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Alertas sobre a Ferrugem Asiática da Soja

Desde 2015 a Embrapa participa, junto a universidades, instituições de pesquisa, órgãos governamentais e representantes do setor produtivo, de fóruns de discussão sobre a semeadura de soja em fevereiro no estado de Mato Grosso. O posicionamento técnico da Empresa, assim como da maior parte das entidades, sempre foi contrário à liberação, em razão do grande risco que a extensão da “ponte verde” (sequência ininterrupta de lavouras a campo)  traz para a sustentabilidade da cadeia produtiva da soja. A posição da Embrapa é técnica e se baseia em pesquisas realizadas, desde que a ferrugem foi introduzida no Brasil, em 2001, e na literatura científica sobre dinâmica de populações de fungos e controle de epidemias.

O período ótimo para a semeadura da soja na maior parte do País é entre outubro e novembro. Com isso, até março todas as lavouras estariam colhidas. Como o fungo causador da ferrugem-asiática precisa de plantas vivas para sobreviver, a ausência de plantas interrompe o seu ciclo reprodutivo. Ao se semear em fevereiro, amplia-se até junho o período com plantas vivas no campo. Chamada de “ponte verde”, essa situação aumenta o número de gerações do fungo em uma única safra. Isso resulta na aceleração do processo natural de seleção de resistência do fungo aos fungicidas.

Sabe-se que a semeadura em fevereiro apresenta menor severidade de ferrugem-asiática do que a semeadura em dezembro. Isso ocorre, sobretudo, pela redução da frequência de chuvas e pela menor presença de lavouras de soja no campo, não sendo necessários experimentos que comprovem fatos já conhecidos. Porém, menor severidade não significa ausência. O fungo continua presente, originário de lavouras anteriores e continua se reproduzindo, com cada nova geração menos sensível ao controle químico.

Outra estratégia importante no manejo da ferrugem asiática da soja é a adoção do vazio sanitário (período em que não é permitido plantas  a campo). A Embrapa é favorável ao vazio sanitário em todas as regiões do Brasil. Por ocasião de consulta pública, realizada no início de 2020, referente ao Programa Nacional de Controle da Ferrugem Asiática da Soja – Phakopsora pachyrhizi (PNCFS) no âmbito do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a Embrapa manifestou plena concordância com o Artigo 5º proposto pelo MAPA, que trata da estratégia de vazio sanitário como medida fitossanitária para o controle da ferrugem asiática da soja, sugerindo acrescentar, também, a proibição da semeadura de soja durante tal período,  evitando a possibilidade da ocorrência de plantas emergidas.

Ensaios realizados por integrantes do Consórcio Antiferrugem vêm comprovando anualmente a redução de eficácia dos fungicidas no combate à ferrugem asiática e outras doenças da cultura. Esse fator serve de alerta, uma vez que pode resultar no aumento dos custos de produção para toda a cadeia e perdas de produtividade crescentes.

Vale ressaltar, também, que a Embrapa nunca foi contra a produção de semente própria, que é um direito de todos agricultores. O problema é a presença de plantas de soja por um período contínuo mais longo, independente do propósito do cultivo. Ademais, sabe-se que existe tecnologia disponível para produção de semente durante o período da safra normal. 

Todas as pesquisas conduzidas pela Embrapa obedecem o máximo rigor científico, procurando apresentar soluções aos principais desafios da sojicultura nacional. Os conhecimentos, tecnologias e recomendações gerados não segregam e nem são direcionados a quaisquer grupos isolados de produtores. São dirigidos, indistintamente, aos pequenos, médios e grandes produtores de todo o Brasil. Busca-se, na verdade, atender aos interesses de todos aqueles que compõem a cadeia da soja, procurando garantir a maior sustentabilidade deste importante setor do agro brasileiro.  

É importante destacar também que a permissão para o cultivo ou semeadura da soja, quando ou em qualquer lugar que seja, está a cargo das autoridades competentes do MAPA e/ou Secretarias Estaduais de Agricultura. A Embrapa não tem a atribuição e, muito menos,  a competência para legislar,  proibir ou autorizar qualquer prática agrícola. Cabe à Embrapa, como empresa pública de pesquisa agropecuária, fornecer informações técnicas, resultantes de suas pesquisas, para subsidiar gestores públicos e legisladores para a melhor tomada de decisões. Tampouco nos cabe questionar as decisões tomadas. Reforçamos que desde 2003/2004 a Embrapa orienta sobre a necessidade de adoção do vazio sanitário em todo o Brasil. Alguns estados levaram de 5 a 10 anos para adotá-lo e, até hoje, alguns estados ainda não o adotam.

A Embrapa nunca se recusou a realizar pesquisas, desde que elas tenham como objetivo gerar novos conhecimentos e que não coloquem em risco a segurança fitossanitária do País. Como empresa pública de pesquisa agropecuária, cabe à Embrapa não só o papel de contribuir para o desenvolvimento da produção nacional, mas também a responsabilidade de garantir a viabilidade futura das cadeias produtivas.  

Mais informações sobre a ferrugem asiática e sobre as pesquisas realizadas pela Embrapa e por instituições parceiras, acerca do tema, estão disponíveis na página www.embrapa.br/soja/ferrugem.

(Atualizada em 02 de agosto de 2020)