Pular para o conteúdo

A Cultura da mandioquinha-salsa | voltar ao início


Embrapa Hortaliças
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1678-880X Versão Eletrônica
Jun./2008
Autores

 

Adubação e nutrição

A recomendação de adubação deve ser baseada na análise de solo e seguir orientação técnica de um profissional com experiência na cultura e conhecimento teórico da dinâmica de nutrientes. Os trabalhos com adubação e nutrição em mandioquinha-salsa são escassos, sendo que, na maioria das vezes, a fertilização empregada é empírica.

Resumidamente, um campo produtivo de mandioquinha-salsa deve ser inicialmente bem nutrido de modo a que se formem plantas vigorosas. A partir de aproximadamente 100 dias após o plantio, deve-se propiciar um ambiente favorável ao acúmulo de reservas, ou seja, reduzir progressivamente as irrigações e, praticamente, salvo raras exceções, eliminar as adubações. Do meio do ciclo para o final da cultura, folhas em senescência na parte basal são comuns, demonstrando que a planta está translocando os fotoassimilados, produzidos pelas folhas através da fotossíntese, e formando raízes de reserva.

A adubação orgânica pode ser útil em solos arenosos, com a aplicação de 3 a 6 t.ha-¹ de composto orgânico ou esterco de curral curtido. Conforme a situação, a adubação verde com gramíneas e leguminosas em cultivo solteiro ou consorciado, incorporando-se os restos vegetais previamente ao plantio também é interessante. Assim, pode-se aumentar a capacidade de retenção de água e nutrientes em solos deste tipo. Contudo, deve-se ter cuidado com o excesso de matéria orgânica, para que não haja excessivo viço da parte aérea, promovido por elevados teores de nitrogênio.

Da mesma forma, cuidado especial deve ser dado aos adubos nitrogenados, visto que o nitrogênio em excesso pode favorecer sobremaneira a formação de uma frondosa parte aérea em detrimento do acúmulo de reservas e conseqüente formação de raízes comerciais. Além disso, uma parte aérea muito exuberante pode ser mais atrativa a pragas e doenças, até mesmo por propiciar um microclima mais favorável ao seu desenvolvimento, em função do maior fechamento da lavoura.

Devem-se efetuar duas adubações de cobertura aos (30-45 dias e aos 60-90 dias). Aplicações mais tardias não são recomendadas devido aos problemas causados pelo excesso de nitrogênio. Entretanto, em casos específicos, no caso de ocorrência de intensa deficiência de nitrogênio, cujos sintomas são caracterizados pelo amarelecimento foliar, começando pelas folhas mais velhas, e drástica redução do crescimento, pode-se efetuar adubações de cobertura para a recuperação da lavoura, ainda que retardando um pouco o ciclo da cultura.

O fósforo está diretamente relacionado à produtividade de raízes. Devido a sua baixa mobilidade no solo, o fósforo aplicado em cobertura geralmente não apresenta efeitos satisfatórios. Portanto, a adubação fosfatada deve ser efetuada no plantio, de modo que o adubo se localize na região onde as raízes vão se desenvolver.

Considerando o longo ciclo da cultura, pode-se utilizar uma fonte de fósforo de solubilidade mediana, como os termofosfatos, no fornecimento de parte da dosagem recomendada. Esses apresentam, em sua maioria, a vantagem adicional de conter micronutrientes em sua composição. O uso de fosfatos naturais, de lenta solubilidade, também é viável, de modo a construir a fertilidade do solo.

A carência de fósforo provoca acentuada redução do crescimento da parte aérea e das raízes e coloração verde-escura a azulada nas folhas. No caso de surgimento de sintomas em lavouras em fase de desenvolvimento, pode-se minimizar a carência por meio de aplicações foliares complementares, buscando, segundo recomendação técnica, formulações ricas em fósforo prontamente disponível.

O potássio é o nutriente exigido em maior quantidade pela mandioquinha-salsa. Está intimamente ligado à qualidade do produto comercial, conferindo melhor resistência pós-colheita. Em função de apresentar razoável mobilidade no solo e efeito salino relativamente alto, é interessante fornecer parte dele no plantio e parte em cobertura. Sua deficiência reduz o desenvolvimento da parte aérea e do sistema radicular, além de ocasionar descoloração das folhas mais velhas e acamamento dos pecíolos.

