OLHARES PARA 2030

Convergência tecnológica e de conhecimentos na agricultura

Convergências técnicas-científicas são crescentes nas instituições de pesquisa, empresas e propriedades rurais. Podem ser entendidas como uma integração sinérgica de conhecimentos e tecnologias já disponíveis que possibilitam gerar inovações na produção de bens e serviços por meio da transformação digital, engenharia genética, bioinformática, mercado digital, entre outros.

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Virgínia Martins da Matta

Virgínia Martins da Matta

Produção, conservação de alimentos e nutrição: interações e contradições

Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

SDG 2 - Zero hunger SDG 3 - Goog helth and well-being SDG 12 - Responsible consumption and production SDG 15 - Life on land

Uma contribuição para o debate sobre a produção, conservação e transformação dos alimentos, incluindo a sua relação intrínseca com a saúde e a nutrição, suas interações e contradições, precisa ter como ponto de partida o panorama atual da alimentação, principalmente quando se pretende contextualizar a questão baseada nos objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS), em particular o objetivo 2: acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável.

Os dados mostram que o cenário atual da questão alimentar é, por si só, contraditório, considerando que a má nutrição, em todas as suas formas, ainda afeta um terço da população mundial, apesar do progresso significativo verificado no combate à fome nos últimos 25 anos.

De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o número de pessoas subnutridas no mundo atingiu 815 milhões em 2016, um aumento de quase 5% em relação ao ano anterior, representando 11% da população mundial. A desnutrição crônica atinge quase 25% das crianças menores que 5 anos, aumentando o risco de afetar a cognição e o desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a má nutrição e a predominância de dietas de baixa qualidade têm sido observadas, em todos os países, com reflexos na saúde pública, particularmente no aumento do sobrepeso, obesidade e em doenças crônicas associadas à dieta. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), são quase 2 milhões de adultos com sobrepeso/obesidade e cerca de 40 milhões de crianças, menores de 5 anos, com sobrepeso, inclusive em países não desenvolvidos e com alta prevalência de desnutrição. A isso, soma-se, ainda, a deficiência em micronutrientes, que atinge quase 30% da população mundial.

As causas da má nutrição são diversas, complexas e envolvem questões sociais, econômicas, políticas, culturais, ambientais e fisiológicas, podendo ser destacados: acesso insuficiente e/ou não disponibilidade de alimentos seguros, variados e nutritivos; falta de acesso à água potável; ausência de saneamento e de cuidados de saúde; alimentação infantil inadequada; escolhas alimentares inapropriadas e intolerâncias/alergias alimentares.

Para garantir a segurança alimentar e nutricional no mundo e, mais particularmente, nos países não desenvolvidos e em desenvolvimento, é fundamental a interação de diferentes áreas do conhecimento e do envolvimento de uma ampla gama de atores, em ações multidisciplinares e multi-institucionais. Ou seja, uma atuação em todo o sistema agroalimentar, que inclui tanto a produção agropecuária, ao longo de toda a cadeia, quanto as formas de organização para a obtenção e consumo do alimento.

O incremento da produtividade na produção primária já foi considerado como a principal estratégia para aumentar a produção mundial de alimentos e, em última instância, acabar com a fome. E continuará a ser uma das estratégias, aliada, porém, aos estudos de melhoramento que visem à melhoria no valor nutricional e/ou potencialmente funcional das espécies.

Em paralelo, as pesquisas com foco na caracterização e no aproveitamento de matérias-primas da biodiversidade, particularmente em um país como o Brasil, são de extrema relevância. O conhecimento e uso do potencial biológico dos diferentes biomas contribuirá para aumentar tanto a disponibilidade quanto a qualidade dos alimentos ofertados. Ainda há muitos desafios relacionados à disponibilização de tecnologias adequadas às diferentes regiões brasileiras, para que se possa obter alimentos seguros, com qualidade nutricional superior e, ao mesmo tempo, resistentes a doenças e pragas. Estudos nessas linhas contribuirão para o objetivo 15, em particular o 15.5, de reduzir a degradação de habitats naturais, deter a perda de biodiversidade e, até 2020, proteger e evitar a extinção de espécies ameaçadas.

