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A Cultura da mandioquinha-salsa | voltar ao início


Embrapa Hortaliças
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1678-880X Versão Eletrônica
Jun./2008
Autores

 

Doenças

Assim como outras hortaliças, a mandioquinha-salsa está sujeita às doenças provocadas por bactérias, fungos, nematóides e vírus. A mandioquinha-salsa é considerada uma espécie relativamente rústica e que apresenta boa tolerância às doenças, sendo poucas consideradas limitantes no Brasil. Por outro lado, o ciclo relativamente longo para uma hortaliça, variando de 8 a 11 meses, expõe a cultura a períodos de clima muito favoráveis à incidência de doenças, como verões quentes e chuvosos.

A incidência das doenças da mandioquinha-salsa podem ser divididas em três períodos críticos:
(1) no preparo e plantio das mudas;
(2) durante o período de cultivo ou vegetativo; e
(3) em pós-colheita.

As mudas podem sofrer ataques de fungos e bactérias imediatamente após a sua separação da planta-mãe ou após o plantio, principalmente quando não são curadas. Durante a fase de cultivo, é mais comum a incidência de doenças foliares causadas por fungos e bactérias. Neste período também pode ocorrer o ataque de nematóides e eventualmente de vírus, que ainda não foram identificados e caracterizados no Brasil.

As podridões das raízes em pós-colheita são muito comuns em mandioquinha-salsa, sendo geralmente causadas por bactérias do gênero Erwinia spp. (Pectobacterium, Dicheya) ou associadas com alguns fungos.

As principais doenças da mandioquinha-salsa para as condições brasileiras serão descritas a seguir:

Podridão-das-mudas (fungos de solo: Rhizoctonia sp., Fusarium sp., Rhizopus sp.; bactérias do gênero Erwinia spp.) 

As mudas de mandioquinha-salsa estão sujeitas ao ataque de vários patógenos quando são retiradas da planta-mãe e armazenadas antes do plantio definitivo no campo. Os cortes para separar as mudas da planta-mãe expõem os tecidos e podem ser a porta de entrada de fungos (Fusarium sp., Rhizoctonia sp., Rhizopus sp.) e bactérias (Erwinia spp.), que podem levar as mudas a apodrecer rapidamente.

Por esta razão, deve-se deixar as mudas em local sombreado e ventilado para que os tecidos cortados sejam curados, formando uma camada seca e suberizada. Após o plantio, as mudas também podem ser atacadas por estes mesmos fungos e bactérias, principalmente quando ocorre excesso de chuvas ou de irrigação. O uso de mudas pré-enraizadas reduz este problema.

Esclerotinia é um fungo que ataca um grande número de plantas cultivadas e possui estruturas de resistência que favorecem sua sobrevivência por longos períodos na lavoura e facilita sua disseminação por meio de mudas, solo ou implementos agrícolas contaminados. O sintoma típico é a murcha e morte das plantas (Figura 1) e, em regiões ou períodos de alta umidade relativa, as plantas atacadas podem apresentar crescimento esbranquiçado do fungo na superfície da coroa e a formação de escleródios, uma estrutura escura, pequena, de formato irregular.


Fig. 1. Podridão-de-esclerotínia (Sclerotinia sclerotiorum)

A murcha causada por esclerotinia é mais comum nas regiões serranas do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná.

Esclerotium é um fungo que tem semelhanças com esclerotinia na forma de infecção e de disseminação e presença de estruturas de resistência. O fungo também afeta um grande número de plantas, incluindo brássicáceas ou crucíferas (repolho, brócolis, couve-flor), cucurbitáceas (abóbora, moranga, melão) e leguminosas (feijão, ervilha, lentilha). O sintoma típico também é a murcha e morte das plantas, e os escleródios são bem arredondados e de coloração marrom-claro, semelhantes à sementes de mostarda.

De uma maneira geral, a doença ocorre em áreas cultivadas anteriormente com plantas suscetíveis. Como as estruturas de resistência do fungo permanecem viáveis no solo por vários anos, é importante fazer rotação com gramíneas, aração profunda e adubação orgânica para promover o crescimento de organismos antagonistas.

Doença foliar causada por uma variante de bactéria específica de mandioquinha-salsa. A bactéria é facilmente disseminada por mudas contaminadas, vento, chuva e água de irrigação. Os sintomas geralmente iniciam-se na forma de pequenas manchas foliares de aspecto encharcado, que progridem e tornam-se escuras, circundadas por partes amareladas. Quando as condições ambientais são favoráveis, as lesões podem coalescer e ficam com aspecto ressecado, daí o nome de ‘crestamento' (Figura 2).


Fig. 2. Crestamento bacteriano (Xanthomonas campestris pv. arracaciae)

Assim como ocorre com o crestamento bacteriano, o fungo Septoria também pode causar um grande número de lesões que evoluem até coalescer e causar uma queima das folhas. As lesões começam pequenas, arredondadas, com coloração escura. Septoria pode afetar outras plantas cultivadas da Família Apiaceae (=Umbelliferae) como cenoura, salsão, salsa e coentro, e passar de uma cultura para outra por chuva e vento.

