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A cultura do alho | voltar ao início


Autores: Francisco Vilela Resende, Lenita Lima Haber e Jadir Borges Pinheiro 

Doenças da cultura do alho

As doenças que atacam a cultura do alho podem ser separadas em dois grupos, as que ocorrem no solo atacando os bulbos e as raízes e as foliares. 

Doenças do solo

Causada pelo fungo Sclerotiumcepivorum. Berkeley apresenta como sintomas iniciais de desenvolvimento uma necrose ou queima descendente, com amarelecimento e morte das folhas mais velhas. Em função disso, as plantas apresentam reduzida atividade fotossintética e, consequentemente pouco desenvolvimento. 

O fungo, que ataca diretamente as raízes, causando apodrecimento, pode sobreviver no solo, por um período de até 10 anos, na forma de escleródios. Estas estruturas,
identificadas como pequenos pontos pretos (Figura 15 A) germinam e desenvolvem em condições de baixa umidade e temperatura na faixa de 10º a 20ºC; temperaturas superiores reduzem seu desenvolvimento. A principal característica visual da incidência nos bulbos é o recobrimento por um micélio branco, onde os escleródios são formados (Figura 15 B). Outra característica da doença é o ataque em reboleiras (Figura 15 C).

Figura 15. A) Escleródios de Sclerotiumcepivorum; B) Micélio característico da doença; C) Ataque em reboleiras. Fotos: Lenita Lima Haber; José Luis Pereira.
 
O fungo pode ser disseminado por meio dos bulbos infectados, da água de irrigação, de ferramentas e maquinários utilizados em áreas infestadas e, em embalagens utilizadas para transporte dos bulbos. O controle preventivo, como plantio de alho-semente oriundo de regiões onde não há incidência da doença, tratamento do alho-semente com fungicidas específicos, a solarização das áreas infectadas e a rotação de cultura por longos períodos são as medidas mais indicadas para o manejo da doença, que pode inviabilizar o cultivo do alho caso não seja controlada.

 

Causada pelo fungo Fusariumoxysporum f. sp. Cepae. Snynder& Hans, a fusariose ocorre em ambiente úmido e quente. Danos mecânicos e ou ferimentos no alho-semente favorecem a entrada do fungo que, uma vez instalado, atinge o sistema vascular da planta, provocando os sintomas de amarelecimento e murchamento das folhas, que tendem a curvar para baixo. Nos bulbos, é formada uma depressão em um dos lados, indicando o desenvolvimento do fungo, que internamente desenvolvem-se formando um micélio branco (Figura 16). Como medidas de controle recomenda-se o plantio de sementes sadias; eliminação de bulbilhos chochos, com danos mecânicos ou com indícios de infestação; tratamento químicos dos bulbilhos antes do plantio; arranqio e queima de plantas infectadas; e, rotação de culturas.
 
Figura 16. Sintomas de Fusarium oxysporum em bulbilhos de alho. Foto: Carlos Alberto Lopes

O fungo Pyrenochaeta terrestres ataca somente o sistema radicular das plantas, que tem seu desenvolvimento prejudicado em decorrência dos sintomas desenvolvidos. A princípio, as raízes infectadas ficam rosa claro, depois escurecem para vermelho ou roxo, murcham e morrem. A mudança da coloração das raízes varia em função da severidade e do tempo de infestação, ficando mais escura à medida que a doença progride, sendo caracterizado como principal sintoma para identificação da doença. As plantas infectadas são facilmente arrancadas do solo, pois possuem pequena quantidade de raízes, o que leva também a uma redução do tamanho dos bulbos. Não é uma doença de grande importância para a cultura e seu desenvolvimento está relacionado à ocorrência da fusariose, que funciona como porta de entrada para o fungo. Recomenda-se o controle preventivo, pois uma vez instalado no solo torna-se difícil erradica-lo. A rotação de culturas, principalmente com gramíneas, a solarização e o uso de sementes sadias são algumas medidas que podem ser adotadas.

Doenças foliares

Também conhecida por alternaria, é uma doença causada pelo fungo Alternaria porri (Ellis) Ciff. É considerada como uma das doenças mais importantes da cultura, podendo ocorrer em todas as áreas de produção no Brasil e, se não controlada pode causar perdas superiores a 50% da lavoura, e dependendo do grau de infestação, pode acabar com a lavoura em pouco tempo, uma ez que seu ciclo é curto, em torno de 4 dias (Figura 17).
 
Figura 17. Lavouras afetadas por alternaria. Fotos: José Luis Pereira.
 
Os primeiros sintomas da doença são caracterizados por manchas brancas, de pequeno tamanho e formato irregular. Com o avanço da doença, essas manchas evolem em termos de coloração, passando ao amarelo e depois para a cor púrpura. Quando severamente afetadas, as folhas tendem a murchar e enrugar, do ápice para baixo. (Figura 18).
 
Figura 18. Desenvolvimento da alternaria. Fotos: Lenita Lima Haber; José Luis Pereira
 
A doença tem seu desenvolvimento favorecido em condições de elevadas umidade relativa do ar (acima de 90%) e temperatura, na faixa de 21º a 30º C. O manejo inadequado da cultura, como a deficiência de nitrogênio e a fitotoxicidade por defensivos ou adubos foliares, o ataque de tripes e ainda a ocorrência de geadas podem causar ferimentos que favorecem a entrada do fungo e consequentemente maior disseminação da doença. O controle químico com o uso de fungicidas específicos para a doença e recomendados para a cultura deve ser feito no bulbilho antes do plantio e, de forma preventiva e periódica ao durante todo o ciclo do alho. No entanto, outras medidas preventivas devem ser adotadas, como a rotação de culturas; a eliminação de restos culturais, tanto na lavoura como próximo aos galpões de armazenamento, haja visto que estas plantas podem constituir fonte de inoculo pela prolongada sobrevivência do fungo (até um ano); e, a aração profunda da área de plantio, que tende a reduzir a quantidade de inóculo no solo. 
 