As contradições entre produção de alimentos e saúde com relação às estratégias para se alcançar a segurança alimentar e nutricional, considerando apenas a produção primária, manifestam-se de diferentes formas: no confronto entre os sistemas de produção convencional e agroecológico; no melhoramento e domesticação de espécies em contraponto ao estímulo para o uso de culturas tradicionais; nos grandes conglomerados agrícolas versus a agricultura familiar; na forte resistência, por parte de diferentes segmentos, ao uso de técnicas moleculares de edição de genoma como o CRISPR (potencialmente poderá contribuir para a obtenção de matérias-primas agropecuárias com maior valor nutricional e/ou isenta de compostos alergênicos) ou da biofortificação (alternativa para reduzir as deficiências em micronutrientes). Essas questões, para serem enfrentadas visando atingir o objetivo comum, demandam a interação e não a dissociação das diferentes áreas do conhecimento. Em qualquer vertente, seja em um modelo convencional ou alternativo, o caminho da sustentabilidade nos sistemas produtivos é irreversível e inadiável e requer a participação de todos os atores se tem-se como meta o objetivo 12, de assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.

Com total aderência ao objetivo 12.3, de até 2030 reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita mundial, encontra-se um dos temas de grande relevância na pesquisa e desenvolvimento agropecuárias, essencial para se atingir a segurança alimentar e nutricional, que é o combate às perdas e desperdício de alimentos. As ações nesse sentido abrangem todo o sistema agroalimentar, devendo se iniciar no produtor, passando ao longo da cadeia produtiva e chegando até o consumidor final, seja por meio de boas práticas agrícolas, estudos pós-colheita, desenvolvimento de embalagens, aproveitamento de coprodutos, melhoria dos processos agroindustriais, ou de estratégias de comunicação e informação qualificada para a população.

A agroindustrialização, que possibilita agregar valor às matérias-primas e permite a disponibilização de alimentos em locais distantes das regiões produtoras, e em períodos fora das safras, também se configura como uma estratégia de redução de perdas, quando há excedentes de produção ou matérias-primas rejeitadas pelo mercado, inadequadas para o consumo in natura, entre outros aspectos. E é a industrialização de alimentos, hoje, um dos principais temas de confronto entre a produção de alimentos e a saúde, num momento em que, para que haja uma efetiva melhoria na qualidade da dieta da população, é essencial a interação, a comunicação adequada e a convergência de ações entre as diferentes áreas como agronomia, ecologia, tecnologia de alimentos, engenharia, nutrição, química, bioquímica, medicina, ciências econômicas, sociologia, entre outras.

O mercado de alimentos se apresenta cada dia mais dinâmico, buscando atender às demandas do mercado consumidor e também, em alguma medida, aos órgãos reguladores. A globalização aproxima os mercados e permite o acesso a produtos alimentícios de diferentes origens, assim como a informações sobre os mesmos. Isso, associado ao aumento da capacidade de consumo de uma camada da população e ao estilo de vida moderna, influenciam os hábitos alimentares. As tendências atualmente observadas no segmento agroalimentar são decorrentes de diferentes fatores, como a urbanização crescente, o aumento da expectativa de vida, as novas relações de trabalho e a rapidez no acesso à informação, dentre outros.

Assim, ao mesmo tempo em que há necessidade de uma maior disponibilidade de alimentos para enfrentar a fome e a desnutrição, há todo um mercado que demanda produtos seguros, prontos para o consumo, naturais, saudáveis, nutritivos, saborosos, e que ainda apresentem potencial de contribuir para a prevenção de doenças, que são os alimentos funcionais, cujo mercado global girou em torno de 130 bilhões de dólares em 2015, com uma projeção de crescimento de 92% em 10 anos.

O consumidor, com o acesso crescente à informação, demanda tanto produtos frescos, que aportem conteúdos relevantes de nutrientes e de compostos antioxidantes, quanto produtos industrializados de alta qualidade e/ou direcionados para dietas especiais.

Assim, novos produtos têm sido desenvolvidos com conteúdos reduzidos ou isentos de substâncias que possam causar danos à saúde, quando consumidas em excesso, como, por exemplo, condimentos em substituição ao sal, sucos mistos integrais sem açúcar adicionado, molhos sem gordura; em que um dos grandes desafios é o desenvolvimento de substitutos naturais para o açúcar e o sal. Nessa mesma linha, tem-se o desenvolvimento de corantes, antioxidantes, conservadores à base de extratos vegetais, que têm forte apelo comercial e de saúde. Em outra vertente, há a demanda por alimentos e bebidas direcionados para grupos populacionais específicos, tais como atletas, crianças ou idosos, ou, ainda, produtos isentos de substâncias alergênicas ou responsáveis por intolerâncias alimentares, como glúten, lactose ou proteínas.

