OLHARES PARA 2030

Convergência tecnológica e de conhecimentos na agricultura

Convergências técnicas-científicas são crescentes nas instituições de pesquisa, empresas e propriedades rurais. Podem ser entendidas como uma integração sinérgica de conhecimentos e tecnologias já disponíveis que possibilitam gerar inovações na produção de bens e serviços por meio da transformação digital, engenharia genética, bioinformática, mercado digital, entre outros.

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Flábio Ribeiro de Araújo

Flábio Ribeiro de Araújo

Sanidade animal: um olhar para o futuro

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 3 - Goog helth and well-being SDG 12 - Responsible consumption and production

Novas projeções demográficas da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que a população mundial chegará a 8,6 bilhões até 2030, um aumento de cerca de 1 bilhão de pessoas. Esse crescimento terá diversos reflexos, como o aumento da demanda por alimentos e as alterações climáticas. Com a globalização da economia mundial, a formação de blocos econômicos proporcionou a redução nas tarifas alfandegárias, o que facilitou a circulação de mercadorias e pessoas. Esses fatores contribuem para que diferentes ecossistemas se aproximem e se sobreponham, facilitando a emergência ou reemergência de enfermidades nas interseções entre os habitats humanos, de animais domésticos e de animais selvagens.

No Brasil, o agronegócio é um dos pilares da economia brasileira. Em 2017, o crescimento do PIB desse setor está estimado em 6,3%. Esse incremento foi impulsionado pelo ramo agrícola, que deve registrar aumento de 9,2% em 2017, enquanto o ramo pecuário deverá ter retração, de 0,4%. Essa tendência no país reflete a demanda mundial por grãos, com consequente substituição de áreas destinadas à pecuária por cultivos. Como resultado, a intensificação da produção animal deverá ser tendência. 

No cenário de intensificação de produção animal, espera-se que patógenos emergentes e reemergentes encontrem condições ideais de disseminação, pelo transporte local e mundial de pessoas e mercadorias. Em novos ambientes, a tendência é que esses patógenos encontrem situações ótimas de multiplicação, pela alta densidade de hospedeiros e condições climáticas favoráveis. Animais importados para o Brasil têm origem de países que convivem com doenças que são exóticas ao nosso território. Um exemplo, em suinocultura, é a importação de material genético de países onde doenças como a síndrome respiratória e reprodutiva e diarreia epidêmica são endêmicas. Nessa perspectiva, investimentos e pesquisa em biosseguridade, quarentenas e diagnóstico serão cada vez mais estratégicos para assegurar a competitividade brasileira.

Alterações recentes em atividades econômicas no Brasil resultaram na exacerbação de pragas, consideradas antes pouco relevantes. Exemplo disso foi a expansão de usinas de cana-de-açúcar para regiões tradicionalmente destinadas à pecuária, com geração de resíduos/subprodutos que são substratos para a multiplicação da mosca-dos-estábulos, Stomoxys calcitrans, em níveis que comprometem a sanidade de bovinos em propriedades adjacentes às usinas. Nesse caso, os prejuízos chegam a 60% nas explorações leiteiras, e, pelo menos, 20% nas explorações de corte. Há relatos recentes também de aumento do número de moscas em plantio direto de soja. Nesse sentido, a industrialização da agricultura tem gerado aumento desses substratos. Em países como a Costa Rica e Austrália, problemas semelhantes também ocorrem em decorrência da industrialização da produção de abacaxi e hortaliças, respectivamente. Tecnologias que permitam o manejo racional de resíduos para controle das moscas, diminuindo o seu impacto sobre o meio ambiente, e explorações pecuárias são objetos de pesquisa da Embrapa.

O exemplo acima demonstra como a mudança de atividade econômica pode ter reflexo direto na sanidade animal. Do mesmo modo, alterações de políticas públicas precisam ser cuidadosamente estudadas, quanto à gestão de risco, para mitigar impactos à sanidade animal. A América do Sul prepara-se para a transição para o status de livre de febre aftosa sem vacinação, com definição de estratégias sub-regionais, dando-se prioridade a ações de cooperação técnicas conducentes ao reconhecimento sanitário nos países que ainda não estão livres da febre aftosa. Análises de risco serão essenciais para alicerçar essa mudança, assim como o aporte tecnológico de métodos de diagnóstico rápido, os quais possam monitorar possíveis circulações virais em condições de campo. Desse modo, deve-se ampliar o investimento em pesquisa para tecnologias que fortaleçam ações de vigilância epidemiológica, uma vez que não se tenha vacinação, uma vigilância altamente eficiente será imprescindível.

Em bovinocultura leiteira, há tendência em aumentar o número de animais produtores de leite nas fazendas, bem como a produtividade por animal, demandando cada vez mais o uso de tecnologias e a utilização de bases de dados com informações sanitárias, reprodutivas, nutricionais e genéticas. Essas informações, quando transformadas em indicadores, proporcionarão uma maior acurácia na tomada de decisão em relação ao aprimoramento do manejo como um todo na fazenda e com menor custo. A introdução de novos sistemas de produção de leite visando principalmente ao bem-estar animal (compost barn), junto com a tecnificação necessária, proporcionará novos desafios sanitários nos rebanhos bovinos leiteiros. Além das características relativas ao sistema de produção, a modernização da legislação obrigou fazendas e indústrias a darem mais atenção aos aspectos relacionados à qualidade do leite.

