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A Cultura da mandioquinha-salsa | voltar ao início


Embrapa Hortaliças
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1678-880X Versão Eletrônica
Jun./2008
Autores

 

Pragas

A mandioquinha-salsa é uma entre muitas culturas classificadas pela indústria agroquímica como de menor valor comercial a nível mundial. Em razão deste conceito, no momento não existem inseticidas registrados para a cultura no Brasil, apesar do grande valor regional que apresenta. Para viabilizar um manejo integrado de pragas eficiente, deve-se conhecer a biologia da praga a ser controlada e sua época de ocorrência, de modo a minimizar as perdas e maximizar a produção.

O conhecimento do histórico da área é fundamental, devendo-se obter informações sobre as lavouras antecedentes e as pragas que ocorreram. Recomendam-se ainda vistorias periódicas, por meio de caminhamento sistematizado na lavoura para a observação das pragas presentes, que podem ocorrer inicialmente em reboleiras ou nas bordaduras do plantio.

Coleoptera: Curculionidae

O adulto apresenta coloração escura e 5 a 7 mm de comprimento. As larvas são de coloração branca ou parda, atingindo até 10 mm de comprimento. Empupam no solo, na base da planta. A fase larval leva de 20 a 30 dias da eclosão do ovo até a fase de pupa, que dura de 35 a 40 dias.

O ataque inicia-se, geralmente, pelas bordaduras da lavoura, quando se efetua um eficiente tratamento e seleção de mudas, ou de forma dispersa na lavoura, quando se utiliza material propagativo infestado pela praga.

As larvas penetram pela base do pecíolo, fazendo galerias nos filhotes (Figura 1), destruindo o material de plantio e causando, muitas vezes, o apodrecimento das plantas. Os orifícios abertos pela broca facilitam a penetração de outros organismos decompositores de matéria orgânica, o que pode causar dificuldade na identificação do agente causal do dano.

Foto:Nuno Rodrigues madeira

Fig. 1. Broca (Conotrachelus crsitatus)

As aberturas dos orifícios podem servir como porta de entrada para bactérias do gênero Erwinia (Pectobacterium, Dicheya) que causam podridão-mole e fungos causadores de podridões. Amplamente difundida nos solos brasileiros, Erwinia spp. apresenta somente capacidade de infecção passiva, isto é, não apresenta capacidade de penetrar no tecido (infecção ativa), mas sim penetra por aberturas ou ferimentos causados por outros agentes.

A broca tem como planta hospedeira o ingá (Inga spp.), planta nativa de ampla distribuição no Brasil, onde vive em seus frutos. Deve-se evitar o plantio de mandioquinha-salsa próximo a esta hospedeira natural. Também o salsão é atacado por esta praga, devendo-se evitar seu cultivo próximo a lavouras de mandioquinha-salsa.

Deve-se utilizar plantas matrizes de campos saudáveis, de áreas sem a ocorrência da broca ou, pelo menos, com baixos níveis de infestação. No preparo das mudas, devem ser descartadas aquelas danificadas. O tratamento dos filhotes com cloro ativo (citado no capítulo "Produção de Mudas") é importante para o controle desta praga; todavia, conforme a posição do filhote na imersão na calda, pode não ocorrer o contato das larvas da broca com o produto, devido a formação de bolhas de ar nos orifícios, o que reduz a eficiência dessa prática.

Os restos culturais devem ser retirados da área para evitar a multiplicação da praga e a infestação de novos plantios. Uma das formas de eliminação dos restos culturais pode ser o arraçoamento animal. Todavia,  deve-se tomar cuidado com a quantidade a ser fornecida aos  animais, pois pouco se conhece acerca dos aspectos nutricionais envolvidos (conforme o capítulo "Processamento de mandioquinha-salsa").

Insetos pequenos, de coloração branca a parda ou rósea, sugadores de seiva, que vivem em colônias na região imediatamente abaixo da superfície do solo (Figura 2), no colo da planta ou entre os propágulos em touceiras graúdas. Nas nossas condições climáticas, sua reprodução ocorre por partenogênese telítoca, sem a participação do macho, sendo que todos os indivíduos gerados são fêmeas. Podem ocorrer por todo o ciclo da cultura.


