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A cultura do alho | voltar ao início


Autores: Francisco Vilela Resende, Lenita Lima Haber e Jadir Borges Pinheiro 

Alho-semente livre de vírus

Dentre as doenças transmitidas pelos bulbilhos durante o processo de multiplicação do alho, as viroses estão entre as mais importantes (causadas por diversas espécies de vírus pertencentes aos gêneros Allexivirus, Carlaviruse e Potyvirus). Os vírus reduzem gradativamente o vigor vegetativo e a produtividade, em um processo denominado degenerescência. A eliminação das viroses do alho somente é possível por meio de um processo de limpeza clonal, que utiliza técnicas de termoterapia dos bulbilhos e posterior cultura "in vitro" de seus ápices caulinares. Estes processos são realizados em laboratórios especializados.

O acesso à tecnologia do alho livre de vírus, pelos produtores, foi possível através da manutenção de estoques básicos de alho livres do patógeno nas regiões produtoras. Para isto são utilizados telados, individuais ou coletivos, a prova de afídeos (pulgões - insetos vetores do vírus). A partir dos telados são instalados campos produção de alho-semente para implantação das áreas comerciais, conforme observado na Figura 4. 
 
Figura 4. Esquema de produção de alho comercial a partir de estoques básicos de alho livres de vírus em telados individuais (1) e coletivos (2).

Estes sistemas foram testados e introduzidos pela Embrapa Hortaliças em pequenas propriedades de algumas regiões produtoras nos estados da Bahia, Minas Gerais, Rio
Grandedo Sul, Distrito Federal, São Paulo e Goiás. O sistema de multiplicação proposto além de viabilizar o uso de alho-semente livre de vírus, direcionou o produtor de alho a separar a área para produção de alho-semente da área de alho comercial, além de selecionar os melhores bulbos e bulbilhos para o plantio, eliminando-se a prática corriqueira nestas regiões, de utilizar os bulbos menores, rejeitados para comercialização, para plantio da safra seguinte. 
 
Figura 5. Manutenção de estoques de alho-semente livre de vírus em telados antiafideos, individuais e coletivos, em regiões produtoras de alho do Norte de Minas Gerais e
Bahia. Fotos: José Luis Pereira.
 
Um caso de sucesso da adoção da tecnologia do alho livre de vírus pode ser observado na região de Cristópolis e Cotegipe, onde os produtores começaram a utilizá-la em 2002. Antes da implantação da tecnologia, os produtores separavam os menores bulbos produzidos para uso como alho-semente no próximo plantio, resultando no uso de semente ainda mais infectada por vírus e produtividades frequentemente inferiores a 04 t ha-1. Com a introdução do alho-semente livre de vírus foi possível, em um período de 05 anos, a substituição gradativa da semente local, revertendo essa situação. Segundo dados do IBGE, a (1) (2) produtividade média das lavouras de alho da região saltou de 4,5 toneladas em 2002, para 10 toneladas por hectare em 2009 (Figura 6), mesmo com uma redução na área plantada de 200 para 120 hectares neste período. Além do aspecto quantitativo, observa-se aumento da porcentagem de alho de melhor qualidade, com bulbos maiores, que recebem melhor remuneração no mercado. Com isso, os produtores que recebiam remuneração de R$ 0,93/Kg, conseguiram aumentar o valor pago para R$ 4,50/Kg, permitindo que a receita com a cultura do alho na região saltasse de R$ 200.000,00 para R$ 2.000.000,00, ou seja, um aumento de 90% na renda da região. 
 
Figura 6. Impacto da introdução do alho livre de vírus na produtividade e renda da cultura do alho na região de Cristópolis-BA.