Em caso de deficiência de cálcio, as plantas apresentam grande redução no crescimento da parte aérea e das raízes, clorose e morte dos meristemas, necrose nas margens das folhas e deformação das folhas novas.

O sintoma de carência de magnésio manifesta-se inicialmente como clorose internerval nas folhas mais velhas, podendo progredir para as folhas mais novas. Além disso, as folhas mais velhas podem apresentar áreas necrosadas.

A deficiência de enxofre, por sua vez, resulta em amarelecimento das folhas mais novas, leve diminuição do crescimento da parte aérea, com maior efeito sobre o desenvolvimento das raízes.

Os sintomas de deficiência de zinco ocorrem inicialmente nas partes mais novas da planta, com o encurtamento dos entrenós e deformação das folhas. Plantas submetidas à falta de boro apresentam grande redução do crescimento, folhas novas de menor tamanho e com concavidade dorsal (em forma de colher virada para baixo). Os pecíolos apresentam-se eretos e o sistema radicular com muitas ramificações.

A análise foliar é importante para avaliar o estado nutricional das plantas e, indiretamente, avaliar a disponibilidade de nutrientes no solo. Esse método é bastante eficiente para culturas de ciclo longo como a mandioquinha-salsa. Entretanto, ainda não foram determinadas a posição, a idade e o número de folhas, bem como a fase de desenvolvimento da cultura para amostragem.

Similarmente, não fo0ram encontrados na literatura níveis críticos ou faixas de teores de nutrientes foliares adequados ao desenvolvimento da mandioquinha-salsa. O que se pode fazer é criar um padrão próprio, considerando uma lavoura com alto desempenho produtivo.

Com relação à extração de nutrientes por tonelada de raízes frescas e a exportação de nutrientes por uma produção de 15 toneladas de raízes por hectare, observa-se a seguinte ordem decrescente, K>N>P>S>Ca>Mg para os macro e Fe>Mn>Zn>B>Cu>Mo para os micronutrientes (Tabela 1). Quando comparada a outras raízes e tubérculos como cenoura, batata e inhame, verifica-se que a mandioquinha-salsa extrai maiores quantidades de vários nutrientes, em especial de P e K,  justificando a elevada exigência nesses dois nutrientes pela cultura.  

Tabela 1. Extração e exportação de macro e micronutrientes pelas raízes frescas de mandioquinha-salsa, considerando produtividade de 15 t ha-¹

Fonte: Faquin e Andrade, 2004.

A recomendação de adubação apresentada na Tabela 2 é baseada em resultados de pesquisas e na experiência prática com a cultura. No plantio, devem ser fornecidos todo o fósforo (100%) e metade (50%) do potássio e do nitrogênio recomendado. Em cobertura, devem ser aplicados o restante do nitrogênio e do potássio em duas aplicações de 25% cada uma, aos 30-45 dias e aos 60-90 dias após o plantio ou transplantio.

Tabela 2. Recomendação de adubação para mandioquinha-salsa, considerando produtividade de, aproximadamente, 25 t ha-¹, espaçamento 0,7 x 0,3 m, de acordo com o teor do nutriente no solo

¹/ Os fertilizantes nitrogenados e potássicos devem ser parcelados, fornecendo-se 50% no plantio e 25% em cada uma das adubações de cobertura, aos 30-45 dias e aos 60-90 dias.
Fonte: Adaptado de Santos et al., 2000.

O suprimento de micronutrientes, especialmente boro e zinco, também deve ser realizado no plantio. Entretanto, em casos de surgimento de sintomas de deficiência, pode-se complementar o fornecimento com adubações foliares, utilizando 3 a 5 g/L de bórax e 3 a 5 g/L de sulfato de zinco, em 2 a 4 aplicações a intervalos de uma semana. Para maior eficiência das adubações foliares com micronutrientes, é recomendável ajustar o pH da calda entre 5,5 e 6,0 e acrescentar 3 g/L de cloreto de potássio para aumentar a absorção de zinco. Alternativamente, pode-se aplicar adubos foliares comerciais, utilizando-se a dosagem recomendada pelo fabricante.

Autores: Ronessa B. de Sousa e Nuno R. Madeira