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A cultura da batata-doce | voltar ao início


Embrapa Hortaliças
Sistemas de Produção, 6
ISSN 1678-880X Versão Eletrônica
Jun./2008
Autores

Manejo Integrado de Pragas (MIP)

A batata-doce se destaca entre as hortaliças pela rusticidade e tolerância ao ataque de pragas. Esta característica favorece o uso de técnicas de manejo integrado, podendo ser este um fator importante para reverter a tendência de declínio da cultura, pois a maior depreciação do produto se deve à presença de danos causados por pragas, principalmente as que formam galerias e orifícios nas raízes.

Fatores que favorecem ou que justificam a utilização de técnicas de manejo de pragas para a cultura da batata-doce:

A batata-doce é reconhecidamente resistente a pragas, exercendo o efeito de antibiose, por meio da produção de fitoalexinas, látex e terpenoides, e possuindo grande capacidade de compensação, cicatrizando feridas, repondo fartamente as áreas atacadas e produzindo tecido vascular secundário quando a medula da haste é danificada. Por isso, embora seja hospedeira de diversas espécies fitófagas, são poucas as pragas capazes de causar danos severos. Além disso, boa parte destes danos são apenas de efeito cosmético, por serem ferimentos ou galerias superficiais, que não reduzem a proporção de aproveitamento do produto.

A batata-doce possui hábito de crescimento indeterminado, ciclo perene, e tuberização contínua, ocorrendo a morte natural da planta somente na ocorrência de fatores climáticos muito severos, tais como geada e seca muito prolongada. Estas características permitem efetuar a colheita durante um período maior de tempo, o que permite ao produtor antecipar a colheita ou prolongar o ciclo cultural mediante uma avaliação do estado fitossanitário da lavoura.

A batata-doce se adapta a uma ampla condição de clima e de solo, sendo encontrada como planta voluntária em todas as regiões brasileiras, em qualquer época do ano, formando fontes permanentes de inóculos.

São relativamente poucas as pragas e os patógenos que causam danos severos à cultura, sendo que as principais pragas que são Broca-da-raiz e Broca-do-caule e a principal doença, Mal-do-pé, não atacam as maioria das plantas hortícolas.

A parte comercial são raízes tuberosas, que são sujeitas tanto ao ataque de pragas específicas, que realmente se alimentam dos tecidos do vegetal, quanto de pragas ocasionais que danificam as raízes apenas no momento da prova, ou seja, na busca por alimento, as larvas dos insetos fazem incisões de prova e, mesmo que não prossiga alimentando do tecido vegetal estas feridas se ampliam à medida que ocorre o crescimento lateral da raiz. Nesse aspecto, quanto mais precoce a infestação, maior a extensão do dano, além de maior oportunidade de produção de novas gerações da praga.

Os tecidos vegetais utilizados para a propagação vegetativa, que são as raízes de reserva e segmentos do caule, mais conhecidos como ramas ou ramas-semente, são eficientes fontes primárias de disseminação de fungos bactérias, vírus, nematóides e de pragas, nas diversas formas de disseminação. Isso ocorre mais facilmente em órgãos de reprodução vegetativa pelas seguintes causas:

  1. porque estes tecidos se formam enterrados ou relativamente próximo ao solo, sendo portando facilmente contaminados por patógenos e pragas contidas no mesmo;
  2. são estruturas tenras suculentas e nutritivas, que se formam durante todo o ciclo da cultura, ocorrendo portanto grande oportunidade de se contaminarem;
  3. não se formam dentro de estruturas de proteção e não possuem estruturas de "filtragem" de vírus, como é o caso das sementes botânicas.

As pragas principais, que são as brocas, cavam galerias onde se protegem dos inimigos naturais, da ação dos entomopatógenos e dos inseticidas.

Práticas culturais que favorecem o manejo de pragas

Para obtenção de material sadio deve-se conduzir plantas matrizes em viveiros, sendo que as matrizes devem ser obtidas por meio de cultura de meristema e reproduzidas em ambiente protegido, garantindo-se a ausência de vírus e de todos os inóculos de pragas e patógenos (DUSI; SILVA, 1991). Caso este material não seja disponível, as ramas-semente devem ser retiradas de uma cultura sadia e bem conduzida.