A evolução das sociedades, neste cenário de economia globalizada, trouxe também preocupações adicionais e um entendimento de que o aumento da produção deve estar alinhado à mitigação de impactos ao meio ambiente. Tecnologias que visam atender esse quesito têm sido incentivadas pelos órgãos de fomento à pesquisa. A Embrapa tem participado dessa tendência, avaliando, dentre outras tecnologias, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, que consiste na exploração de atividades agrícolas, pecuárias e florestais, de forma integrada, em rotação ou sucessão, na mesma área e em épocas diferentes. No âmbito da sanidade animal, a pesquisa tem se voltado para avaliação do impacto da adoção desse sistema sobre patógenos, sobretudo as enfermidades parasitárias.

Outra percepção pública sobre a produção animal é a necessidade do uso mais racional de medicamentos, a fim de reduzir resíduos nos produtos destinados ao consumo humano. Também há uma preocupação com o aumento da resistência a antimicrobianos, devido às estimativas de óbitos relacionados à falta de eficiência dos antibióticos para as próximas décadas. Ao longo das últimas décadas, essa discussão tomou proporções globais e motivou o banimento do uso de antimicrobianos como promotores de crescimento na produção animal intensiva, a exemplo de suínos e aves, em vários países. A tendência é que haja um efeito em cadeia no sentido do banimento e de modificações de manejo em todos os países que produzem carne e que desejam competir no mercado internacional. Isso gera, em primeira instância, uma elevação no custo de produção e uma enorme demanda tecnológica para “compensar” o seu efeito. Avanços no sistema de produção que aumentem a saúde dos rebanhos evitando a ocorrência de doenças e promovam bem-estar animal serão fundamentais nesse processo. O Brasil é signatário da força tarefa internacional e apresentou seu plano de trabalho para os próximos cinco anos recentemente em reunião do Codex Alimentarius na Coreia do Sul. Esse plano é uma estratégia interministerial e congrega esforços dos ministérios da saúde, agricultura e meio ambiente.

Na área de aquicultura, há uma forte tendência de se utilizar probióticos e aditivos naturais por terem diferentes linhas de ação que são efetivas para diferentes patógenos: estimular o sistema imune do organismo criado, estimular o crescimento de microbiota benéfica à saúde dos animais criados e acelerar a mineralização da matéria orgânica, reduzindo a presença de áreas reduzidas nos tanques de cultivo.

As agroindústrias brasileiras se posicionando como gigantes globais de produção de alimentos, com exportação para mais de 150 países, trazem o tema da segurança dos alimentos para o topo da pauta. Alimento seguro é um conceito amplo e passa pelo controle de resíduos físicos, químicos e microbiológicos. Destacam-se os resíduos de antibióticos e outras moléculas que sofrem restrições de mercado como a ractopamina e as tradicionais contaminações microbiológicas. Atualmente a avicultura intensiva brasileira está passando por um período crítico de violação de cargas pela presença de salmonelas. Nessa área, também se criam oportunidades de pesquisa, uma vez que os patógenos se adaptam à produção integrada, demandando constantemente soluções tecnológicas. Alguns sistemas produtivos enfrentam dificuldades em resolver seus problemas e acabam por ter seu comércio internacional interrompido, com consequências econômicas graves. Em suma, o comércio internacional de alimentos em grandes quantidades exige estratégias muito eficientes de garantias da sua qualidade.

Dois outros aspectos que tangenciam os temas de sanidade animal, mas que vêm ganhando força, principalmente na comunidade europeia, são os impactos da sanidade animal na mitigação na emissão de gases de efeito estufa e a nutrição animal como promotor de saúde. Hoje já existem algumas iniciativas que propõem estudos para avaliar como algumas doenças reduzem a produtividade animal e consequentemente aumentariam a emissão de gases, principalmente por ruminantes. Em outro caminho, a nutrição animal é uma das armas que podem ser usadas como alternativa ao uso de antibióticos e antiparasitários, baseando-se no fato de que animais mais bem nutridos têm maior resistência/resiliência às doenças. Esses são aspectos ainda pouco explorados, mas devem entrar no radar da pesquisa e do comércio internacional nos próximos anos.

Para um futuro não muito distante, há um cenário de rápidas mudanças, que implicarão diretamente nas demandas de pesquisa e inovação em sanidade animal. Os novos desafios exigirão das instituições de ciência, tecnologia e inovação a geração de tecnologias, produtos e serviços compatíveis e capazes de alavancar avanços na produção de proteína animal. Da mesma forma, esses avanços deverão ter pleno alinhamento com a defesa sanitária.

Flábio Ribeiro de Araújo

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)