Ocasionada pelo fungo Pucciniaallii (D.C.), a ferrugem é considerada uma das mais importantes doenças foliares do alho, e pode ocorrer em qualquer fase de desenvolvimento da cultura. Os sintomas iniciais nas folhas são pontuações esbranquiçadas no limbo foliar, que evoluem para pústulas pequenas, circulares e de coloração alaranjada e, quando do rompimento da cutícula, expõe uma massa pulverulenta, de coloração amarela (Figura 19). À medida que a doença evolui, essa massa passa a apresentar coloração castanho escura ou preta.

Figura 19. Sintomas da ferrugem na cultura do alho. Fotos: Francisco Vilela Resende.
 
A doença se desenvolve melhor em condições de alta umidade relativa do ar, baixo índice pluviométrico e temperaturas amenas, na faixa de 15º a 24ºC, podendo ser inibida em quando exposta a temperaturas abaixo de 10º e acima de 24ºC. Condições inadequadas de cultivo, como solos compactados e de baixada, desiquilíbrio nutricional principalmente quanto ao excesso de nitrogênio e a permanecia de restos culturais também favorecem o desenvolvimento da doença.
 
O uso de fungicidas é a principal medida de controle da doença, principalmente na região Sul do país, onde as temperaturas são mais amenas. No entanto a rotação de culturas, a manutenção de uma adubação equilibrada e a eliminação de plantas e bulbilhos remanescentes são medidas que também devem ser adotadas.

 

Quatro espécies do gênero Pseudomonas causam a queima bacteriana no alho, no entanto, a que ocorre em quase todos os Estados produtores (Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina), incluindo as regiões do Cerrado, é a Pseudomonas marginalis pv. Marginalis. A doença tem seu desenvolvimento favorecido em condições de alta umidade relativa do ar (acima de 85%) e temperaturas entre 6º e 37ºC, sendo a faixa entre 26º e 30ºC, considerada como ótima. Além das condições climáticas favoráveis, o surgimento da doença está associado ferimentos e/ou stress causados pela aplicação de defensivos químicos, principalmente herbicidas de pós-emergência. 
 
Produz uma clorose ao longo da nervura central, seguida de amolecimento e escurecimento da lesão, caracteriza o primeiro sintoma da doença (Figura 20 A), que à medida de sua evolução, causam murchamento e secamento das folhas (Figura 20 B). Um sintoma de queima pode também ocorrer e iniciar nas bainhas das folhas e se estender para a parte aérea, dando à planta um aspecto de queima por herbicida ou fogo. No bulbo, os sintomas podem ser visualizados na túnica, que passa a adquirir uma coloração escura e, os bulbilhos mostram sinais de apodrecimento, passando a adquirir coloração creme (Figura 20 C).
 
Figura 20. Sintomas de bacteriose em folhas (A e B) e bulbos de alho (C). Fotos: Carlos Alberto Lopes (1) e Francisco Vilela Resende (2).
 
Medidas de controle integrado, que abrangem desde o plantio até a comercialização, devem ser adotadas para o controle da bacteriose do alho. O uso de alho-semente sadio e o controle da irrigação são medidas importantes, uma vez que as sementes podem disseminar o patógeno por longas distancias e a água de irrigação o espalha dentro da lavoura. Outras medidas recomendadas são:
  • evitar o plantio em áreas com baixa capacidade de drenagem de água;
  • evitar o encharcamento do solo após a diferenciação do bulbo;
  • manter uma adubação balanceada, restringindo adubações nitrogenadas realizando-as somente quando necessário;
  • eliminar as plantas doentes;
  • prevenir danos mecânicos que possam servir de entrada para a doença;
  • realizar rotação de culturas;
  • queimar os restos culturais após a colheita e beneficiamento.
O uso de produtos químicos é contraditório, pois aqueles a base de cobre e suas misturas não vêm apresentando resultados efetivos, podendo ainda causar fitotoxicidez às plantas e, a aplicação de antibióticos para o controle da doença pode ser inviabilizado pela baixa sensibilidade que a bactéria apresenta a essas substâncias.

Caracteriza-se pela rápida perda de peso dos bulbos, os quais ficam chochos em função do processo de deterioração dos bulbilhos. A parte externa pode ou não manifestar sintomas, no entanto, quando debulhados, percebe-se um mofo de cor azul (Figura 21). Os bulbilhos infectados (sem sintomas aparentes) e usados para o plantio desenvolvem lesões que amolecem e ficam recobertas pelo mofo azul e rapidamente morrem. As plantas que superam a doença tem seu desenvolvimento comprometido, formando bulbos de menor tamanho.

Figura 21. Bulbo de alho atacado por Penicillium spp. Foto: Carlos Alberto Lopes e Marco Antônio Lucini.
 
O fungo é disseminado pelo ar e, para que ocorra a infecção é necessário que haja ferimentos nos bulbilhos. Temperaturas na faixa de 20º a 30ºC favorecem o desenvolvimento da doença. O tratamento dos bulbilhos com fungicidas; a debulha manual, a fim de reduzir danos mecânicos nos bulbilhos; o plantio e a colheita no tempo certo e armazenamento apropriado são medidas de controle da doença.