenças zoonóticas, biotecnologia, imunologia e genômica aplicada à saúde animal. Tem atuado nos últimos 14 anos em gestão de Ciência, Tecnologia e Inovação para o agronegócio. Foi Membro do Comitê Gestor das Estratégias da Embrapa. Foi Coordenador da Rede Sibratec de Inovação para Insumos em Sanidade Animal do MCTI. Foi Coordenador para as Américas da Rede Global de Pesquisa e Inovação em Sanidade Animal - Star-Idaz. Foi Chefe-Geral do Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte entre janeiro/2011 e julho/2017. É Membro do Conselho Técnico do Instituto Fórum do Futuro. É Diretor Executivo de Inovação e Tecnologia da Embrapa desde julho de 2017.