A utilização de inseticidas e fungicidas, além de eliminar inóculos infestantes, protege os ferimentos feitos quando se realiza a segmentação das ramas.

Solos arenosos férteis, sem presença de alumínio tóxico, com índice de acidez acima de pH 4,5, área que não tenha sido cultivada com batata-doce nos dois anos anteriores, e sem histórico de ocorrência de pragas severas, doenças fúngicas ou bacterianas e nematóides, são critérios que favorecem o crescimento rápido da planta e portanto a obtenção de raízes em menor tempo evitando que o nível de dano seja elevado.

O isolamento de plantio quando se fazem cultivos seqüenciais é uma prática que evita a contaminação entre os cultivos. Não existe um parâmetro para essa indicação, mas acredita-se que uma barreira viva de pelo menos 50m deve ser útil para evitar o trânsito de pragas entre as lavouras.

O revolvimento do solo promove o esmagamento de larvas, promove sua exposição ao sol e ao ataque por pássaros, destrói abrigos e fontes de alimentos como as plantas hospedeiras.

Estas práticas favorecem o desenvolvimento rápido das plantas, antecipando o ciclo e reduzindo o nível de danos.

Ao reformar as leiras, fecham-se as rachaduras do solo, que se formam em função do crescimento lateral das raízes tuberosas. Isso evita o acesso dos insetos diretamente nas batatas, o que aumenta o nível de dano.

Ao atingir cerca de 300 g as raízes devem ser colhidas. Entretanto, a colheita pode ser antecipada se houver perspectiva de dano significativo. Isso é possível porque a batata-doce não apresenta um ponto de maturação, permitindo antecipar ou prorrogar o momento da colheita.

Após a colheita, as sementes botânicas, os restos de caule e pedaços de raiz geram inúmeras plantas voluntárias que se constituem fontes de inóculos e de manutenção da população de pragas. Essas plantas devem ser destruídas com uso de herbicida ou realizando-se capinas mais freqüentes na cultura de sucessão, de forma a impedir a formação de novas raízes tuberosas. É condenável abandonar a área, pois as plantas voluntárias sobrevivem mesmo em condições de grande competição entre plantas.

Visando facilitar a destruição das soqueiras deve-se plantar, em seguida à colheita, uma cultura como milho, ou outra planta de hábito de crescimento bem distinto da batata-doce, para facilitar a eliminação das plantas voluntárias.

O uso de inseticidas e fungicidas ou outros agrotóxicos se esbarra na legalidade, pelo fato de não haver, até o momento, nenhum produto registrado para essa cultura. No entanto muitos produtores aplicam inseticidas de solo na base das plantas e realizam pulverizações quando ocorre intensa desfolha.

Existem diversos inimigos naturais identificados, mas ocorre grande dificuldade em encontrar espécies capazes de localizar e atacar eficientemente os insetos localizados em habitats protegidos. Em outros países, especialmente onde ocorre a espécie Cylas formicarius são utilizados intensivas práticas de controle, em vista da severidade do dano que causa.

A base do controle preventivo é a obtenção de plantas sadias. Para isso, deve-se partir de plantas submetidas ao processo de cultivo de meristemas e indexadas para viroses. Estas técnicas exigem conhecimento específico, mas podem ser executadas por órgãos de pesquisa, universidades ou laboratórios especializados. Estas plantas matrizes passam por processos de reprodução vegetativa, em ambiente fechado, à prova de insetos, visando evitar a recontaminação das plantas, especialmente por viroses.

A manutenção de sistemas individuais de produção de ramas sadias pode não ser viável, mas alguns produtores ou grupos ou associações de produtores podem se especializar nessa atividade, contando facilmente com o apoio de entidades governamentais para a produção das plantas matrizes.

Enquanto não se tem acesso a estes programas, o produtor deve ter atenção ao selecionar as plantas de onde vai retirar ramas ou raízes, seja para a formação de viveiros, seja para o plantio definitivo. Nesta seleção, além de observar e desclassificar individualmente as plantas que apresentarem sintomas de ataque das pragas e das doenças importantes, deve observar também os aspectos de qualidade das raízes (formato, coloração, uniformidade, dispersão e produtividade). Ou seja, mesmo que se vá retirar somente as ramas, deve-se verificar as características da planta como um todo, visando obter um produto de melhor qualidade.

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