Foto:Fausto Francisco dos Santos

Fig. 2. Pulgão da base do pecíolo (Anuraphis sp. e Aphis sp.)

É comum a associação de formigas "lava-pés" (Solenopsis saevissima) às colônias de pulgão, através de uma relação de simbiose. As formigas conferem proteção aos pulgões, chegando terra junto ao coleto das plantas e entre seus propágulos, para construção de seus ninhos, enquanto os pulgões fornecem uma secreção açucarada utilizada pelas formigas. A presença das formigas "lava-pés" é um indicativo da presença desses afídeos.

Geralmente, estes pulgões não chegam a causar danos sérios às plantas mas, por sugar a seiva das plantas, certamente reduzem seu potencial produtivo, além de serem potenciais transmissores de viroses. Há que se ressaltar o incômodo causado pelas formigas "lava-pés" no momento da colheita.

Deve-se evitar o excessivo fornecimento de nitrogênio, o que favorece o desenvolvimento da praga. O tratamento dos filhotes com cloro ativo é fundamental para controlar a população desta praga no momento do plantio.

Insetos pequenos, de coloração verde clara, passando a verde azulada e a preta, na forma alada. São sugadores de seiva e infestam as folhas, especialmente a face inferior (Figura 3), vivendo em colônias. Nas nossas condições climáticas, sua reprodução ocorre por partenogênese telítoca, sem a participação do macho, sendo que todos os indivíduos gerados são fêmeas. Podem ocorrer por todo o ciclo da cultura, sendo de multiplicação extremamente rápida.

Foto: Nuno Rodrigues Madeira

Fig. 3. Pulgão das folhas (Hiadaphis foeniculi)

Os pulgões sugam a seiva e injetam toxinas, causando severo definhamento das plantas, levando a perdas de até 100% da produção quando o ataque ocorre na fase inicial de desenvolvimento. São, ainda, potenciais transmissores de viroses. Há relatos de perdas altamente significativas em 2002, no Paraná e em Santa Catarina, dizimando diversas lavouras, e em 2004-2005 em São Paulo, Minas Gerais e, especialmente, no Distrito Federal, quando a cultura foi praticamente eliminada, quase não sobrando mudas para os plantios subsequentes.

A ocorrência da praga é favorecida por elevadas temperaturas associadas a períodos de estiagem, além de práticas culturais como o excessivo fornecimento de nitrogênio ou desequilíbrios nutricionais. O manejo da irrigação assume grande importância, devendo-se aumentar a freqüência de rega quando as condições climáticas estão favoráveis à praga. O tratamento dos filhotes com cloro ativo é fundamental para controlar a população desta praga no momento do plantio. Em pequenas áreas, pode ser viável a poda de folhas, o que reduz a infestação da praga e auxilia seu controle.

Acari: Tetranychidae

Os adultos são pequenos, medem cerca de 0,3 a 0,5 mm de comprimento, apresentam coloração esverdeada e são quase invisíveis a olho nu. Vivem em colônias na página inferior das folhas (Figura 4), onde tecem pequenas teias. Causam danos pela sucção de seiva, podendo ocorrer um amarelecimento generalizado na lavoura, perdas de folhas, redução no crescimento das folhas novas e atraso no desenvolvimento das plantas.


Foto: Fausto Francisco dos Santos

Fig. 4. Ácaros (Tetranichus spp.)

Verifica-se ainda o prateamento da face inferior das folhas. Esta praga tem por característica a ocorrência em reboleiras. Quando se trata de infestação do material propagado, as reboleiras ocorrem dispersas na lavoura, ao passo que, quando essas reboleiras se iniciam nas extremidades da lavoura, provavelmente se trata de fonte externa de infestação, através da migração de ácaros alojados em outras plantas hospedeiras dos arredores.

O aumento populacional de ácaros é favorecido por altas temperaturas, excesso de adubação nitrogenada e, principalmente, baixas precipitações. Portanto, adubações nitrogenadas cuidadosas, particularmente na época mais propícia ao desenvolvimento da praga, e o uso de irrigação, são fatores que minimizam os danos econômicos. O controle da expansão das reboleiras, pela retirada das plantas muito atacadas, também é uma medida que pode reduzir a disseminação da praga.