Deste modo, deve-se evitar plantios sucessivos com essas espécies na mesma área ou em áreas muito próximas. O crestamento foliar pode causar perdas consideráveis na produção devido à redução da área foliar, chegando a destruição completa no caso de epidemias severas.

Não é uma doença muito comum da mandioquinha-salsa mas, sob condições favoráveis, pode causar grande redução de área foliar e diminuição na produção. Os sintomas desta doença pode ser confundido com os do crestamento de Septoria, principalmente em estágios avançados. O agente causal da doença também ataca outras apiáceas como a cenoura, coentro e salsa.

Doença bacteriana típica de pós-colheita, mas que eventualmente também ocorre no período de cultivo, principalmente quando associada a ferimentos causados por brocas ou equipamentos agrícolas. No campo, a planta atacada murcha devido ao apodrecimento das raízes. É a principal doença pós-colheita e provoca apodrecimento parcial ou total das raízes, que se desintegram facilmente.

Na fase de pós-colheita, a incidência da "mela" está associada ao período de verão, devido às temperaturas mais elevadas e ao sistema de manuseio adotado no Brasil, com lavação das raízes e secagem deficiente. Também afetam a ocorrência da doença o uso de caixas de madeira para acondicionar e transportar as raízes e a exposição do produto a temperaturas acima de 20°C.

Medidas de controle

Várias são as medidas que podem ser adotadas para evitar a ocorrência de doenças em plantas ou mesmo reduzir seu impacto no produto comercial. Até o momento, não existem agrotóxicos registrados para a mandioquinha-salsa no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA.

A observação de um conjunto de medidas de controle, também conhecido como controle integrado, tem como objetivo principal a redução da necessidade do uso de agrotóxicos. Para que as doenças sejam bem controladas é necessário que a cultura seja bem conduzida, ou seja, que a planta não esteja sujeita a estresses provocados por fatores diversos, tais como época de plantio desfavorável, adubação e irrigação desbalanceadas, ferimentos nas plantas e competição com plantas daninhas.

Dentre estes fatores, deve ser dada atenção especial à nutrição das plantas e ao modo de irrigação, quando utilizado. O controle de doenças de plantas é, mais que tudo, ‘medicina preventiva', ou seja, a estrita observação de medidas que devem ser adotadas antes mesmo do plantio. A seguir, são mencionadas algumas destas medidas para evitar o aparecimento de doenças ou reduzir seu efeito:

  • Escolher plantas sadias e vigorosas para retirar as mudas, deixando-as em local arejado e sombreado por um ou dois dias para secar a parte cortada ("cura");
  • Escolher para instalação da lavoura uma área bem ventilada, com boa drenagem e que não tenha histórico de plantio recente com outras hortaliças da mesma família botânica, como cenoura, salsão, salsa ou coentro;
  • Fazer adubação balanceada, baseada em análise do solo. Falta ou excesso de nutrientes são causas freqüentes de distúrbios fisiológicos graves;
  • Evitar o excesso de água na irrigação, pois este é o fator que mais afeta o desenvolvimento de doenças, em especial aquelas associadas ao solo;
  • Usar água de irrigação de boa qualidade, que não tenha sofrido contaminação antes de chegar à propriedade;
  • Controlar os insetos e nematóides vetores de viroses e as brocas que provocam ferimentos nas plantas, principalmente nas raízes;
  • Evitar ferimentos nas plantas durante as capinas, irrigação ou outros tratos culturais;
  • Evitar ao máximo o trânsito de pessoas e de máquinas que podem levar estruturas de patógenos de uma área para outra;
  • Destruir os restos culturais que, normalmente hospedam populações de patógenos e insetos. Esta destruição pode ser feita por enterrio profundo, queima controlada ou arraçoamento animal;
  • Realizar rotação de culturas, de preferência com gramíneas, tais como milho, trigo, arroz, sorgo ou capim. Esta medida é muito importante para o controle de doenças de solo, mais difíceis de serem controladas; e
  • Inspecionar a lavoura com freqüência para identificar possíveis focos de doença, ainda em seu início.

Até o presente, há poucos estudos sobre a resistência dos materiais comerciais. Com relação à podridão-mole, causada por Erwinia spp., foi feito estudo, não se encontrando fonte de resistência dentre os materiais comumente cultivados no Brasil.

O controle químico de doenças em mandioquinha-salsa está limitado até o presente porque não existe nenhum agrotóxico registrado oficialmente para a cultura no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Algumas publicações mais antigas trazem recomendações de produtos químicos, embora não houvesse registro oficial, baseando-se em produtos indicados para a cenoura, hortaliça da mesma família botânica que a mandioquinha-salsa.

A partir da adoção do receituário agronômico em 1988, e por conta de suas conseqüências legais, não foram mais recomendados agrotóxicos para a cultura. Enquanto não houver produtos registrados para a cultura, medidas preventivas de controle devem ser observadas para reduzir a ocorrência de problemas fitossanitários.

Autores: Gilmar P. Henz, Ailton Reis e Carlos A. Lopes