Em paralelo, busca-se oferecer alimentos enriquecidos ou combinações de matérias-primas e ingredientes na forma de produtos com propriedades benéficas para a nutrição e a saúde, como biofortificados, bebidas mistas, prebióticos e probióticos, bioativos micro e nanoencapsulados. Adicionalmente, o desenvolvimento e a aplicação de métodos adequados para a avaliação da bioacessibilidade/biodisponibilidade de compostos de interesse nos alimentos se apresenta como um dos caminhos para a compreensão dos mecanismos de ação de substâncias bioativas. E, por fim, a realização de avaliações pré-clínicas e clínicas para comprovação de alegações de nutrição e de funcionalidade dos alimentos. Nessas áreas, tem sido verificada uma forte interação entre a agricultura/tecnologia de alimentos e a saúde/nutrição, demostrando o quanto a cooperação e troca de conhecimento científico são benéficas, podem contribuir para melhores dietas e, potencialmente, com o objetivo 3.4 de até 2030 reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis por meio da prevenção.

Estudos de tendências mostram ainda que, para 2050, haverá uma forte influência da tecnologia da informação, como, por exemplo, o controle do alimento ingerido por aplicativos, a aceitação de comidas “feitas sob demanda”, como o alimento impresso em 3D; o avanço no conhecimento da microbiota humana e o uso de ferramentas ôhmicas como proteômica, metabolômica e nutrigenômica, que levarão à formulação de alimentos de acordo com as necessidades dietéticas individuais. Vários outros temas que têm sido objeto da pesquisa em alimentos continuarão relevantes, tais como o uso de novas fontes proteicas: plantas, carne de laboratório, algas, coprodutos, insetos; o isolamento bioguiado de compostos com atividade biológica; o uso de tecnologias limpas, entre outros.

Ainda na linha da “personalização” ou “individualização” do alimento, verifica-se o crescimento dos mercados de nicho, que atendem a demandas específicas dos consumidores, em paralelo à redução de mercados das grandes marcas produtoras de alimentos. Acredita-se que a ciência e tecnologia de alimentos, em conjunto com várias outras áreas, serão capazes de formular o melhor perfil nutricional para cada grupo demográfico, bem como para cada indivíduo, porém, ao mesmo tempo, os alimentos frescos, tradicionais e étnicos continuarão a ser demandados.

Percebe-se uma tendência a se atingir sistemas agroalimentares mais sustentáveis, aí incluídos a produção agrícola, pós-colheita, processamento e conservação, distribuição e consumo, tendo-se sempre como foco o objetivo de nutrir, alimentar e propiciar bem-estar e saúde às pessoas, minimizando os pontos de tensão e incrementando os pontos de convergência e colaboração entre os diversos atores da produção de alimentos e saúde/nutrição.

Os desafios dos sistemas agroalimentares para a produção de alimentos de qualidade estão diretamente relacionados aos macrotemas estabelecidos no planejamento estratégico da Embrapa, cuja atuação contempla toda a cadeia produtiva alimentar. Assim, há muitas oportunidades e desafios na pesquisa, desenvolvimento e inovação com foco na obtenção de alimentos mais saudáveis, de modo que possam gerar resultados que propiciem dietas de qualidade e possibilitem a prevenção de doenças crônicas, fazendo com que a pesquisa da Embrapa contribua para a melhoria da saúde e da qualidade de vida da população.

Virgínia Martins da Matta

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Engenheira Química, graduada pela Universidade Federal da Bahia (1986), com mestrado em Tecnologia de Processos Químicos e Bioquímicos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1989) e doutorado em Tecnologia de Alimentos pela Universidade Estadual de Campinas (1999). É pesquisadora A da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, lotada na Embrapa Agroindústria de Alimentos, no Rio de Janeiro, desde 1990. Atua na área de Tecnologia de Alimentos, com ênfase em processamento de frutas, englobando: processos de separação com membranas, aproveitamento de coprodutos, desenvolvimento de produtos com potencial funcional, avaliação e preservação de compostos bioativos, redução do uso do açúcar de adição, produtos e processos para a agroindústria familiar, e promoção da alimentação saudável. Tem artigos diversos publicados em periódicos indexados, assim como capítulos de livros e trabalhos em anais de eventos científicos nacionais e internacionais, dos quais tem participado. É membro dos grupos de trabalho do Codex Alimentarius, pequenas frutas e frutas processadas. Participou da Diretoria da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos (SBCTA) Seção RJ no biênio 2006/2007 e da Diretoria da SBCTA Nacional no biênio 2011/2012, atuando como editora adjunta da revista Ciência e Tecnologia de Alimentos. É presidente do Comitê Local de Publicações e Editoração da Embrapa Agroindústria de Alimentos e do Portfólio Alimentos, Nutrição e Saúde da Embrapa.