Lepidoptera: Noctuidae

Trata-se de um inseto de hábito noturno, sendo extremamente polífago, ou seja, alimenta-se de uma ampla gama de plantas hospedeiras.

Os adultos são mariposas de coloração marrom e medem cerca de 35 a 50 mm; as lagartas são pardas ou acinzentadas (Figura 5), medindo até 60 mm. Essas abrigam-se sob a superfície do solo durante o dia, atacando as plantas à noite rente ao solo, de modo bastante característico. É comum, ao se observar durante o dia uma planta atacada, encontrar ao seu lado, sob a superfície do solo, a larva enrolada, razão pela qual recebe o nome "lagarta-rosca".

Foto: Nuno Rodrigues Madeira

Fig. 5. Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon)

Praga de ocorrência na fase inicial da lavoura que corta as mudas recém-plantadas ou transplantadas. Com grandes infestações, as raízes tuberosas também podem ser danificadas, apodrecendo posteriormente, devido à penetração de microrganismos. Quando as plantas encontram-se em estado de desenvolvimento mais adiantado não causa maiores danos à lavoura.

Antes do estabelecimento da lavoura, deve-se conhecer o histórico da área, evitando-se áreas anteriormente com gramíneas que formam moitas e servem como fonte de inoculo, tais como o capim-colonião. Recomenda-se, ainda, a destruição dos restos culturais e a rotação de culturas. O revolvimento do solo é bastante eficiente no controle desta praga, pela exposição de ovos, lagartas e pupas ao dessecamento pelo sol. O preparo do solo com antecedência de 20 a 25 dias, efetuando-se nova gradagem antes do enleiramento, pode ser útil na redução da população desta praga.

Insetos sugadores de seiva e transmissores de viroses, as cigarrinhas (Empoasca spp.) podem infestar campos de mandioquinha-salsa, inclusive com grandes populações, porém não há relatos acerca de prejuízos causado por esta praga.

As pragas desfolhadoras como besouros, dentre eles, as vaquinhas (Diabrotica spp. e Cerotoma spp.) e o Idi Amim (Lagria villosa), ou gafanhotos que se alimentam das folhas, causam a redução da área fotossintética, depauperando a planta.

Há relatos de ataques esporádicos de outras larvas de solo atacando mandioquinha-salsa, às vezes, causando sérios prejuízos. Podem ser relacionadas as larvas de besouros da família Scarabeideae e Crisomelideae, dentre elas larva-arame (Conoderus spp. e Melanotus spp.) e larva-alfinete (Diabrotica spp.) que atacam, comumente, outras raízes como batata e cenoura. Estes ataques podem ocorrem por falta do hospedeiro preferencial e de práticas culturais inadequadas. Recomenda-se a escolha de local adequado, preparo prévio da área, seleção de mudas sadias e eliminação de restos culturais.

As formigas cortadeiras, saúvas (Atta spp.) e quenquéns (Acromyrmex spp.), podem esporadicamente atacar mandioquinha-salsa no estágio inicial de desenvolvimento, cortando suas folhas, o que pode levar a falhas no caso de esgotamento das reservas das mudas recém-plantadas. Entretanto, esta praga é rara na cultura, só ocorrendo quando ocorrer baixa disponibilidade de outras fontes de alimento preferencial.

Colônias de cochonilha-branca podem, esporadicamente, infestar mandioquinha-salsa, havendo relatos de danos causados por esta praga no Distrito Federal e no Sul de Minas Gerais, no início da década de 90. Podem atingir altas populações nas folhas e touceiras, especialmente na fase de maior crescimento vegetativo das plantas. Reduzem a emissão de folhas, levam ao encarquilhamento destas, podendo reduzir a produção. A seleção e o tratamento de mudas, a poda de folhas durante a fase vegetativa são práticas que reduzem os danos desta praga. Quando em altas populações, associada à poda de folhas, é útil a aplicação de óleo mineral.

Essas pragas raramente atingem níveis de dano econômico em mandioquinha-salsa, a não ser que haja intenso desequilíbrio nutricional ou desbalanço hídrico ou, ainda, desequilíbrio ecológico nos arredores da área de plantio.